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São 7h33. Começa agora mais um Zoom na Rádio Observador com Paulo Ferreira e Miguel Cordeiro. E começamos pelos Estados Unidos.

Sim, vamos para os Estados Unidos e para uma discussão que está a agitar a eleição democrata. Vou usar uma expressão utilizada pelo New York Times: "O pai e a mãe estão a discutir na sala". É assim que a publicação norte-americana descreve a nova polêmica no Partido Democrata, uma polêmica entre Bernie Sanders e Elizabeth Warren. Esta noite houve debate, como já escutámos nos noticiários aqui na Rádio Observador. Foi o último debate antes do arranque das eleições no partido e o primeiro depois dos ataques ao Irão. É um debate que já seria importante, mas que ganhou uma nova polêmica. Foi mesmo no dia de véspera. Tudo começou com uma notícia divulgada pela estação televisiva CNN. Resumindo, em 2018, a senadora Elizabeth Warren convocou uma reunião no próprio apartamento em Washington e nessa reunião com Bernie Sanders, Elizabeth anunciou que tinha intenções de entrar na corrida presidencial. De acordo com a CNN, Bernie Sanders respondeu que uma mulher não podia vencer essas eleições.

Estava, de facto, o caldo entornado. E, de facto, esta polêmica começou no início da semana e levou os dois senadores a responderem praticamente de imediato.

Sim, responderam logo de seguida. Bernie Sanders negou, disse que seria ridículo que no dia em que Warren anuncia uma candidatura, ele dizer que uma mulher não pode vencer. Já Elizabeth Warren respondeu que entre os tópicos desta reunião estava o que aconteceria se os democratas nomeassem uma candidata e que achou que uma mulher podia vencer e que Bernie Sanders terá discordado dessa opinião de Warren.

E foi com esta polêmica que chegamos, basicamente, ao debate desta madrugada. Mas foi um debate entre os seis candidatos, embora este tema tenha sido importante, e tudo indicava que o conflito com o Irão e a política externa seria o tema em destaque, por razões óbvias. Foi, de facto, falado, mas o grande momento da noite foi mesmo este diz que disse, se quisermos, entre Sanders e Warren.

E foi esse diz que diz que marcou, porque ambos os candidatos foram confrontados com o caso. Curiosamente, a CNN, que divulgou a notícia, foi quem emitiu este debate e foi Sanders o primeiro a responder. A jornalista Abby Phillip, correspondente da CNN na Casa Branca, perguntou ao senador por que razão disse a Warren que uma mulher não poderia vencer uma eleição presidencial. Sanders respondeu:

"Well, as a matter of fact, I didn't say it. Bem, na verdade, eu não disse isso e não quero perder muito tempo com isto, porque é isso que Donald Trump e alguns órgãos de comunicação social querem. Quem me conhece sabe que é incompreensível pensar que uma mulher não pode ser presidente dos Estados Unidos. Pode ir já ao YouTube. Há um vídeo meu com 30 anos em que falo sobre como uma mulher se poderia tornar presidente dos Estados Unidos. Em 2015, desisti de facto em favor da senadora Warren. Houve um movimento para a chamar a concorrer à presidência e sabe que eu fiquei para trás. Depois a senadora Warren decidiu não concorrer e só aí é que eu decidi avançar. Hillary Clinton ganhou o voto popular de três milhões de pessoas. Como é que alguém pode não acreditar que uma mulher se pode tornar presidente dos Estados Unidos? E deixe-me ser bem claro: se alguma das mulheres neste palco ou algum dos homens ganhar a indicação, eu espero que isso não aconteça, porque espero ser eu o indicado. Mas se algum deles ganhar, farei tudo o que puder para garantir que sejam eleitos e para derrotar o presidente mais perigoso da história do nosso país."

Depois desta resposta, a jornalista quis esclarecer toda esta questão. Disse ou não disse que uma mulher não podia vencer as eleições? Sanders voltou a garantir que não disse tal coisa na reunião com Warren em 2018. Neste momento, a jornalista da CNN, e volto a referir, a estação que divulgou a notícia, dirigiu-se à senadora Warren e perguntou como se sentiu quando Sanders disse que uma mulher não podia vencer as eleições. A plateia riu-se desta afirmação da jornalista, uma vez que contrariava a versão de Sanders e começou por responder. A senadora Warren disse que não concordou com ele, que o Bernie é amigo dela e que não está no debate para o atacar, nem na campanha para o atacar. E referiu também que neste debate, em que estão seis candidatos, duas mulheres, só as mulheres é que venceram todas as eleições e que conseguiram sempre vencer candidatos republicanos nas várias eleições em que participaram. Depois deste diz que diz, no fim do debate, um novo momento quente, Warren dirigiu-se a Sanders. O senador tentou esticar a mão, mas a candidata não o cumprimentou e não cumprimentou o adversário e ali por 10 segundos trocaram apenas umas palavras. Todo este caso faz aquecer então as eleições democratas. Sanders e Warren eram considerados parceiros, são o rosto da ala mais liberal do partido e são uma voz contra os outros candidatos, que são mais moderados. Este conflito vem, de facto, romper esta união entre Sanders e Warren. Os restantes candidatos riem-se com a situação e vão seguindo um ditado português: entre marido e mulher, ninguém mete a colher.

Ora bem, essa sabedoria antiga. Debates que acabam sem apertos de mão, também já vimos isso por cá. De um diz que disse, que é esse das primárias democratas americanas, passamos agora para um diz que disse, mas este envolve um papa emérito e um cardeal. Eu acho que nesta questão hierárquica ficamos a ganhar com este agora, não é?

Sim.

Porque afinal Bento XVI é ou não o coautor de um livro onde se defende que o celibato dos padres deve manter-se obrigatório? A polêmica nasce, sobretudo, pelo momento em que está a ocorrer. Por quê? Porque o Papa Francisco deverá, nos próximos meses, tomar uma decisão sobre este delicado assunto. Podem ou não os bispos e sacerdotes ser homens casados? Há mais de mil anos que esta lei de celibato atual está em vigor na Igreja Católica.

Mas a falta de padres católicos, que se acentuou nos últimos anos, está a fazer a hierarquia repensar este assunto delicado. É uma das soluções para tentar alterar esta falta de vocação e é precisamente a mudança do celibato, permitindo a ordenação de pessoas casadas como padres.

É isso. E esse momento é, por isso, delicado para que o Papa Bento XVI, que decidiu abdicar e passar para o banco de trás do autocarro do Vaticano, para que ele possa agora vir lá de trás dar uns palpites públicos sobre a forma como é conduzida a grande viatura. Mas foi isso que aconteceu na semana passada, quando o jornal francês Le Figaro publicou excertos de um livro assinado também por Joseph Ratzinger e pelo cardeal guineense Robert Sarah e que será publicado proximamente. Nesse texto, que está incluído nesse livro, ambos defendem a importância de manter a regra do celibato obrigatório para os padres da Igreja Católica. Dizem mesmo que essa regra é indispensável. E perante a polêmica e a suposta deselegância, Ratzinger veio dizer que nada tem a ver com aquele texto, quis desmarcar-se da autoria do livro, mas o cardeal guineense, desmentido em público, garante que sim e no Twitter mostrou mesmo as cartas assinadas por Ratzinger, onde este envia o texto e autoriza depois a sua publicação, onde expõe então a sua posição muito firme sobre o celibato. Ora bem, com tais provas documentais, parece haver aqui poucas dúvidas. Primeiro, Bento XVI é frontalmente contra o fim do celibato absoluto dos padres, no fundo, reafirmou uma posição antiga que tinha. A publicação deste texto, neste momento, não é simpática propriamente para o Papa Francisco. E também podemos concluir que a forma como se faz política no Vaticano não é diferente nas rasteiras e nos jogos de bastidores daquilo que acontece no mais comum dos partidos. No fundo, perdoa-lhes Senhor, por vezes eles não sabem o que fazem. Que maravilha! Hallelujah, de Leonard Cohen, no fim do Zoom de hoje com Paulo Ferreira e Miguel Cordeiro. Se não ouviu tudo, pode fazê-lo através do nosso site e também no nosso podcast. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.