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Crítica de Livros

Édipo à portuguesa

O princípio de "O Meças", de Rentes de Carvalho, pode ser um pouco árido mas Carlos Maria Bobone encontrou também o melhor lado do autor, seguríssimo e acima dos seus contemporâneos.

Natacha Cardoso / Global Imagens

Autor
  • Carlos Maria Bobone

Autor: J. Rentes de Carvalho
Título: O Meças
Editora: Quetzal
Páginas: 180
Preço: 15,50€

O MEÇAS - capa

O Meças, a quem as peça, terá muito por onde se valer. O livro é uma espécie de electrão, cheio de energia comprimida em centena e meia de páginas, vozes entarameladas à moderna, e um viço que só não é inesperado diante do octogenário autor porque este se chama J. Rentes de Carvalho.

Este vigor, aliás, contagia a personagem principal, o colérico António, Antolinho, Meças, homem de amiudadas fúrias mal contidas, afamado ferrabrás e sustento contrariado de uma apetitosa nora e de um filho de flácidas carnes e ainda mais flácido brio. É o filho que é gordo – como António Meças faz questão de lho lembrar frequente – mas o pai que enche o miolo do livro: as personagens, o enredo, a discreta filosofia que bica uma ou outra vez o texto, tudo gravita, como já o denuncia o título, em torno do Meças.

E é por isso mesmo, por António Meças ocupar todas as páginas, que um dos mais importantes pontos estilísticos se torna um pouco discutível. Rentes de Carvalho escreve bem. Tem mestria no uso das palavras, um arcaboiço linguístico escorreito — sem se escusar ao uso da língua — e gere com experimentada facilidade um arsenal admirável de técnicas estilísticas. Fala uma linguagem popular, não no sentido de comum, mas no sentido etnográfico do termo; castiça, perspicaz na captação das usanças vernáculas e, mais importante, perfeitamente adaptada à personalidade do Meças. Se o Homem é de baixa estirpe, também a linguagem não se inibe de ir tripa abaixo, pelo mais genuíno e latrinário calão; se ao Homem faltam palavras que expurguem os seus fantasmas, também o texto dispensa advérbios, conectores, adjectivos, açodando a narrativa para que ela acompanhe o furacão Meças.

O problema é que a personalidade do Meças contagia outras vozes do enredo. O livro está dividido em quatro partes cruzadas: duas escritas na primeira pessoa – a pessoa de um médico – e duas na terceira. Mas dentro do texto relatado na terceira pessoa, o discurso não é homogéneo. Está organizado como se uma câmara estranha entrasse no ponto de vista das personagens e, qual Zelig, lhes tomasse as características. Isto vê-se quando a lente se aproxima da nora – Isaurinha – e a gramática se torna um pouco menos torcida, se esfuma o jargão popular e o epicentro do texto se desvia para as inseguranças da mulher, e não para memórias de emigrado ou acções cruentas. Mas acontece, também, que a estas personagens diferentes não corresponde uma personalidade narrativa tão díspar. Há esforço, mas não há tanto resultado. Persiste a enumeração, a rápida sequência de acções, que não jogam tão bem com o pachorrento filho – o crónico desempregado Abel – como com o Meças.

Isto porque – nota-se pelo texto – o estilo do Meças é aquele que Rentes de Carvalho tem mais trabalhado: enxuto mas duro, claro mas trabalhado e rural sem deixar de ser moderno. Quando foge dele, o texto perde força; e, neste caso, foge sem precisar de o fazer. A narrativa está de tal forma concentrada no Meças que não era necessária a alternância de visões. Uma voz, se for melhor do que as outras, não aborrece; o romance perde mais com a entrada em cena da mais diferente das vozes do que perderia com a perpetração da mesma ao longo de todo o texto.

Isto porque a entrada em cena da voz do médico, embora tente o escritor pelo desafio de criar um estilo novo, expõe ao mesmo tempo os maiores defeitos e as maiores qualidade de Rentes de Carvalho. Mostra-nos como tem uma narrativa tão adequada à personagem principal, e como a qualidade desce quando entra em cena uma personagem mais reflexiva. Mostra a dimensão do seu génio descritivo, a sua capacidade de precisar num colorido próprio os contornos da acção e, ao mesmo tempo, a falta de uma habilidade arcádica, comparativa. Mostra-se muito certeiro na descrição daquilo que vê, mas não vê nada que nós não vejamos também.

Não que precisasse deste segundo lado, note-se. Rentes de Carvalho, no seu melhor, é bastante bom. Mas é precisamente por não precisar dele que talvez não o devesse usar, porque corre com isso o risco de diminuir o carácter das suas personagens. Não haveria problema se o filho e a respectiva mulher se confundissem no mal-humorado estilo do Meças; mas talvez haja problema em que o estilo deles se confunda com o do Meças; não haveria problema em cortar o pio ao médico; talvez haja problema em dotá-lo de uma voz a que se retiraram os timbres mais interessantes do estilo de Rentes, sem lhe acrescentar nada para troca.

O Meças, como veremos, é uma personagem riquíssima. As outras, como secundárias que são, não precisavam de tanto relevo: o livro já tem de sobra o toque contemporâneo que o contraponto coral imprime. O Meças, de si, tem quanto baste, tanto que os outros, como ele próprio reconhece, vivem à sua custa. Filho e nora, que na sua filial condição não escapam à misantropia activa do Meças, vivem a expensas dele. O filho, perpétuo trabalhador em potência, é vítima do mais profundo desprezo. A nora, encastada na casa contra vontade, vítima do mais confuso desejo. Meças maltrata um e outra, tanto o que despreza quanto a que deseja, insulta, bate, viola, e só não os mata porque já matou outro, que lhe abusava da irmã.

Este sucesso – a sua vocação assassina confirmada em idade quase púbere – é-nos revelado em recordações que se imiscuem na acção e ajudam a compreender Meças como um traumatizado. Havia um engenheiro que abusava da sua irmã e António Meças, menos por protecção fraterna do que por uma inconfessável paixão, mata o tal engenheiro. Isto, que nos é revelado a meio do livro, desencadeia um dos mais interessantes e virtuosos recursos narrativos da história. É que a primeira parte passa-se na expectativa de uma revelação; mas quando esta acontece e ficamos a saber do crime, Rentes de Carvalho deixa de lado uma ponta solta que desembocará numa reviravolta narrativa. Rentes consegue, com um segredo monumental revelado – que poderia arrefecer o interesse do leitor – manter a expectativa e, depois, cumpri-la.

A revelação de meio do livro ajuda a perceber o comportamento desviado do herói; a incapacidade de amar o filho, a brutalidade de querer a nora mas querer nela a irmã, a confusão afectiva que o leva a querer que o filho saiba que lhe dormiu com a mulher. Este desvio, no entanto, é explicado por causa de um desvio primordial: o amor pela irmã. O que acontece é que o fim consegue explicar este comportamento.

António Meças, como já dissemos, é uma personagem rica. Mas além de rica, é uma personagem majestática. Não pelos laivos autoritários, nem por inexistente fidalguia, mas pelo seu comportamento real. Como D. Manuel, rei, Meças rouba a mulher ao filho; como Édipo, rei também, mata o pai e ama a mãe, sem saber que são pai e mãe.

É isto que o famoso médico nos vem revelar. Revela-nos que é filho do engenheiro a quem Meças abriu a garganta e que, sabe-o pela legítima, Meças não é irmão mas sim filho da jovem a quem o engenheiro dedicava uns apartes no seu casamento. À fúria contra o engenheiro chamava-o o sangue, protestando por ver a incógnita mãe sujeita àquele ritual tão bárbaro. O difícil temperamento de Meças vem, assim, do mais clássico dos traumas psicanalíticos, urdido à boa maneira trágica: por um conjunto de acasos que, não importa o quanto espolinha, fazem do herói um joguete nas mãos do destino.

Rentes de Carvalho foge à tentação de analisar aquele que já é um mais que estafado problema, e deixou-nos só com a força narrativa do episódio. Mas foge, também, à força da sua própria personagem. É que o médico conta-nos a nós, leitores, o pequeno tição na genealogia do herói; não o conta ao Meças. Ora, seria interessante ver como esta personagem, que explode com tanta facilidade diante dos pequenos problemas, reagiria perante uma contrariedade do tamanho do seu mau feitio. Quando a personagem podia atingir toda a sua potência, Rentes de Carvalho suspende-a, o que é pena.

Trata-se, em resumo, de um livro interessante, que poderia ser mais desenvolvido. Embora a história do meio-irmão, por exemplo, seja um pouco preguiçosa, poderia ser mais desenvolvido sobretudo pelo mérito do autor em criar uma personagem com grandeza para mais. É um livro forte, com preocupações estilísticas, embora não propriamente elegante: tem a estranheza de uma alfaia funcional e exótica. Nota-se, uma ou outra vez, que está a forçar estilo (como é que, no espaço de uma vida, se vende algo a uns literários trinta mil réis e se fala do euromilhões?) e a sintaxe, embora a confusão mental do Meças a desculpe, por vezes não é muito prática. O princípio, feito de retalhos e rememorações, é um pouco árido mas, chegada a naturalidade do discurso e da história, Rentes de Carvalho mostra o seu melhor lado: o de um escritor seguríssimo que, aproveitando o seu insulamento geográfico em Amesterdão, não está apenas a Norte, mas também acima da maior parte dos seus contemporâneos.

Carlos Maria Bobone é licenciado em Filosofia.

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