Logo Observador
Crítica de Livros

Sol, artesanato e política

"A Bem da Nação", de Cândida Cadavez, soube entender a acuidade das relações entre o turismo e a política, mas perde por só ser publicado, quatro anos depois de estar concluído.

Bernardo Marques e Carlos Botelho dançam na festa de inauguração do Pavilhão de Portugal na Exposição de Paris de 1937

Horácio Novaes/Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian

Autor
  • Vasco Rosa

Título: A Bem da Nação. As representações turísticas no Estado Novo entre 1933 e 1940
Autora: Cândida Cadavez
Editora: Edições 70
Páginas: 352
Preço: 17,90 euros


Teses académicas feitas livro só ao fim de quatro ou cinco anos — período em que autores ou autoras se esquecem delas por compreensíveis razões de nojo ou repouso, após “trabalhos forçados” —, são quase de regra entre nós e cada vez mais, porque o ramo da indústria editorial que presta atenção activa ao que as universidades produzem estreitou-se a olhos nunca vistos, sem que isso incomode as próprias universidades ou o serviço público a que deveria interessar que o conhecimento de nós próprios avançasse um pouco mais, mas não facilita a vida aos editores comprando-lhes duas ou três centenas de exemplares para bibliotecas…

Além disso, trabalhos sobre temas batidos por uma súbita e intensa incidência de atenções diversas — que se cruzam, estimulam, complementam e enriquecem —, correm sérios riscos de rápida erosão e perda de validade, quando tal salto coincide precisamente com esse período de quarentena “pós-traumática”. Ou a tese académica em causa é suficientemente boa e referencial para resistir a tais novidades frescas de tinta, ou será literalmente submersa por elas, se nem sequer lhe for dado um tónico de actualização científica, cuja ausência não deixará de ser notada.

Mais ainda: se autor ou autora de uma tese académica de cinco anos perceber que o seu trabalho foi — felizmente para uns, infelizmente para outros —, ultrapassado em termos tais que a sua transposição para livro nada mais possa representar do que um acesso de vaidade irreprimível ou uma mão-cheia de créditos úteis a uma carreira universitária reduzida aos regimentos actuais, que atitude lícita e lúcida dele ou dela podemos esperar?

Não é possível ler e pesar este trabalho de Cândida Cadavez escrito em 2013 sem olhar para estas questões e para a pequena pirâmide de contributos muito recentes acerca de António Ferro, Oliveira Salazar, Duarte Pacheco, o Secretariado de Propaganda Nacional, Cottinelli Telmo, Pardal Monteiro, Cassiano Branco, José de Figueiredo, a Exposição do Mundo Português e em geral a arquitectura e o design expositivo e editorial naquelas décadas modernistas de 1920-40, e perguntarmo-nos de imediato se tudo isso veio desvalorizar — ou não — o livro que agora temos nas mãos.

Também de imediato se torna imperativo perceber por que a autora decidiu reduzir a escassos sete anos (e precisamente a estes: 1933-40) o seu foco sobre “representações turísticas no Estado Novo”, quando só em Fevereiro de 1940 (p. 268) o dinâmico e lúcido António Ferro foi investido de tutela sobre esse sector, que ele tão vivamente melhorou até ao fim do seu mandato de director do Secretariado de Propaganda Nacional, nove anos depois, com a plena campanha de Panorama. Revista Portuguesa de Arte e Turismo (1941-50), o inteiro circuito e decoração das primeiras sete pousadas (1942-48; seriam 32 antes de 1960!), o Museu de Arte Popular (1948), etc. Além do notório crivo nacionalista (o que não constituía novidade à época…), também obras públicas e iniciativas privadas foram impulsos poderosos nessa direcção e para lá dessa data-limite: as gares marítimas da capital foram inauguradas em 1943-48, os invulgares painéis de Almada Negreiros ali produzidos em 1945-48; o Ritz, o primeiro grande hotel de Lisboa, foi autorizado por Salazar dez anos depois da exposição de Belém e construído em 1952-59; o grande café lisboeta Portugal, com monumentais frescos regionalistas de António Soares, abriu ao público em Maio de 1948; e a estação ferroviária da algarvia Vila Real de Santo António, obra de Cottinelli Telmo, entrou ao serviço em 1945. José Leitão de Barros, outro dos argutos colaboradores de Ferro, fez em 1942 um filme documentário sobre o Diana Bar, um edifício de linhas modernistas na marginal da Póvoa do Varzim, bem perto do casino. Até o restauro historicista de muitos castelos, igrejas e outros monumentos nacionais, levado a cabo pela respectiva direcção-geral, se prolongaria muito para além do marco dos duplos centenários.

Contracapa da brochura Guia-Álbum da Costa do Sol (s/ data)

Inversamente, pode lembrar-se que em Janeiro de 1929 — certamente por contágio da magnética exposição ibero-americana de Sevilha desse ano — haviam sido facilitados vistos renovados a estrangeiros que quisessem demorar-se em estações balneares e termais portuguesas (um ramo de turismo interno e externo em franca expansão), depois de em 1927 terem sido criadas carreiras aéreas regulares de Madrid e Sevilha a Lisboa. Toda a propaganda — e evidência — de Lisboa como “cais da Europa” para as grandes linhas transatlânticas da América do Norte e do Sul vinha claramente de trás, como de 1924-27 o grande Guia de Portugal em formato de bolso desenvolvido pela equipa de Raul Proença na Biblioteca Nacional (dois primeiros volumes, c. 1500 pp.) e de 1928 o primeiro Mapa das Estradas preparado pelo Automóvel Club de Portugal, em franco dinamismo sob o impulso da presidência de Ricardo O’Neill. E, claro, como Cândida Cadavez bem lembra à p. 182, foi em 1925 que Fernando Pessoa escreveu What the Tourist Should See em Lisboa, Sintra e Queluz — um guia só conhecido em 1992 e que José Fonseca e Costa adaptou em 2009 num documentário para o Turismo de Portugal, mas que nos diz muito sobre o ambiente dos anos 1920. Estações ferroviárias decoradas a painéis de azulejos com paisagens, monumentos e outros “motivos turísticos” — algo que a autora infelizmente ignorou — constituíram contributos adicionais desde cedo (Aveiro 1916, Santarém 1927, …) e continuariam: Mafra 1934, Pinhão e Alijó 1937, Leça do Bailio 1938, Beja e Vilar Formoso 1939, etc.

Mais ainda: como demonstrou Susana Mexia Lobo em Cenografias do Lazer na Costa Portuguesa (tese de doutoramento de 2012, ainda inédita, e não referida por Cadavez), vários planos gerais de desenvolvimento, solução urbanística e melhoramento, como então eram chamados, foram imaginados de 1920 a 1949 por arquitectos de primeiríssima linha como Carlos Ramos (Moledo, 1929), Cassiano Branco (Costa de Caparica, 1929), Jorge Segurado e António Varela (Cabedelo, Viana do Castelo: 1933-41), Luís Cristino da Silva (Vieira de Leiria, 1945), José de Lima Franco (São Pedro de Muel, 1946-47) e Miguel Jacobetty (Santa Cruz, 1949).

Se o lapso temporal implícito do objecto de estudo parece desajustado — e o próprio livro o estica para cima e para baixo, quando necessário —, não há dúvidas de que a autora de A Bem da Nação soube entender a acuidade das relações turismo-política ou vice-versa, que aliás voltou agora com força imprevista: a autarquia de Lisboa está a servir-se dos abundantes recursos gerados pela visita massiva de estrangeiros para financiar extensa obra urbanística de inegável pontualidade eleitoralista, e ao mesmo tempo que com uma mão facilita a voraz gentrificação do “centro histórico” com a outra (na testa, mui pesarosa…) mostra-se incomodada com reabilitações prediais de fachada (que afinal sanciona e autoriza), ou exibe — busca até — troféus internacionais que reforcem a curiosidade sobre Lisboa, mas descuida a qualidade devida aos de cá em higiene pública, pontualidade dos transportes e muito mais, embora se dê ares de vanguardista ambiental movido a pedais e duas rodas, tomando por mobilidade urbana o que não passa de modismo de juventude reincidente.

Como Helena Matos escreveu num livro sobre a Costa do Sol, “o turismo é uma espécie de jóia da coroa do trabalho de propaganda” (2002, p. 82). E foi-o certamente por toda a parte num tempo — que é o deste livro — em que a afirmação das nações e dos nacionalismos estava no auge pelas melhores e piores razões, e a posição geográfica de extremo atlântico da Europa colocava Portugal em especial rota de internacionalização. Ferro percebeu melhor do que ninguém a importância do país não falhar a demonstração do seu valor e singularidade nas feiras internacionais da década de 1930 que exibiam o quem é quem e o quê, mas o programa turístico do SPN só foi accionado quando essa presença internacional já estava consolidada (e até várias vezes premiada) e a não-beligerância ou sinuosa “neutralidade” portuguesa na guerra de 1939-45 proporcionavam ao pequeno país meridional e atlântico — orgulhoso de ser o mais antigo dum continente a ferro e fogo — condições excepcionais para acolher gente em busca de tranquilidade. Aqui à ilharga, uma Espanha física e moralmente destroçada por uma guerra civil fracticida e antagonismos viscerais à flor da pele estava nos antípodas da mansidão lusitana, que Salazar soube entender, gerir e aproveitar autocraticamente.

Essa atenção ao turismo era afinal o desdobrar lógico dum processo de consolidação desenvolvimentista, sobretudo protagonizado pelo visionário ministro e autarca Duarte Pacheco, precocemente falecido em 1943. No discurso de Salazar na cerimónia fundadora do SPN, Cândida Cadavez sublinhou expressões como “hospitalidade portuguesa” e “visitantes estrangeiros” (p. 110), mas os alicerces de uma política de turismo — incluindo classificação hoteleira e formação de intérpretes (p. 132) — começaram a ser fixados ainda em Monarquia, pela Sociedade de Propaganda de Portugal, mas também pelo Automóvel Club, pelos Caminhos de Ferro, pelos jornais e ainda por investidores nacionais e estrangeiros, como sucedeu no Estoril. À SPP se devem — como a autora lembra a pp. 162, 189 — “a primeira linha de navegação marítima entre Nova Iorque e Lisboa”, “a ligação diária entre Paris e Lisboa pelo Sud Express”, isenções fiscais para novos hotéis na capital e no Porto, um inventário do património cultural e o início da propaganda de turismo em delegações no estrangeiro. Em 1917 Raul Lino publicou um projecto a que chamou “hotel modelo” para ser construído no sul do país e orientar o “industrial hoteleiro da província” (cit. p. 203). Década e meia depois, foi lançado um concurso para pequenos hotéis, construídos e decorados com materiais e artes populares de cada região de que resultou uma exposição que durante quase um ano percorreu o país num vagão especial cedido para o efeito pelos Caminhos de Ferro Portugueses.

A “consciência turística” a que António Ferro se referirá num discurso de 1943 destilou de algum modo todo este impulso precursor, mas também os frutos de três congressos nacionais de automobilismo e aviação civil, e turismo, realizados em 1935-37 — donde emergiu o belo conceito de “estradas de turismo” —, e mais difusamente do congresso da União Nacional de 1934, onde se reclamou por paradores y albergues como os espanhóis, costumes “tipicamente portugueses” e restauro patrimonial (pp. 118-20).

Alguns dos envolvidos nesses debates evidenciavam uma abordagem comparatista, não isolacionista (p. 172), e até a ousadia de imaginar uma linha férrea Tomar, Alcobaça, Batalha e Nazaré (p. 142). Em Outubro de 1936, Alexandre de Almeida Borges, responsável do Palace Hotel do Buçaco, sentiu-se legitimado por um ambiente favorável ao turismo para reclamar — em jornais que eram censurados — cuidados dos Serviços Florestais no parque envolvente, que salvassem «o decoro nacional» (cit. p. 173).

Novo passo para que o turismo ascendesse na agenda política foi dado pela Alliance Internationale de Tourisme, que em Abril de 1936 realizou a sua assembleia anual em Lisboa, com delegados de quase cinquenta países. Outro foi — coincidente com este — o grande concurso fotográfico Uma Viagem através de Portugal, dinamizado pel’O Século, que divulgou “grandes estabelecimentos e centros de turismo, como hotéis, casinos ou termas”, num “verdadeiro dicionário geográfico das belezas picturais e da riqueza monumental histórica e artística das várias regiões do país” (p. 153). Outro ainda, foi o I Cruzeiro de Férias às Colónias da África Ocidental (1935), que Cadavez não menciona.

As Marchas Populares de Lisboa — “excelente cartaz turístico”, ainda hoje! — tentaram de algum modo replicar festividades madrilenas e sevilhanas que eram muito apreciadas entre portugueses, mas cuja tradição e colorido também não se afastavam, afinal, do que se fazia desde sempre noutros recantos do país: as Festas dos Tabuleiros em Tomar, as açorianas Festas do Espírito Santo ou as de Nossa Senhora da Agonia, em Viana do Castelo, entre outras. (Este é um bom exemplo de como a extrema politização de certa historiografia actual contaminou a abordagem de qualquer êxito estado-novista, por singelo que seja.)

Por tudo isso, seria legítimo que o primeiro marco da cronologia deste livro fosse o ano 1936, como antecâmara da entrada em cena do consistente, hábil e imparável director do SPN na concepção e direcção de uma política de turismo. Lançados em 1940, Paisagens e Monumentos de Portugal de Luiz Reis-Santos e Carlos Queiroz, com fotografias de Mário Novaes, ou o sempre admirado Arte do Povo Português, com desenhos de Paulo Ferreira, são dois ícones do que as equipas geridas e estimuladas por António Ferro podiam e sabiam fazer, e nunca antes havia sido feito com tal excelência. Outro colaborador, o luso-alemão Emmerico Nunes concedeu o seu talento de ilustrador a uma “ingénua” Cartilha da Hospedagem Portuguesa de 1941, que já antecipa outras campanhas de bom gosto junto do comércio urbano, dos hotéis e das estações ferroviárias, etc. E Panorama, claro, é um indisputável marco na nossa história editorial e artística.

O caso do Estoril, ou da inteira Costa do Sol, esclarece sobremaneira que muito desse tema vinha em ascensão desde o início do século. Cândida Cadavez ressuscita uma curiosa e classicista Nota para uma Campanha de Propaganda da Costa do Sol redigida por Fernando Pessoa em 1919, e desenha a traços demasiado rápidos a história dessa “estância de luxo, opulência e sofisticação” (também ela objecto de bibliografia muito recente), sobretudo para contrapô-la ao “turismo médio ou popular”, ideologicamente formatado para servir de tampão às classes trabalhadoras, arregimentadas em colónias de férias subtilmente vigiadas ou pastoreadas num excursionismo domingueiro educativo das glórias pátrias de antanho (“lições vivas de História”, cit. p. 214) e da bondade do regime de Oliveira Salazar. Concedendo tarifas reduzidas, os Caminhos de Ferro Portugueses “desempenharam — aponta a autora — um papel relevante na estratégia do regime”, mas talvez não fosse tão mau como isso: afinal, facilidades como essas persistem ainda entre nós e são praticadas em muitos países… E algum turismo rural de aldeias históricas, de xisto e outras inspira-se ainda no museu vivo de Monsanto, “a aldeia mais portuguesa” — que afinal nunca desdenhou o prémio que recebeu…

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt