Fado

Óscar Gomez, o cubano que cruzou o fado com jazz

É produtor musical e ganhou cinco Grammys. Nasceu em Cuba e é um crítico do castrismo. Agora criou um disco que muda a sonoridade da canção de Lisboa. Carlos do Carmo é uma das vozes.

Carlos do Carmo foi convidado por Óscar Gomez para o álbum "Jazz in Fado"

FILIPE FERREIRA

Autor
  • Bruno Horta
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Tem 67 anos, vive em Espanha desde criança e trabalha como produtor musical há quase meio século. Mas foi há apenas três anos que verdadeiramente descobriu o fado. “Tinha umas referências muito superficiais e quando entrei nas casas de fado de Alfama e do Bairro Alto senti-me tão bem, tão cómodo, tão em casa, que comecei a planear este projeto”, conta Óscar Gomez, produtor do álbum “Jazz in Fado”, publicado esta semana.

É um disco que funde a canção de Lisboa com o subgénero jazz latino e chega às lojas a poucos dias do sexto aniversário da declaração do fado como Património Cultural Imaterial da Humanidade – o que aconteceu a 27 de novembro de 2011, por decisão da UNESCO.

[vídeo promocional de “Jazz in Fado”]

Jazz in Fado – que inevitavelmente traz à memória o encontro histórico do saxofonista americano Don Byas com Amália Rodrigues, em 1968 – é composto por dez temas e inclui clássicos como “Lisboa, Menina e Moça”, pela voz de Carlos do Carmo, “Escrevi o teu Nome no Vento”, por Carminho, “Estranha Forma de Vida”, por Hélder Moutinho, ou ainda “Limão”, interpretado por Raquel Tavares. Em comparação com os originais, mudaram os instrumentos e os arranjos em favor de uma sonoridade ora “jazzy”, ora tropical.

As gravações decorreram entre Lisboa e Madrid, durante cerca de seis meses. Alguns intérpretes estiveram na capital espanhola, para gravar no estúdio Cargo Music, de que Óscar Gomez é proprietário, outros registaram a voz em Lisboa, para que depois o produtor fizesse as misturas em Espanha. A música ficou a cargo de vários instrumentistas cubanos, como Pepe Rivero e Ivan “Melon” Lewis.

O álbum é resultado de um enamoramento”, sublinha Óscar Gomez. “Apaixonei-me pelo fado quando o conheci pessoalmente. Estive com Mariza, que não está no disco, mas de quem sou amigo, e outros que estão no disco, como Carminho, Carlos do Carmo, Marco Rodrigues, António Zambujo, Cuca Roseta. Vi alguns deles a cantar ao vivo em casas de fado de Lisboa. Desconhecia o amor que os portugueses, especialmente os lisboetas, têm à sua música. Um respeito enorme pelo fado e pelos fadistas. Isso cativou-me muito.”

A escolha dos temas e dos intérpretes teve ajuda da editora, a Universal, nomeadamente de Tiago Palma, do departamento de artistas e repertório, e Ana Hernandez, diretora geral da Universal em Portugal. “Eles criaram a ideia e começámos a trabalhar juntos. Fizeram-me muitas propostas. O disco tem dez fados, mas começámos por escolher a partir de 45 ou 50 títulos”, detalha o produtor.

O álbum resulta do encontro entre dois géneros musicais que nasceram do povo simples e que expressam os sentimentos desse povo: a amargura, a melancolia, a alegria, a esperança, a fé. O jazz e o fado são música étnica, são música do mundo”, explica Óscar Gomez. “A fusão de jazz com outros géneros é algo que está sempre presente no meu coração musical. O jazz é a grande mãe que aceita todos os géneros e o jazz latino é um espaço maravilhoso e exemplar para o mundo, é um espaço heterogéneo onde há de tudo, qualquer raça, qualquer cor, qualquer tipo de ritmo ou de harmonia. Portanto, este é um disco de jazz latino, porque o fado é latino, tal como o son em Cuba ou a bossa nova no Brasil ou o tango na Argentina, ou o flamenco em Espanha.”

“Jazz in Fado” está à venda desde sexta-feira, dia 3

Nascido em Havana há 67 anos, Óscar Gomez é filho de um revolucionário cubano “que se desiludiu quando a revolução castrista se converteu numa ditadura”, diz. A família saiu de Cuba quando ele tinha 12 anos e foi estabelecer-se em Espanha. “As minhas raízes cubanas estão muito presentes, não só na música, também na gastronomia”, garante.

Muito cedo começou como músico. Aos 19, gravou o primeiro disco, em Madrid, com letra e música de sua autoria. “A partir daí comecei a trabalhar sem parar. A música tem sido minha companheira de viagem por toda a vida e tem-me dado satisfação e sustento, a mim, à minha mulher, aos meus três filhos e agora aos meus netos. Temos o estúdio de Madrid com uma equipa familiar e é disso que vivemos”, conta Óscar Gomez, também responsável pelo festival Clazz Continental Latin Jazz, que há dois anos passou por Lisboa.

Ao longo das décadas, produziu temas e álbuns para nomes eternos da música popular de língua espanhola. Sara Montiel, Júlio Iglesias, Rocío Jurado, Célia Cruz, entre outros. E ganhou cinco prémios Grammy Latino (estabelecidos há 17 anos para distinguir a produção musical lusófona e hispânica). Dois desses prémios alcançou-os em 2001 com os álbuns “¿Cómo están ustedes?”, de Miliki, célebre palhaço e cantor espanhol, e “Siempre Viviré”, da rainha da salsa Celia Cruz.

Atualmente é também membro do conselho executivo da Academia Latina da Gravação, entidade responsável pelo Grammy Latino. “Chamaram-me porque estavam à procura de pessoas com experiência, com uma bagagem de trabalho, êxito e relações. Pareceu-me um presente por uma vida inteira de trabalho. Já levo 48 anos de música. Deu-me muita satisfação, mas não me pagam um centavo. Não fazemos nomeações para cada categoria, apenas escolhemos a Personalidade do Ano”, esclarece.

O cantor espanhol Alejandro Sanz é a personalidade de 2017 e o prémio será entregue durante um baile de gala em Las Vegas a 15 de Novembro – um dia antes da 18ª cerimónia do Grammy Latino. Óscar Gomez vai estar presente.

Músico, produtor e compositor, conhecido pelo estilo caloroso com que conversa e está com os outros, pouco tem ido ao país natal desde que os pais se exilaram em Espanha. O primeiro regresso foi 45 anos depois de ter saído, por volta de 2007. “Tenho família e gente muito querida em Cuba e sempre que seja possível quero lá voltar”, garante. “Não vou a Cuba para estar em Varadero. Vou ao bairro em que nasci e partilho com eles o que tenho, um prato de feijão preto ou um frango frito.” De resto, a opinião que tem sobre a liderança política daquele país é bastante negativa.

Cuba tem um governo totalitário, é um país militarizado e cheio de miséria. Toda a gente vai à escola, claro. É uma mentira, sem nenhuma dúvida, mas é o que dizem. E o acesso à saúde também é mais lenda do que outra coisa. Não há liberdade e a liberdade é a palavra-chave para qualquer ser humano. Não suporto jardins zoológicos, são lugares muito lindos para ir passear com as crianças, mas acho horrível os animais estarem ali presos. A selva é muito perigosa, mas é o lugar onde vivo e quero continuar a viver. Cuba é um jardim zoológico onde não há liberdade. O meu pai, que era revolucionário, dizia que a revolução se fez para acabar com a desigualdade e para se conseguir justiça. Mas hoje a desigualdade em Cuba é monstruosa”, afirma. “Obviamente, Cuba mantém a magia da simplicidade, o capitalismo corrupto não destruiu essa magia, mas não se pode sacrificar a liberdade em nome da justiça.”

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