O Cinema São Jorge foi invadido, esta segunda-feira, pela Escola de Música do Conservatório Nacional. Desde as 16h30 os dois edifícios fundiram-se num só para receber jovens artistas de diferentes competências musicais. Os alunos da instituição ficaram encarregues de proporcionar os concertos do dia e a iniciativa, Conservatório Nacional em Festa, teve direito a orquestras, pequenos cantores, música de câmara e solistas. Entre estes, alguns são finalistas.

O evento em questão tinha objetivos bem definidos. Serviu para testar alunos, celebrar a aprendizagem feita até aí e convencer os próprios do que são capazes. Uma pequena injeção de autoconfiança. Para alguns, foi uma espécie de despedida da escola de música. Mas o que acontece na hora do adeus?

Chegados ao fim do “12º ano” (fim do curso profissional), os alunos são considerados músicos profissionais, explica o professor Bruno Cochat. O caminho a seguir, para muitos, passa pelo ensino superior: para aprofundar o que já sabem ou em busca de outras áreas. Ficar em Portugal, por norma, não é uma opção que surja em primeiro lugar. Para Cochat, ser músico em terras lusas é possível, mas as pessoas acabam por dar pouca importância à cultura. Além disso, defende que o mundo é muito grande. “Acho bem que eles [os alunos] queiram ir lá para fora. Temos de ver o que passa nos outros países”.

O futuro fica além-fronteiras

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Vítor Trindade – © Hugo Amaral

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Vítor Trindade, 18 anos, estava na primeira classe quando a banda filarmónica da Ericeira, de onde é proveniente, visitou a sua sala de aula. Lembra-se do dia como se fosse ontem e chega a “extrair” da mente a data 17 de novembro. Até então, o rapaz não tinha despertado para o universo da música. A banda fez-lhe o favor. “Eu queria entrar e, como no grupo precisavam de alguém que tocasse clarinete, fiquei com esse instrumento”, conta ao Observador no curto intervalo que lhe é concedido entre um concerto e o ensaio que se segue, no Cinema São Jorge.

Está há nove anos no conservatório e, se antes não sabia que rumo tomar, hoje está mais confiante e determinado. Feita a despedida da escola que o acolheu por tanto tempo, vai continuar os estudos na  Academia Nacional Superior de Orquestra, em Lisboa, para depois experimentar a sua sorte lá fora.

Perguntamos se acha que há espaço para ser músico em Portugal. Hesita. Responde um “mais ou menos” desajeitado. E justifica: “Em Portugal, ninguém dá atenção à cultura, principalmente à música clássica. Só há duas orquestras que funcionam como deve ser e nada mais. Noutros países o nível é outro. Aqui quase ninguém sabe o que é um clarinete”. Vítor quer um lugar reservado na orquestra e, por cá, são 40 mil músicos para uma vaga. Por essa razão, não faz planos a longo prazo. “Estou mesmo à espera do que a vida me trás”.

 

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Camila Mandillo – © Hugo Amaral

Camila Mandillo, 17 anos, toca guitarra (e não viola). Até então, já deve ter feito mais de 20 audições. Ainda assim, sentiu-se nervosa nesta segunda-feira, antes do solo. “Os nervos fazem parte e se não existirem é péssimo. É aquilo que nos faz ter um fogo interior para poder passá-lo às pessoas. São as borboletas”. Por isso, antes de subir ao palco, deitou-se no chão durante 20 minutos e imaginou todas as notas que tinha de tocar.

Os pais são músicos, pelo que Camila nasceu no meio da música e cresceu a ouvir acordes clássicos. Mas não esconde as músicas rock no iPod, desde os Rolling Stones a Beatles. Está na escola de música desde os seis anos e, apesar de já ter passado por sete instituições escolares diferentes, garante que o conservatório é a sua casa. “É uma grande família lá dentro”, justifica. “Para além de ser uma casa histórica e muito bonita, eu cresci lá dentro”.

O pai tocava guitarra a brincar, diz. O vício pegou e Camilia dedica-se ao mesmo instrumento desde os 8 anos. Mas a artista não quer apenas tocar. “Eu também canto e, neste momento, pretendo seguir um curso no estrangeiro de canto e de guitarra”. Não quer procurar nada por cá porque, segundo Camila, não há apoio musical em Portugal. Está decida a procurar em Londres o “carinho” de que sente falta.