As Testemunhas de Jeová já podem aceitar transfusões de glóbulos vermelhos, glóbulos brancos, plasma e plaquetas do sangue de outras pessoas, anunciou na última sexta-feira o Corpo Governante daquela instituição religiosa.
A comunidade religiosa continua a proibir os fiéis de receber transfusões de sangue, um dos aspetos mais controversos da doutrina das Testemunhas de Jeová, mas tem vindo a dar passos no sentido de aligeirar as restrições.
Em março deste ano, já tinha sido anunciado que as Testemunhas de Jeová podiam receber transfusões do seu próprio sangue em situações como cirurgias planeadas. O sangue podia ser retirado antes da cirurgia, armazenado e depois usado em situações de necessidade — evitando assim o recurso a transfusões de sangue de outras pessoas.
As Testemunhas de Jeová baseiam a sua doutrina, formalizada no século passado, na declaração bíblica, que surge tanto no Antigo como no Novo Testamento, de que os fiéis se devem “abster de sangue”. A generalidade das tradições cristãs, porém, interpreta esta proibição como uma regra alimentar do contexto cultural dos povos bíblicos, mas não como uma doutrina divina absoluta.
“Eles mataram-me em vida”. O inferno nas Testemunhas de Jeová
Dar, receber ou recusar transfusões de componentes de sangue (mas não o próprio sangue) passa agora a ser uma decisão da consciência pessoal de cada fiel. “O sangue continua a ser sagrado para as Testemunhas de Jeová, que continuam a ver a vida e o sangue como dons preciosos de Deus”, disse o porta-voz mundial das Testemunhas de Jeová, Paul Gillies.
“As congregações não se envolvem em decisões pessoais que cabem à consciência individual. Continuaremos a respeitar e apoiar as decisões pessoais dos nossos correligionários”, disse ainda Gillies. No comunicado, lê-se ainda que as Testemunhas de Jeová acreditam na medicina e procuram “médicos que lhes possam dar tratamentos eficazes de acordo com os seus desejos, valores e crenças”.
Apesar de esta doutrina, no passado, ter levado a muitas mortes (não há dados oficiais, mas algumas estimativas apontam para mais de 30 mil mortes só nos Estados Unidos), incluindo de crianças e adolescentes, as Testemunhas de Jeová não olham para esses casos como tragédias, mas como histórias de fidelidade a Deus. É, aliás, célebre o número da revista “Despertai!” com a manchete “Jovens que puseram Deus em primeiro lugar”, que exalta como heróis vários jovens que morreram após recusar uma transfusão de sangue.