Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

Em 1999, a obra-prima do escritor Paulo José Miranda, Natureza Morta, foi distinguida com o primeiro prémio literário José Saramago. Era considerado, na época, o herdeiro do talento de Herberto Hélder e Saramago, mas nem isso lhe valeu para conseguir continuar a publicar o que escrevia. Paulo José Miranda desapareceu, tornou-se um fantasma literário. Hoje, mora no Brasil.

Portugal esteve em coma para a literatura de Paulo José Miranda, durante 13 anos mas João Paulo Cotrim, editor da Abysmo, resgatou o autor novamente para o panorama português. De uma só vez, lançou três livros.

“Precisamos de esquecer/ esquecer humanos que nos esquecem…”, escreves no livro de poemas Exercícios de Humano. Qual é o papel do esquecimento na tua escrita?

No meu caso, o esquecimento tornou-se uma característica. Desde 2003, ano em que estive em coma 3 dias, que esqueço constantemente as coisas. A memória recente é bastante diminuta. Por conseguinte, não é um papel na minha escrita, mas na minha vida.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

E na tua vida? Algum dia sentiste que a tua obra tinha sido esquecida, depois do prémio Saramago?

Não me parece, com toda a sinceridade, que a minha obra algum dia tenha sido presente. Ganhei dois prémios, sim, o primeiro prémio José Saramago evidentemente foi o mais importante pelo escritor que lhe dá nome, pelo significado e pela atenção mediática que lhe é conferido, mas os meus livros foram e continuam a ser lidos por poucos. Infelizmente ou felizmente, não sei, não sou um autor muito comercial. E isso foi muito bem entendido pelos jornais e revistas, pois enquanto todos os outros autores vencedores desse prémio foram convidados para escreverem com regularidade aqui e ali, a mim nunca o fizeram. E isso, evidentemente, tem a ver com a compreensão, muito correcta, do que é a minha escrita.

De que forma é que a mudança para o Brasil afectou o teu imaginário? Escreves sobre futebol, falas de cachaça…

Qualquer lugar onde se viva afecta o imaginário, pois o quotidiano é diferente de lugar para lugar.

Estiveste em Portugal para apresentar os teus novos livros publicados pela Abysmo. Há quanto tempo não vinhas cá? Como é que o João Paulo Cotrim te descobriu?

Não ia (vinha) a Portugal há nove anos. O João Paulo Cotrim leu o manuscrito A Máquina do Mundo, que lhe fora enviado pelo António Cabrita, e escreveu-me propondo editá-lo. Fiquei surpreso, pois nunca pensei que alguém fosse editar esse livro. Depois ele veio ao Brasil, a minha casa, ficou alguns dias e conheceu outros textos. Veio daí a ideia dele publicar Todas As Cartas de Amor, juntamente com o romance. Devo acrescentar duas coisas: uma em relação aos títulos dos livros, que são criações do próprio Cotrim, pois eles não tinham título; por outro lado, talvez o artigo da poeta e jornalista Joana Emídeo Marques, no DN, meses antes, em Janeiro de 2013, acerca de mim, tenha também influenciado a decisão do João Paulo Cotrim.

São três livros muito diferentes. Foram escritos ao mesmo tempo? Já tinhas tentado publicar?

Dois deles foram escritos ao mesmo tempo. A Máquina do Mundo, que escrevi em 3 meses, no início de 2006 em São Paulo, enquanto ia escrevendo semanalmente uma carta de amor, que publicava todas as segunda-feira num blogue que tinha na altura… Obviamente, as cartas já vinham antes do livro e continuaram depois do livro, mas nesses 3 meses coincidiram.

O romance “a máquina do mundo” acontece numa realidade muito particular. Assemelha-se ao acaso e às múltiplas oportunidades de viver, como num jogo de computador. Onde é que surgiu a ideia para esta história?

Agora não sei se ainda é muito comum, julgo que sim, mas não posso afirmá-lo com conhecimento de causa, mas nesse ano de 2006 era muito comum os brasileiros, jovens e menos jovens irem nas cibercafés para se ligarem à internet, onde também passavam horas a jogar esses jogos de computador. A ideia veio do meu próprio quotidiano. A ideia da forma do livro. Depois o livro desenvolve-se em torno do poder e do que é necessário ser feito para preservar ou aumentar esse mesmo poder. As personagens do livro, Emily e Turker, são instrumentos usados por esse poder. O poder aqui é o poder das nações. E aquilo que é preciso ser feito, inevitavelmente, para sustentar o poder é a violência. E neste sentido o livro é também um pequeno tratado acerca da violência. Mas é também uma história de amor entre essas personagens. Um amor não correspondido inteiramente. Um amor também ele violento.

E no caso das “todas as cartas de amor”? São totalmente ficcionais?

Só duas não são ficcionadas, a primeira e a última.

Qual dos teus livros achas que ias gostar de ler se tivesse sido escrito por outro autor?

Sinceramente não sei responder a essa pergunta. Pode parecer estranho, ou não, mas nunca releio os meus livros.


A Máquina do Mundo
editora Abysmo
Nº de páginas: 200
PVP: 18€


Exercícios de Humano
editora Abysmo
Nº de páginas: 120
PVP: 12€

Todas as Cartas de Amor
editora Abysmo
Nº de páginas: 144
PVP: 16€