O grafitter francês de origem portuguesa André Saraiva escolheu o Museu do Design e da Moda (MUDE), em Lisboa, para acolher a primeira grande exposição dos seus trabalhos. A mostra inaugura esta sexta-feira e, na despedida, em setembro, vai dar à capital um mural em azulejo de 950 metros quadrados e 106 metros de comprimento.

Cabeça redonda, grande sorriso, olhos em forma de x e pernas esguias. Mr. A, o alter ego que André criou nos anos 90, está espalhado por todo o piso 3 do MUDE, que abriu as portas aos jornalistas, esta quinta-feira, para que o artista apresentasse a exposição. A maior que já organizou em nome próprio. Para a diretora do MUDE, Barbara Coutinho, “este é um momento muito significativo para o museu” .

Filho de pais portugueses, o rapaz nascido na Suécia em 1971 chegou com dez anos a França e só sabia comunicar através do desenho. Hoje é o grafitter a quem marcas internacionais como a Levi’s, a Channel e a Louis Vuitton encomendam trabalhos. Já expôs em locais como o Palais Tokyo, em Paris, Museum of Contemporary Art de Los Angeles, Circle Culture Gallery, em Hamburgo, Maison Kitsuné, em Tóquio, e Anonymous Gallery, na Cidade do México.

A Portugal traz cerca de 200 peças, entre trabalhos e objetos que marcaram a sua carreira, embora recuse dizer que se trata de uma “retrospetiva”. Em comum, as diferentes exposições artísticas, dos marcos de correio pintados ao vídeo, têm a linguagem pop.

Mas a maior atração será talvez o mural com 950 metros quadrados e 106 metros de comprimento que André vai pintar. Um preview do que irá colocar, a partir de setembro, no Jardim Boto Machado, junto à Feira da Ladra, em Lisboa. O local foi escolhido por André, que vai pintar o mesmo mural em azulejo. “Isto é um sonho, voltar a Portugal e pintar um mural deste tamanho. Sempre quis pintar em azulejo”, disse o artista aos jornalistas.

mural andré saraiva

Parte do mural, ainda por pintar, que André Saraiva vai criar

“Vai ser um painel enorme que reinventa o azulejo, Ter um artista contemporâneo a trabalhar sobre este revestimento é uma aposta muito feliz”, afirmou Catarina Vaz Pinto, vereadora da cultura da Câmara Municipal de Lisboa, que se uniu à centenária Fábrica de Cerâmica Lamego para dar vida ao mural. O tema será uma mistura de Lisboa, de Nova Iorque, de Paris, de discotecas, de poesia, enfim, uma mistura do artista que já não se sente “de parte nenhuma” por estar constantemente a correr o mundo.

“Em Nova Iorque, as pessoas tentaram comprar bilhetes! Para o poster com os Daft Punk, no dia do concerto as pessoas estavam a fazer fila no recinto”, contou André sobre os pósters falsos que criou.

O que também salta à vista são os pósters de concertos que fazem qualquer melómano soltar um grito de emoção (ver foto principal). Numa só noite tocariam os Rolling Stones, os Beatles, David Bowie, The Who e Iggy Pop, por exemplo. Parece bom demais para ser verdade, e é. “São dream concerts”, explicou André, que inventou estes pósters e os espalhou plas respetivas cidades. “A ideia foi criar confusão e ver a excitação das pessoas”. A excitação deve ter dado lugar a muita tristeza àqueles que se deixaram enganar. “Em Nova Iorque, as pessoas tentaram comprar bilhetes! Para o poster com os Daft punk, no dia do concerto as pessoas estavam a fazer fila no recinto”, contou André.

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André Saraiva apoiado num Mr. A. Atrás, um Rato Mickey “diferente”.

Logo à entrada da exposição há uma escultura do Rato Mickey que, pela componente fálica adicionada, quase foi causadora de despedimentos na Disney. Há também uma sala fechada que recria o ambiente de uma discoteca. O Frágil, mítico clube do Bairro Alto, foi uma das inspirações para o artista visitava sempre que vinha a Portugal e que considerava uma ótima discoteca para o Portugal dos anos 80.

Está lá também a sua primeira multa por ter grafitado um qualquer local público e sete pranchas de surf feitas por empresas portuguesas, que o artista, surfista nos tempos livres, vai pintar.

A exposição de André Saraiva pode ser visitada até 28 de setembro, de terça-feira a domingo, entre as 10h  as 18h. A entrada é gratuita.