Greta Thunberg esteve em Paris a doutrinar os jovens parisienses sobre a liberdade de queimar carros, destruir propriedade alheia, principalmente escolas e, qual cereja em cima do bolo, incitar ao ódio a Israel. Os Palestinianos são um pretexto, tal como o uso do xaile é um mero acessório; da mesma forma que a distinção que actualmente se faz entre judeus e Israel não passa de um truque de quem acha que nascemos ontem.

Mas não escrevo sobre Israel. Fico-me pela ironia de a França de hoje, a França da cultura, a França das letras, a França da educação, a França das artes, a França da política, a França da democracia, a França da separação de poderes, a França da liberdade, da igualdade e da fraternidade, essa França todo-poderosa ser doutrinada por uma sueca com o 12.º ano.

Confundir alhos com bugalhos, não saber separar coisas diferentes mesmo que parecidas acontece aos por vezes aos melhores e sempre aos ignorantes. E ser ignorante sobre determinado assunto é o que nos acontece a todos. Não há forma de escapar a esse destino. Mas a minha ignorância sobre certas matérias não justifica que saia para a rua e destrua o que vejo à frente incitado por um grupo de pessoas escondidas atrás de slogans. No mínimo, servirá de pretexto para que mantenha o desinteresse e continue a não saber ou, no máximo, procure quem saiba.

Não é o que acontece quando a inspiração de jovens deixa de ser os filósofos, historiadores ou políticos e passa a ser não ideias, mas chavões. E um dos clichés é que estes protestos são uma repetição do Maio de 68. O engano não podia ser maior. O Maio de 68 ocorreu numa época de um crescimento económico estrondoso, mais tarde conhecido pelos 30 gloriosos anos. Contrariamente ao que acontece hoje, os estudantes de então (universitários, que é outra diferença) tinham um futuro promissor à sua frente e estavam conscientes disso. O problema é que não queriam esse futuro.

Na década de 60 aconteceram duas circunstâncias que tiveram implicações futuras e que foram responsáveis pelas  manifestações na primavera de 1968. A primeira, foi o crescimento exponencial da população universitária ao ponto de nos finais dos anos 60 já não ser preciso ser filho das elites para que um jovem francês pudesse tirar um curso universitário. Finalmente estavam abertas as portas para um bom emprego e para melhores salários a todos os que estudassem independentemente do dinheiro ou contactos dos pais. Para que os filhos fossem mais longe que os pais e depois os filhos daqueles pudessem ir ainda mais além. E a universidades, feitas nos moldes do pós-guerra, estavam prontas para isso. Para formar os futuros servidores públicos que o Estado precisava; para formar os futuros empresários e empregados das empresas privadas que o país necessitava. Sucede que não era bem isso que os jovens de então queriam. E esta é a segunda circunstância: os universitários do Maio de 68 já tinham nascido depois da Segunda Guerra Mundial, longe das memórias da destruição, das perseguições, dos combates, das mortes. Da vergonha e da resistência. Não queriam apenas trabalhar. Queriam viver e para eles viver significava uma vida diferente da visão que os seus pais tinham da vida. Estas duas circunstâncias, mais estudantes nas universidades e a desadequação destas para com as aspirações daqueles, foram as causas de um descontentamento a que bastou um pequeno rastilho para que pegasse fogo.

Os miúdos franceses que agora estão nas ruas não são universitários, mas andam no secundário; não procuram emprego nem casa porque não têm idade para isso; não sofrem de uma crise existencial porque a existência deles começou há pouco. O que lhes falta era o que em 68 havia em demasia: conhecimento, disciplina, respeito, responsabilidade e prestação de contas. Por alguma razão, em 1968, Raymond Aron e Paul Ricouer não aderiram aos protestos estudantis, mas também não os condenaram de forma liminar. E se assim agiram foi porque compreendiam que os mais novos desejassem uma vida diferente da dos seus pais, sabiam que a academia estava desajustada da realidade, mas também temiam os efeitos de um movimento que atacava a cultura ao ponto de, fruto desse combate, o indivíduo deixar de ser definido pelo que sabe ou não sabe, se quer ou não quer saber, ser era inteligente ou estúpido, generoso ou mesquinho, e se passaria a reduzir à mera distinção entre se era ou não era livre. Basicamente, porque destruída a cultura as pessoas eram livres ou não eram. Não havia mais nada. O que era a liberdade, no que consistia, quais os seus limites, isso logo alguém (quem?) a seu tempo definiria. Esse era o problema, não a necessidade de resolver excessos impostos de uma geração à seguinte sem atender à mudança das circunstâncias.

Hoje olhamos para trás e compreendemos os receios de Aron e Ricoeur porque sabemos o que aconteceu de então para cá: a decadência cultural, a desvalorização do indivíduo enquanto ser pensante que, por ser curioso, gosta de pensar, de observar, quer entender e, dessa forma, cria uma cultura que se distingue das produções de consumo rápido. Na sua essência o que Alain Finkielkraut desenvolveu em 1987 com ‘La défaite de la pensée’. Veja-se que o problema não é de agora com as redes sociais. Estas são apenas mais um passo na desvalorização da profundidade que o pensamento alcança. No processo de banalização cultural que resulta na banalização do indivíduo, logo na degradação da sua própria liberdade e responsabilidade.

As consequências são várias e sentimo-las diariamente. Até o crescimento económico sustentado em dívida deriva desta alteração na definição do indivíduo, das qualidades da pessoa, tão premente se torna a necessidade de satisfazer cada vez mais depressa quem se reduz à liberdade e esta não é mais do que o direito a fazer e a ter. A dívida pública que justifica os cortes nos orçamentos das escolas é também o que dá azo aos protestos dos estudantes em 2026. Porque a fúria dos estudantes franceses de hoje não vem de quererem uma vida diferente da dos seus pais. Também não pode ser só pelo estado das casas-de-banho, cuja manutenção pede mais urbanidade que dotação orçamental. Não. A fúria da juventude francesa resulta de não saberem o que querem porque não lhes foram dadas referências. Disseram-lhes que o tempo do pensamento acabou. Disseram-lhes que fossem livres e que isso bastava. Daí que uma sueca em Paris com um xaile palestiniano a acusar judeus de genocídio lhes pareça normal e até salutar. Saber ou não saber, pretender saber ou não querer saber e as demais distinções entre as pessoas, diferenças que as definem e que as identificam, foram esquecidas. Os miúdos hoje não querem uma vida melhor ou diferente da dos pais; querem referências. Uma identidade. Transmiti-la aos jovens é a principal papel da geração mais velha. Foi neste ponto que os pais e os governos falharam de uma forma que é imperdoável.