Amália Rodrigues

“Quis conhecê-la melhor para que quando a abraçasse não fosse um estranho”

Estudou-a. Quis conhecer a mulher para lá da música. Acabou a fazer um dueto com ela. No dia em que passam 15 anos da morte de Amália Rodrigues o Observador falou com Júlio Resende.

Autor
  • Ricardo Oliveira Duarte

Não há cordas de guitarra. Só as do piano. E há a voz dela. Em “Medo”, Júlio Resende junta a cadência das teclas à voz de Amália Rodrigues num “Dueto (im)possível com Amália Rodrigues”.

No dia em que o calendário marca que há 15 anos Amália morreu, o pianista diz ao Observador que a fadista, a artista, “é de tal modo grande que se deixa continuar”.

Júlio Resende nunca conheceu Amália Rodrigues, e no entanto foi o primeiro músico a ser autorizado a utilizar a voz dela num disco dele. Durante quase sete anos estudou Amália. Não só a música, quis perceber muito mais que isso, falou com quem conversou muito com ela, o autor da biografia oficial, Vítor Pavão dos Santos, e com Hugo Ribeiro, o técnico de som que gravou tantas e tantas vezes Amália, e de quem ela disse em várias entrevistas que “ninguém gravava melhor” a sua voz. “Quis conhecê-la melhor, para que quando a abraçasse não fosse um estranho.” diz Júlio Resende.

Esse “abraço metafísico” deu origem ao álbum “Amália por Júlio Resende”, de 2013, editado pela Valentim de Carvalho. Ao quarto disco a solo o pianista virou-se para o fado, depois do jazz onde começou. E a culpa é, maioritariamente, assume, de Amália – “porque foi ela que me ensinou o fado, o canto do fado. As canções. E que me deu essa memória dessas canções: “Mariquinhas”, “Lágrima”, “Nem às paredes confesso”.

Quanto ao dueto, o nome do tema tornava quase demasiado óbvia a pergunta, mas ainda assim ela foi feita: “Teve medo?”

“Sempre medo. E acho que ele só se extinguiu no momento em que o estava a fazer, quando estava a tocar com ela, ao mesmo tempo… Sinto-me abençoado por estar a ter essa oportunidade, de tocar com ela.”

Filósofo de formação, “pouco dado a misticismos”, Júlio Resende não esconde, no entanto, que há algo na ligação que construiu com Amália que parece galgar o terreno. “Já aconteceram muitos momentos em que eu senti que ela estava comigo e que foi ela que decidiu por mim neste campo tão específico desta canção. Obviamente isto é uma coisa mística, é uma sensação, uma intuição. Sinto-me muitas vezes com ela. Mas pode ser apenas fruto da minha imaginação.”

À memória Júlio Resende vai buscar um concerto em Belgrado para explicar o que, em parte, lhe vai na cabeça neste dia de efeméride. “As pessoas vieram ter comigo e, muito simpaticamente, disseram que se tinham arrepiado, e eu perguntei: já conheciam a Amália?” A resposta foi afirmativa, mas… “Sim, mas nunca a tínhamos ouvido cantar.” O pianista assume-se como um dos que vê no continuar a levar Amália a quem apenas lhe conhecia o nome, cantá-la ou acompanhá-la, uma paixão. “As pessoas que amam alguma coisa, e por isso se dedicam, fazem com que essa coisa não morra de facto. Continuam-na. Como se ela continuasse a existir. Isso deixa-me feliz. Ela é de tal modo grande que se deixa continuar.”

Júlio Resende, o primeiro, e único, autorizado a utilizar a voz de Amália, se hoje, 15 anos depois da morte da fadista, lhe pudesse dizer alguma coisa, diz que recorreria apenas a duas palavras: “muito obrigado”.

 

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