Aqueles que decidiram dedicar o serão do dia 14 de outubro de 1994 a ver um novo filme chamado Pulp Fiction terão saído do cinema com sentimentos entre o choque e a excitação. O filme tinha tudo: linguagem sem filtro, violência imparável e uma sucessão de acontecimentos absolutamente improváveis misturados a um ritmo alucinante. Na memória da cinefilia ficaram, para todo o sempre, a imagem da dança de Uma e Travolta, mas também a seringa de adrenalina espetada no coração e os monólogos bíblicos de Samuel L. Jackson.

Passados 20 anos, o filme é um marco do cinema. Não só porque lançou para a ribalta Quentin Tarantino (poucos tinham visto o brilhante Cães Danados), mas também porque refrescou de forma decidida o entretenimento cinematográfico – nesse ano os filmes de maior sucesso incluíram o Rei Leão, Forrest Gump, A Máscara e Quatro casamentos e Um Funeral. Pulp Fiction não era nada disso, fazendo questão de o demonstrar desde o início. Cheio de referências ao cinema dos anos 70, com um leque de atores extraordinário e uma cinematografia crua, o filme sobreviveu melhor ao tempo do que qualquer um dos seus contemporâneos e tornou-se um clássico.

Entre o choque e a excitação, foi a última a ganhar. As três histórias principais entrelaçadas de dois assassinos, um pugilista e um casal valeram a Pulp Fiction a nomeação para sete Óscares da Academia, acabando por vencer na categoria de Melhor Argumento Original. Quentin Tarantino começou a escrevê-lo quando vivia em Amesterdão (é daí que vêm as considerações sobre a cultura holandesa feitas pelo personagem Vicent Vega). No currículo, Pulp Fiction tem também o Globo de Ouro para Melhor Argumento e a Palma D’Ouro do Festival de Cannes para Melhor Filme. Para muitos, a banda sonora tem lugar cativo na lista das melhores de sempre.

Tarantino saiu daqui para uma carreira de sucesso que ainda hoje é politicamente incorreta, funcionando a contraciclo da restante indústria e explorando as referências de sempre: fez Jackie Brown, Kill Bill, Sacanas sem Lei e Django Libertado, tudo referências cinematográficas de grande nível. O elenco era composto por nomes como John Travolta, Samuel L. Jackson, Bruce Willis e Uma Thurman, a que se juntaram ainda Tim Roth, Harvey Keitel, Eric Stoltz, Christopher Walken e Rosanna Arquette. Por fim, um nome português: Maria de Medeiros conseguiu ficar com o papel de Fabienne, a namorada de Butch (Bruce Willis). E foi tudo por acaso, contou Medeiros numa entrevista à Up Magazine, sobre o convite de Tarantino. “Encontrámo-nos num pequeno festival de cinema independente em Avignon, onde ia gente nova apresentar filmes improváveis. Ele estava lá com o primeiro filme, “Cães Danados”, que achei formidável, e mantivemos contacto. Acho que ele se interessou porque tinha visto o “Henry & June” e foi a partir daí que me recrutou, e depois à Uma Thurman”.

Maria-de-medeiros, Bruce willis

Butch e Fabienne, ou Bruce Willis e Maria de Medeiros

Os personagens parecem feitos à medida de cada ator. Para John Travolta, até então associado aos musicais “Grease” e “Febre de Sábado à Noite”, e a escolhas pouco sábias (“A Febre Continua” foi arrasada pela crítica), dar vida a Vincent Vega foi o renascer da sua carreira. Uma Thurman começou por recusar o papel de Mia Wallace. Mas Quentin Tarantino soube ser persuasivo e leu-lhe o guião ao telefone até ela aceitar o papel. Começava ali uma parceria profissional que voltaria ao topo do sucesso com “Kill Bill”, quase 10 anos depois.

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Bruce Willis, Samuel L. Jackson, John Travolta e Uma Thurman

Duas décadas passadas, há uma pergunta que continua no ar: “afinal o que está dentro da mala de Marsellus Wallace? “Whatever you think” (o que você quiser) é a única resposta que o mundo já conseguiu arrancar de Quentin Tarantino. Quem sabe no 30.º aniversário do filme os fãs tenham mais sorte.