Dois dos melhores filmes deste ano, “Interstellar“, de Christopher Nolan (já em exibição), e “Boyhood: Momentos de uma Vida”, de Richard Linklater (estreia-se esta quinta-feira) sendo em tudo o mais completamente diferentes um do outro, dos orçamentos ao modelo de produção e às formas narrativas, têm em comum o mesmo tema: o tempo, a sua passagem e a maneira como nos modifica. Mesmo que um se passe no espaço intergaláctico e o outro no Texas.

Em “Interstellar”, um grupo de astronautas que tenta encontrar um planeta habitável para a humanidade experimenta uma série de paradoxos temporais enunciados pela Teoria da Relatividade, e quando o comandante da missão consegue voltar a casa, a sua filha mais nova é mais velha do que ele. Em “Boyhood: Momentos de uma Vida”, acompanhamos 12 anos da vida do protagonista, Mason, entre os seis e os 18 anos, da instrução primária à entrada na Universidade. Se em “Interstellar” o tempo estica, encolhe e dobra-se sobre si mesmo, em “Boyhood: Momentos de uma Vida”, segue em linha reta. Mas quer seja maleável, quer seja linear, é sempre do mesmo tempo que estamos a falar, aquele que molda as nossas vidas. E Linklater respeitou a sua integridade.

Trailer de “Boyhood: Momentos de uma Vida”

O filme, com cerca de três horas, foi rodado ao longo de 12 anos, ao ritmo de alguns dias de uma semana por ano, num total de 39 dias. Realizador, equipa e actores encontravam-se para filmar mais alguns minutos da vida de Mason (Ellar Coltrane), da mãe divorciada (Patricia Arquette), da irmã (Lorelei Linklater, filha do autor, que quase “rouba” o filme ao “irmão”) e do pai que só aparece aos fins de semana (Ethan Hawke).

Vemos Mason crescer, ganhar identidade e personalidade e adquirir gostos e, ao sabor das relações amorosas da mãe, a família mudar de casa e de cidade, e Mason e a irmã de escolas e de amigos. Enquanto os mais jovens crescem e os adultos envelhecem, os EUA mudam também (Obama é eleito presidente), assim como as modas, os gadgets e as inovações (a certa altura do filme, surgem os computadores, os telemóveis e a Internet).

Linklater não deu muito espaço à improvisação no filme, embora tenha aceite a colaboração dos atores no argumento (sugestões nos diálogos, no aspeto das personagens, na música que se vai ouvindo nas várias cenas, etc. tudo em nome do máximo de veracidade), e acomodou alguns detalhes da história às vidas dos intérpretes, permitindo que as vidas de ator e personagem se misturassem (por exemplo, Mason escolhe seguir fotografia porque Ellar Coltrane também o fez na vida real).

Entrevista com Ellar Coltrane 

Nunca houve um filme como “Boyhood: Momentos de uma Vida”, embora tenha havido experiências aparentadas. Desde 1964 que, de sete em sete anos, o realizador inglês Michael Apted revisita um grupo de pessoas que filmou pela primeira vez em 1964, quando eram ainda crianças, na série documental “7 Up” (que já vai em “56 Up”). Em 2012, outro inglês, Michael Winterbottom, estreou “Everyday”, rodado ao longo de cinco anos, algumas semanas de cada vez, sobre um homem que está preso por tráfico de droga e é visitado regularmente na cadeia pela mulher e pelos filhos. E há ainda a série de filmes de François Truffaut protagonizados por Antoine Doinel, o herói (e, até certo ponto, seu alter ego) da sua primeira longa-metragem, os “400 Golpes” (1959), interpretado por Jean-Pierre Léaud, que o acompanham até à idade adulta e findam com “Amor em Fuga” (1979), feito quatro anos antes da morte de Truffaut.

Entrevista com Richard Linklater.

Só que Richard Linklater levou o conceito mais longe do que qualquer outro, arriscando muito pelo caminho. É uma ideia simples, mas um desafio técnico e humano. Algum dos atores podia ter abandonado o projeto ou morrido (estava previsto que se alguma coisa sucedesse ao realizador, ele seria substituído por Ethan Hawke, seu amigo e colaborador de longa data), os produtores podiam ter-se desavindo entre eles ou com Linklater e o dinheiro faltado (embora o filme tenha sido rodado por tuta e meia – e em 35 milímetros, o realizador, amigo do celulóide, não quis fazê-lo em digital, mesmo que assim ficasse ainda mais barato). Tudo acabou por correr bem e “Boyhood: Momentos de uma Vida” ganhou este ano, no Festival de Berlim, o Urso de Prata para o Melhor Realizador, tornando-se também no filme mais consensual de 2014 entre a crítica.

Entrevista com Patricia Arquette. 

O texano Linklater é um dos últimos e mais ferrenhos representantes do cinema independente norte-americano, e já noutros filmes anteriores tinha metido as mãos na massa no tema do tempo. Títulos como “Slacker” (1991) ou “Juventude Inconsciente” (1993) passam-se ao longo de uma noite ou um dia; “Tape”, de 2001, foi filmado em tempo real, e há, é claro, a trilogia “Antes do Amanhecer” (1995)/”Antes do Anoitecer” (2004)/”Antes da Meia-Noite” (2013), que de nove em nove anos foi fazendo a radiografia das relações entre o casal protagonista, Jesse (Ethan Hawke) e Céline (Julie Delpy). No Festival de Berlim, o cineasta explicou: “Eu queria mostrar o modo como o tempo passa pelas nossas vidas. O que acontece não é dramático, precisamente porque queria mostrar uma família normal,  a viver os pequenos momentos que fazem a diferença, em vez dos grandes momentos que se vêem sempre nos filmes: o primeiro beijo, a primeira queca, o baile de finalistas, etc.”.

Fugindo – e ainda bem! – a todos esses lugares-comuns com barbas dos teenage movies, Richard Linklater consegue em “Boyhood: Momentos de uma Vida”, em simultâneo, documentar e transmitir a experiência do crescimento de Mason e o desenvolvimento da sua personalidade até entrar na maioridade, no que isso tem de pessoal e de universal. E mostra, sem carregar nas tintas dramáticas ou optar pelo sentimentalismo pingão, e de uma maneira geralmente identificada e partilhada por todos, o passar do tempo na sua dimensão pessoal, quotidiana, familiar e social, e as transformações que opera em nós e naqueles à nossa volta (ver a evolução do pai de Mason quando volta a casar, tem outro filho e se torna muito mais responsável e sensato).

Entrevista com Ethan Hawke. 

E se no final do filme a mãe de Mason, ao perceber que o tempo passou depressa, que o seu menino já tem 18 anos e vai sair de casa para se instalar na Universidade, começa a soluçar e diz, “Mas afinal, é só ‘isto’?”, é porque às vezes, muitas vezes, a vida é mesmo assim. “Boyhood: Momentos de uma Vida” é uma epopeia modesta da vida normalmente vivida, e do tempo que a leva consigo.