Mostrem-se. Força. A mensagem só podia ser essa. A pressão, a existir, só podia ser inventada. Mesmo que Jorge Jesus, em tempos, se tenha enganado nas contas, o último lugar já era encarnado e português. Portanto, e com uma visita ao Dragão daí por dias, o treinador, mais do que poupar, não foi forreta nas oportunidades. Distribuiu-as quase como quem tem um saco cheio de dinheiro e dispara notas para o ar. E com isso montou uma equipa verde, verdinha como os poucos minutos que, juntos, os 11 titulares acumulavam de Champions, de competição a sério. Havia um objetivo — ver uma hora e meia passar e ficar com “três, quatro” jogadores novos para “as competições em Portugal”. Oportunidade, portanto.

Eram 1189 no total. Pouco, muito pouco. Do outro lado, o Bayer aparecia com os do costume, os habituados a serem os melhores aos olhos do treinador. Só Bellarabi e Çalhanoglu, craques à moda de Leverkusen, tinham em conjunto 769 minutos de Liga dos Campeões esta temporada. Tempo de contas: poucos minutos, nada a perder, pressão nula e oportunidade para se mostrarem no dia em que o relvado é mais íman de atenções. Tudo somado, o resultado foi este — mais vontade, muito mais, dos jogadores do Benfica.

E descontração também. No bom sentido. Via-se nos primeiros minutos. Era Ola John, era Pizzi, era Derley e até Loris Benito. Todos, à vez, tocaram a bola com o calcanhar de um dos pés. Queriam tornar as jogadas boas e bonitas. E rápidas. Não trocavam muitos passes, mas aceleravam quaisquer que fizessem. Aos 11’, tão rápido foram a sair no contra-ataque que algum alemão se esqueceu de Pizzi no meio. O português recebeu, girou e atirou a bola para a esquerda, lado em que Ola John a conduziu literalmente até à linha de fundo. Para cruzar? Não, para simular que o ia fazer e deitar um adversário para, depois, rematar rasteiro e a sobra ir parar aos pés de Lima.

O brasileiro estava a dois metros da baliza. Era bola para golo. Mas o segundo jogador do Benfica com mais minutos (327) de Champions em campo — o primeiro era o capitão, André Almeida, com 376 — rematou a bola com força, tanta que ela embateu na barra e fugiu dali. Desperdício. E Lima voltaria a estender-lhe o pé, desta feita o esquerdo, aos 41’: viu John cortar para dentro, dizer Ola a uma diagonal do avançado, obedeceu-lhe, desmarcou-se, recebeu a bola, mas, na quinta da área, rematou-a ao lado da baliza de Bernd Leno.

Quem vestia de encarnado estava melhor. Sobretudo Pizzi, o extremo que Jesus vê como médio centro e que, irrequieto, mantinha a bola a rolar (acertou 25 dos 28 passes que fez até ao intervalo). Do Bayer Leverkusen, a jogar para a passagem aos oitavos (bastava-lhe um empate), viam-se muitas faltas e agressividade, mas pouca velocidade. E, lá está, menos vontade: só aos 23’ enviaram, com a cabeça, uma bola fraca até às mãos de Artur e, aos 45’, Drmic lá conseguiu, à entrada da área, disparar uma bola que foi direitinha ter com o guarda-redes brasileiro.

Mas os alemães não trouxeram a dormência para a segunda. Até aos 60’, aliás, todas as jogadas com velocidade e trocas de passe com poucos toques foram montadas pelo Bayer Leverkusen. Houve até cinco minutos em que o Benfica mal cruzou a fronteira do meio campo — mais ou menos até Çalhanoglu, aos 52’ e à entrada da área, ser o último destino de um ataque que resolveu terminar com um remate para Artur defender.

O Benfica já errava mais passes. Bebé perdia quase todas as bolas que recebia. Cristante tinha de se preocupar mais com o que podia acontecer atrás de si e pouco conseguia ajudar Pizzi, que, à sua frente, era engolido por alemães. Jorge Jesus reparou e, por isso, trocou Lima por Talisca, um médio que faz de falso avançado por um avançado que fazia de falso médio. A equipa melhorou, mas só depois de, aos 62’, um chutão que César enviou contra Hilbert, à entrada da área, não terminar em golo porque o efeito que a bola levava a desviou da baliza quando bateu no relvado.

Depois as coisas acalmaram. Talvez por culpa de um passarinho que sobrevoara a Luz e disseram aos ouvidos dos alemães que o AS Monaco, de Leonardo Jardim, marcara um golo ao Zenit, o suficiente para o Leverkusen nada mais ter de fazer para se qualificar para os oitavos. Tudo acalmou. Até Ola John, de quem não mais se viram sprints ou danças de simulações de fintas. O que se viu foi um remate frouxo e rasteiro a sair do pé direito de Anderson Talisca, aos 72’, antes de saltar, cair mal e, por momentos, dar um ar de preocupação a Jesus enquanto os médicos mexiam no joelho do brasileiro.

Com 76 minutos no relógio, Jesus descobriu uma nota perdida no fundo do saco — e chamou Nélson Oliveira. O já não tão miúdo entrou, teve uns minutos e até os aproveitou: aos 84’ deu o calcanhar à bola para a colocar a jeito de um remate de Talisca, e dois minutos volvidos colocou um passe na frente de Bebé que, lento, deixou que Spahic lhe roubasse a bola quando tempo tinha para a atirar para Talisca, sozinho na área. E mais: aos 90’+2, tirou um central do alcance de uma bola alta com o corpo, dominou-a, fintou dois adversários com ela e ainda a passou para Pizzi, que depois seria desarmado. Antes já Bellarani explodira uma bomba nas mãos de Artur, com um remate imprevisto e, depois, Ömer Toprac, central turco, levar o segundo amarelo e ser expulso.

Nem o Bayer voltou a rematar, nem o Benfica ameaçaria de novo a baliza germânico. Nulo, adeus à Europa e um 0-0 — um nulo como já não se via desde 2007, quando os encarnados de Fernando Chalana empataram contra o Espanyol de Barcelona. Pior: a equipa de Jorge Jesus sai da Liga dos Campeões apenas com dois golos marcados e seis sofridos. Foi pouco, muito pouco.

Mas daqui, do último ato onde o treinador distribuiu oportunidades, saiu com os tais “três, quatro” homens para os quais, até agora, o treinador pouco tinha olhado. Pizzi, na sua versão médio centro, mostrou rotação, passe e acerto para fazer birra com Enzo Pérez. Ao lado do português, Cristante foi rijo como nunca o fora. Ola John sentiu o peso e desequilibrou mais vezes o adversário do que a própria equipa (como é costume). E Nélson Oliveira correu, segurou a bola, passou e fintou mais em 15 minutos do que Lima o fizera desde o primeiro apito do árbitro. Além de ganhar, como sempre, só havia um objetivo para este jogo — mostrar jogadores e eles mostrarem-se a Jesus. Pelo menos os tais “três, quatro” fizeram-no. Veremos se o treinador os viu também.