Quinta-feira à noite, 23 de abril. No Cinema São Jorge, em Lisboa, um quarteto de cordas, o Alis Ubbo Ensemble, viaja por “temas de sempre” da sétima arte. E se falamos de cinema, a viagem continua com a exibição do filme “A Volta ao Mundo em 50 concertos”, da realizadora holandesa Heddy Honigman. Este evento marca a parceria entre dois festivais artísticos que, pela primeira vez, a capital recebe em simultâneo: o IndieLisboa e os Dias da Música. Mas se o festival de cinema independente decorre até maio, no centro da cidade, as atenções focam-se já neste fim de semana e na zona de Belém.

No CCB desde a sua fundação, Miguel Leal Coelho é, novamente, o responsável pela programação de mais um ano de festival. Já na nona edição, os Dias da Música continuam a querer “desconstruir a ideia de que a música erudita é muito fechada”, apresentando concertos mais curtos, um leque mais alargado de escolhas e outras atividades para toda a família. Através deste evento, o diretor artístico do CCB pretende consolidar um “festival mais abrangente, com preços mais acessíveis, que traz informalidade no contacto entre artistas e públicos”.

Pelos corredores do CCB, não é raro dar de caras com um pianista que, minutos antes, foi aplaudido por dezenas de pessoas. E oportunidades não faltam. Este ano, estão programados 84 concertos, distribuídos por auditórios, salas, um foyer e um espaço ao ar livre. Diversos géneros cinematográficos, realizadores de renome mundial e as músicas que nos ligam aos personagens mais marcantes da história do cinema vão passar por Belém.

Mas, esta quinta-feira de manhã, a música era outra. Entre o corrupio de ensaios, chegada de camiões para emissões televisivas e os pedidos da imprensa, na Sala Luís de Freitas Branco, no primeiro piso, exige-se silêncio absoluto. No palco estão três tipos de pianos muito diferentes e, debruçado sobre um, está Paulo Pimentel, durante muitos anos, “que [ele] saiba”, o único afinador de cravos português. Aos 52 anos, já leva mais de duas décadas em torno de pianos e dos instrumentos de teclas que os antecederam. Os anos de formação na Alemanha, numa fábrica de cravos, deram-lhe as bases; a técnica ainda hoje desenvolve, por todo o país e no estrangeiro. Mas, como em as edições anteriores, os Dias da Música ocupam-lhe as horas, “muitas”, que antecedem o festival.

Muito trabalho, também, passa pelas mãos de Madalena Wallenstein, a responsável pela Fábrica das Artes, o projeto educativo do CCB. Enquanto coordenadora das diversas atividades programadas para o público mais jovem, apresenta as oficinas que vão decorrer ao longo do fim de semana e o que já está a acontecer. Se Filipe Raposo acompanhou – ao piano e numa homenagem ao cinema mudo que tantos sons respirava – excertos de filmes de Chaplin, Keaton e o clássico “Viagem à Lua”, de Georges Mèliés, Margarida Leitão já tentou explicar a “Música nos Filmes” com a ajuda da pantera cor-de-rosa.

Esta sexta-feira pela manhã, 600 crianças irão ocupar várias salas do edifício. Depois do sucesso da primeira edição, o Mini-Dias da Música regressa para a sequela. Escolas de todo o país visitam esta versão do festival adaptada aos mais pequenos. Para sábado e domingo está agendada uma “Missão Impossível”, um trabalho de Luís Bragança Gil que troca as voltas à nossa memória de cinema musicado. Aqui, o formador mostra, entre vários exemplos de disparidade, a clássica cena d’ “A Amante do Tenente Francês”, em toda a sua carga simbólica, acompanhado do tema musical dos filmes do James Bond.

Para Madalena, este tipo de iniciativas permite mostrar o cinema ou a música como “uma arte inacabada”, porque “põe a nu todo o processo de construção artística” onde, explica, “para lá das experiências históricas” e da “estranheza” que os mais novos sentem em ver filmes tão antigos, “está uma reflexão, uma curiosidade que fica”. É quase como ver Paulo a afinar um cravo renascentista e mencionar os concertos em que a guitarra elétrica estará presente.

Já Maria Manuel Nery, representante da Agência Nacional para a Qualificação e o Ensino Profissional (ANQEP), tenta “Projetar o Futuro com Arte”. Esta iniciativa da ANQEP é desenvolvida com diversas escolas profissionais de música de todo o país, ao nível do ensino secundário. Vindos de instituições públicas ou privadas e cooperativas, do continente e ilhas, estes jovens entre os 13 e os 18 anos vivem as etapas iniciais das suas carreiras e formam a Orquestra Jovem, ou, como são apresentados, OJ.com. “Existem dois momentos no processo de seleção e apresentação”, explica Maria Manuel. “Primeiro, temos audições para um estágio de uma semana, em que alunos com mais de um ano de formação são avaliados por um júri.” Passado este teste, os selecionados atuam na sua localidade, frente ao maestro que, se passarem nova prova, os poderá dirigir no Grande Auditório do CCB.

Este ano, cabe a Ernst Schelle a direção dos quase 300 jovens que, a 24 de abril, sobem ao palco pela primeira vez na capital. E na plateia estarão outras escolas para presenciar o momento. Maria Manuel destaca esta ligação entre a música clássica e um novo público potencial: “Não é a plateia mais quieta ou calada, mas o feedback tem sido muito positivo.” Tanto que, este ano, o evento está disponível para o grande público. A nível de jovens, há que destacar a programação da Sala Amália Rodrigues, inteiramente dedicada ao talento dos jovens de conservatórios e academias de música de todo o país, sem medo de atacar as notas de Yann Tiersen, Emir Kusturica, Leonard Cohen, Vangelis ou do quase omnipresente John Williams (que vai ser interpretado por muitos destes grupos).

Silêncios sonoros

“O cinema nunca foi silencioso. Basta olharmos para as origens do cinema, quando havia sempre uma música, pianistas a acompanhar o filme”, refere o jornalista Nuno Galopim. O melómano e realizador de rádio, fundou há dez anos o blogue Sound+Vision, numa parceria com o crítico de cinema João Lopes. Este fim de semana, Nuno Galopim recebe este e outros convidados na Sala de Leitura do CCB, no espaço “Aqui há conversas”. Dois dias, seis convidados e uma “perspetiva mais jornalística da ligação entre o mundo da música e o mundo do cinema”. É desta forma que Nuno Galopim propõe este “espaço de tranquilidade”, em que cada convidado justifica, longamente, a escolha de uma banda sonora que o tenha marcado. João Pereira Bastos, Rita Redshoes, David Ferreira e o realizador Bruno de Almeida (em substituição de João Botelho) irão passar por este espaço que fechará com Pedro Mexia, cronista e antigo diretor da Cinemateca Portuguesa. Diálogos em “torno da história da música e da história do cinema”.

A música portuguesa também marcará uma forte presença. Mário Laginha sobe ao palco para recordar as melodias de “Alice”, composições do amigo Bernardo Sassetti. O fadista Ricardo Ribeiro apresenta no sábado “A Sombra e a Luz nas Canções”, um espetáculo que parte das ligações que, ao longo da vida, associa ao cinema, à música e à memória. Para os concertos de abertura e encerramento destes Dias de Música, atuam duas orquestras sinfónicas: a Metropolitana (OSM) e a Portuguesa (OSP). No arranque, sob direção de Pedro Amaral, a OSM tocará Strauss e Rachmaninov. Para a despedida, cabe à OSP e a João Paulo Santos, com a direção musical, recuperar clássicos de Berstein, Soundheim e, claro, John Williams.

Quer seja melómano, cinéfilo ou, como o Paulo, trata cuidadosamente da afinação de um instrumento musical com séculos de existência, não deixe de cumprir um ritual partilhado por todos: “Por favor, desligue o seu telemóvel. “