A música dos Beatles influenciou (e ainda influencia) gerações e gerações. Mas na década de 90, alguns artistas como Tupac e os N.W.A mudaram o paradigma da música e fizeram emergir o Hip Hop. Um estudo indica que este género é (e continuará a ser) a maior revolução na música.

Como chegámos até esta diversidade? O que revolucionou a música pop? Quando aconteceram essas revoluções musicais? Qual foi a mais importante? Foram estas as perguntas colocadas por um grupo de investigadores das universidades londrinas de Queen Mary e Imperial College. Para encontrar respostas, os cientistas analisaram mais de 17.000 canções pop que integraram na US Billboard Hot 100, lista norte-americana das melodias internacionais mais populares. O termo “revolução” é definido como um período de mudança muito rápida na lista dos mais escutados.

O estudo baseou-se nas diferentes características das canções, como a harmonia, a progressão de acordes e os tons da música. Os resultados, publicados na revista científica Royal Society Open Science, foram surpreendentes.

Primeira Revolução: 1964

13th February 1964:  The Beatles in performance at the Washington Coliseum. Left to right : George Harrison (1943 - 2001), Paul McCartney, John Lennon (1940 - 1980) and Ringo Starr.  (Photo by Central Press/Getty Images)

13 de Fevereiro de 1964: Concerto dos The Beatles no Washington Coliseum. Da esquerda para a direita: George Harrison (1943 – 2001), Paul McCartney, John Lennon (1940 – 1980) e Ringo Starr. (Fotografia da Central Press/Getty Images)

No início dos anos 60, a presença dos acordes de sétima dominante, típicas do jazz e do blues, começaram a diminuir. Segundo os académicos, a primeira verdadeira revolução pop deu-se em 1964, quando as bandas britânicas invadiram o panorama internacional. A noção de quarteto rock apareceu (baixo, bateria, guitarra ritmo/voz e guitarra solo).

Soava a quê?

Bandas como os Beatles e os Rolling Stones foram essenciais nesta revolução. Uma sonoridade pop rock foi introduzida, e começaram a ser utilizados com maior frequência acordes maiores, guitarras agressivas e vozes menos delicadas.

A típica estrutura “intro/verso/pré-refrão/refrão/ponte/refrão” começou a ser mais comum.

Segunda Revolução: 1983

NEW YORK, NY - APRIL 10:  (L-R) Ralf Hütter, Henning Schmitz, Fritz Hilpert, and Stefan Pfaffe of the band Kraftwerk perform during the Kraftwerk - Retrospective 1 2 3 4 5 6 7 8, Autobahn (1974) at The Museum of Modern Art on April 10, 2012 in New York City.  (Photo by Mike Coppola/Getty Images)

Concerto em Nova-Iorque dos Kraftwerk em abril de 2015. (esquerda para a direita) Ralf Hütter, Henning Schmitz, Fritz Hilpert, and Stefan Pfaffe (Fotografia de Mike Coppola/Getty Images)

As novas tecnologias, os sintetizadores, os samplers e as caixas de ritmos desencadearam esta revolução estilística. Discos no final da década de 1970, como “The Man-Machine” dos Kraftwerk (1978), as bandas pós-punk britânicas vindas de Manchester e os trabalhos do Brian Eno (na altura teclista dos Roxy Music) influenciaram significativamente a criação da synthpop e da new wave.

Segundo os investigadores, 1983 foi o ano em que se confirmou a segunda revolução nas tabelas Billboard.

Soava a quê?

Eram artistas como os Eurythmics que lideravam as tabelas.

Já em 1982, a famosa versão synthpop dos Soft Cell da canção “Tainted Love” esteve nos primeiros lugares da US Billboard Hot 100 durante várias semanas. Em 1983, o êxito “Sweet Dreams (Are Made of This)” dos Eurythmics, duo britânico formado por Annie Lennox e David Stewart, chegou ao topo da tabela.

Curiosamente, a pop eletrónica que caracterizou esta época conviveu com a soul e com os estilos afro-americanos doo-wop, de Billy Joel, enquanto entoavam temas R&B como “All Night Long” de Lionel Richie.

A terceira (e maior) revolução: 1991

London rapper, Chip (C), poses with wax figures of US rappers Tupac Shakur (R) and P Diddy (L) at Madame Tussauds in central London on January 14, 2013 to launch a new exhibit featuring four wax figures of East and West Coast US rappers. AFP PHOTO / CARL COURT        (Photo credit should read CARL COURT/AFP/Getty Images)

O jovem rapper londrino Chip (C), pousa com as figuras de cera dos lendários rappers americanos Tupac Shakur (à direita) e P. Diddy (à esquerda). (Créditos: Carl Court/AFP/Getty Images)

Segundo os académicos, a terceira revolução começou no ano de 1991, com a chegada do rap, do hip hop e variantes. E os investigadores não têm dúvidas: esta revolução foi, de todas, a maior. “A terceira revolução é a maior delas todas”, explicou à BBC o líder do estudo, Matthias Mauch, da Queen Mary University of London.

“As nossas análises foram muito claras, porque ao observar a harmonia, o rap e o hip hop não usam muita harmonia. O ênfase neste género de música está no som da voz e no ritmo“, acrescentou Mauch, que considera “uma verdadeira revolução” ter uma “canção pop sem harmonia”.

O auge do hip hop foi impulsionado pela popularidade do programa MTV YO!MTV Raps. E com a ênfase na voz, ressurgiram alguns ritmos do funk do anos 1970 e as guitarras agressivas do rock desapareceram.

Soava a quê?

https://www.youtube.com/watch?v=82qLnk_F6bU

Entre os exemplos típicos de 1991 mencionados na investigação, estavam Busta Rhymes, Snoop Doog, Puff Daddy e Tupac. Temas como “Around the Way Girl”, de LL Cool J, estavam na lista Billboard Hot 100.

Mas, curiosamente, canções como “More Than Words” dos Extreme ou a “(Everything I Do) I Do It For You” de Bryan Adams constaram muitas vezes no topo da lista em 1991.

O pior ano da música pop e outras revelações

Para os investigadores das universidades londrinas, 1986 foi o ano mais aborrecido e menos diverso nas listas de êxitos.

Nesta época triunfaram temas populares de Janet Jackson e “West End Girls” dos Pet Shop Boys. Em relação à música rock, foi um ano em que praticamente todas as baterias imitavam a progressão rítmica do início de “In the air tonight” de Phil Collins, canção de 1981.

Segundo os investigadores, a chegada do rock dos grandes palcos, como Bon Jovi ou Bruce Springsteen, marcou uma época em que a música carecia de diversidade.

Mas os cientistas asseguraram que os 50 anos de música analisados desmentem a ideia de que a música pop está a começar a soar toda igual: “Muita gente diz que a música está a piorar, mas não encontrámos evidências disso”.

“O mais fascinante está em observar como a diversidade tem mudado”, concluiu o líder da investigação.