Entre os dias 17 de abril e 27 de junho, o Arquivo Municipal de Lisboa vai celebrar “um dos formatos mais importantes, mas mais esquecidos, da cultura visual” : a fotografia estereoscópica, também conhecida como fotografia 3D.

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Fotografia estereoscopia de John Soule da Charles Street Mall em Boston. (Fotografia retirada da Wikipedia)

A estereoscopia é uma técnica fotográfica que procura simular a sensação de profundidade espacial que os nossos olhos fazem naturalmente. A sensação de visão tridimensional é uma consequência do cruzamento de duas imagens semelhantes que criam noções de profundidade, distância, posição e tamanho dos objetos. O que a fotografia estereoscópica faz é captar duas imagens distintas que mostrem o que dois olhos veriam e que depois, ao uni-las através de um visor com lentes prismáticas, formem uma só imagem com esse efeito 3D: “A Terceira Imagem”.

“A Terceira Imagem – A Fotografia Estereoscópica em Portugal e o Desejo 3D” é o resultado do estudo do projeto Stereo Visual Culture, do Centro de Investigação em Comunicação Aplicada, Cultura e Novas Tecnologias da Universidade Lusófona (CICANT, ULHT). Após a classificação de mais de 11.500 imagens de acervos portugueses – Arquivo Nacional Torre do Tombo, do Centro Português de Fotografia, da Cinemateca – Museu do Cinema, do Museu da Cidade da Câmara, Museu Carlos Machado, Museu da Ciência da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) e do EcoMuseu do Seixal – foi feita uma seleção.

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Uma das motivações que levou à criação desta exposição foi a vontade de “promover o reencontro com algumas imagens originais da época e colocá-las em contacto com o público”, disse Vitor Flores, professor da Universidade Lusófona, investigador do projeto Stereo Visual Culture e um dos curadores da exposição.

“Há um apagamento na história deste nicho da fotografia. Perdeu-se a ideia do grande impacto que a estereoscopia teve na cultura visual do século XIX e XX”, assegura Vítor Flores que contou que o 3D, apesar da sua atualidade, já existe desde os meados do século XIX.

“A estereoscopia acompanha o nascimento da fotografia e todos os primeiros processos fotográficos,” explicou Vitor Flores, enquanto mostrava vidros da Jules Richard, a marca que inventou os “vidros pequeninos, móveis e leves” com imagens estereoscópicas.

Sofia Castro, uma das curadores da exposição, considera impressionante como “a fotografia estereoscópica esteve muito à frente do seu tempo”.

“A Jules Richard tinha uma coleção comercial que desenvolveu mais de 300.000 exemplares. Estamos a falar de 300.000 negativos, 300.000 imagens para serem comercializadas. A dimensão é já industrial: esta foi a primeira forma de distribuição de fotografia”, explicaram os dois dos três curadores da exposição.

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Fotografia retirada do site do Arquivo Municipal de Lisboa

Outro dos motivos da exposição é a consciencialização e a redescoberta deste universo da estereoscopia que “está tão presente nos dias de hoje”. Após a desmaterialização da fotografia e com o aparecimento do digital, foram deixados de lado outros formatos, mas, segundo Sofia Castro, há uma necessidade física de voltar ao passado.

“Este projeto nasce da nossa investigação: redescoberta, reencontro e estudo de algo que foi esquecido. E sentimos que partilha do nosso trabalho é importante. O reencontro com o passado faz com que a humanidade se reencontre”, explicou a curadora ao Observador.

Mas os curadores do projeto não olham apenas para o passado. Vítor Flores acredita que estas aproximações ao 3D nos dias que correm são sinais claros do enorme potencial da estereoscopia. “Cinema, medicina, consolas de jogos, dispositivos de realidade virtual, serviços de geolocalização tridimensionais”, enumerou o professor e curador do projeto.

Vítor Flores explicou ainda que, entre as 11.500 imagens disponíveis, só uma pequena parcela está na exposição. A atualidade/quotidiano e a viagem foram os dois principais fatores de seleção das imagens.

“Fotógrafos como o Arthur Freire, registavam com muitas paisagens. No século XIX, a estereoscopia era popular e era uma maneira de viajar. Colecionavam-se paisagens de várias cidades”, justificou o professor Flores.

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Fotografia retirada do site do Arquivo Municipal de Lisboa

“Mas aproveitavam para fotografar eventos importantes. Por exemplo, existem muitas fotografias de Arthur Freire ao rei D. Carlos. Ele era muito próximo da coroa”, acrescentou.

A exposição “Terceira Imagem” integra também algumas estereoscopias em formato digital, apresentadas em ecrãs SmartTV’s 3D, negativos de autores portugueses como Alberto Marçal Brandão e Aurélio Paz dos Reis, conhecido pioneiro do cinema português que preferia a estereoscopia.

“O Aurélio Paz dos Reis preferia estereoscopias e pensou em juntá-la ao cinema. Poucos sabem disto, a maior parte das pessoas pensam que ele gostava mais de cinema”, explicou.

Mas os curadores asseguram que a experiência “contagiante” não se compreende através de explicações. Só “o contacto direto com a imersividade das fotografias” explica a paixão pela estereocopia. “É viciante”, explica Sofia Castro.

Vítor Flores promete continuidade. “Após esta exposição vamos à Torre do Tombo para uma série de conferências sobre a matéria e divulgar ainda mais a estereoscopia ao público. E não vamos ficar por aqui”, garantiu o curador que explicou que há cada vez mais estudos sobre esta forma de fotografia.

Esta 2ª. edição da exposição também já passou pelo Museu da Imagem em Movimento (m|i|mo), em Leiria.

Texto editado por Filomena Martins.