1244,9kWh poupados 1244,9 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

i

José Carlos Duarte

José Carlos Duarte

O concerto com multibanco para doações e o padre que dá comida com um "boné antifascista". Evangélicos e católicos lutam pelo voto no Brasil

Na igreja evangélica onde vai Michelle Bolsonaro, o pastor não esconde a preferência por Flávio. Em São Paulo, um padre faz obra social e aproveita para evangelizar sobre Lula.

    Índice

    Índice

A sala está praticamente cheia e os lugares vazios são poucos. Câmaras gravam tudo, há uma banda em palco e um ecrã gigante. “Vamos dar as mãos para orar”, pede o pastor Josué Valandro Jr. Os fiéis presentes acolhem o desafio e oram. Oram pela prosperidade financeira, oram para a pobreza não chegar, oram para nunca passarem dificuldades financeiras. Este foi o mote da Terceira Jornada dos Sonhos, uma iniciativa da Igreja Batista Atitude, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Pertencente ao evangelismo, esta congregação é uma das mais importantes no Brasil. Aliás, é frequentada pela antiga primeira-dama e atual mulher de Jair Bolsonaro, Michelle Bolsonaro.

A sessão desta quarta-feira à noite, a que o Observador assiste, é bastante dinâmica. Começa com um concerto de música pop com canções com motivos religiosos durante 30 minutos. Segue-se uma aula de literacia financeira, em que um pastor de Guarulhos, Fernando Diniz, tenta levar os fiéis a agirem e a não “sentirem medo”, para não adiarem mudanças. Segue-se um discurso do pastor sobre dinheiro — “que não é sujo, o que é sujo é o coração das pessoas” —, que termina com uma nota fora do tema: os fiéis não se devem esquecer de ir votar no domingo. Ainda que nunca mencione o nome de nenhum candidato, sugere que votem na “mesma tecla”, numa referência ao 22 — o número da campanha de Flávio Bolsonaro.

No Brasil, os evangélicos são um dos principais apoios da candidatura de Flávio Bolsonaro. Aliás, o bolsonarismo cresceu e implementou-se em todo o país graças a muitas congregações e igrejas. O candidato à presidência e a madrasta são evangélicos, enquanto Jair Bolsonaro sempre se assumiu como católico — apesar das profundas ligações que manteve ao evangelismo. O conservadorismo e a defesa da pátria são argumentos que sempre os uniram.

▲ A Igreja Batista Atitude na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro

José Carlos Duarte

Na cidade de São Paulo, no bairro da Mooca, o cenário não pode ser mais diferente. Em vez de um palco gigante e de uma produção cara transmitida em direto para o YouTube, a igreja é pequena, espartana e quase um barracão: há dez bancos de madeira, uma cruz e as figuras de alguns santos. Há poucos fiéis — cerca de vinte — a ouvir a missa desta segunda-feira de manhã. Não há elementos de espetáculo. Todos estão concentrados na palavra do padre Júlio Lancellotti, um sacerdote católico brasileiro que se tornou uma estrela nas redes sociais.

Júlio Lancellotti é defensor da caridade católica. De segunda a sexta-feira, distribui — no que chama carinhosamente de “café” — pão, bolachas e leite com café às “pessoas da rua”, isto é, pessoas em situação de sem-abrigo. Construiu igualmente uma associação bastante ambiciosa num bairro de São Paulo marcado por profundas desigualdades: em Mooca, assiste-se cada vez mais à construção de prédios para a classe média-alta, ao mesmo tempo que prevalecem humildes casas e barracões onde vivem os mais pobres, alguns dos quais nem sequer têm casa.

Não é surpresa para ninguém o sentido de voto de Júlio Lancellotti nestas eleições, já que sempre se assumiu de esquerda e progressista. Ao Observador, juntamente com quatro mulheres católicas que o vieram visitar de diferentes partes do mundo, o padre mostra todo o complexo que foi construindo ao longo dos últimos anos para ajudar os mais pobres, desde um ginásio moderno e gratuito a uma biblioteca. Sempre que passa pelos sítios — se bem que nunca seja categórico —, Lancellotti realça a importância de se ir votar no dia 25 de outubro. “No candidato certo” e não na “cabeça da serpente”, diz — uma provocação dirigida a Flávio Bolsonaro, já que esta é uma expressão que o candidato já tinha usado contra o Presidente. Se os evangélicos estão com Flávio Bolsonaro, os católicos parecem preferir Lula da Silva.

▲ A pequena paróquia de São Miguel Arcanjo, no bairro da Mooca, em São Paulo

José Carlos Duarte

O megaevento e a megaprodução da Igreja Batista Atitude, onde se fala sobre literacia financeira e se apela ao voto

São quase 20h00. Num grande edifício que parece um centro comercial, os fiéis começam a chegar. Dois placards LED dão as “boas-vindas”. Há pessoas que formam uma fila para carimbarem um passaporte, isto é, um pequeno livro que serve para registarem a presença na Jornada dos Sonhos — uma série de doze eventos que a igreja tem organizado às quartas-feiras. A entrada é, no entanto, totalmente livre. Há pipocas à venda. Há saquinhos com oferendas para quem quiser levar. Antes de entrar na sala, há jovens com um cartaz com código QR em que se lê: “É novo aqui?”

Antes de se chegar a este espaço de estética moderna, passa-se por um grande parque de estacionamento. À esquerda, uma zona de restauração reúne vários restaurantes, com opções que vão da carne grelhada ao fast food. Algumas pessoas jantam antes da sessão. A sensação é a de que se vai a um concerto. Algo que se torna ainda mais evidente ao entrar no auditório gigantesco: há projetores, uma banda em palco, um ecrã gigante e câmaras de televisão prontas a gravar.

Ali tudo parece profissional e nada é deixado ao acaso. O evento começa às oito em ponto com uma espécie de trailer: um vídeo no qual uma jovem sorridente, de cabelos encaracolados, apresenta a agenda da igreja para as semanas seguintes. O destaque vai para o espetáculo de Natal, agendado para meados de dezembro e anunciado como um megaevento. Pede-se que tragam “toda a família”, uma mensagem repetida várias vezes ao longo da sessão. Na multidão, há gente de todas as idades: crianças, adolescentes — alguns sem esconder o aborrecimento por lá estarem —, adultos e idosos. A linguagem é moderna e apelativa, perfeitamente alinhada com a estética de um grande espetáculo.

Assim que o vídeo termina, começa o verdadeiro espetáculo. Vários cantores sobem ao palco para interpretar temas pop de cerca de cinco minutos, marcados por refrões fáceis de memorizar. A plateia vibra e acompanha em coro, demonstrando saber de cor as letras com um forte teor religioso. “Tá sofrendo, louve / tá chorando, louve / não importa, louve / seu louvor invade o céu” é um dos versos que mais contagia o público, que entretanto foi preenchendo quase na totalidade os lugares da sala.

Ao fim de 30 minutos, com o fim do concerto, chega o momento do pedido de donativos. Após o testemunho de um homem que “já tinha vivido na rua”, é a vez de, num ecrã de fundo, aparecer um código para doações online. Depois, surgem imagens de crianças africanas — num apelo à ajuda para uma missão humanitária da igreja em África. Nesse momento, vários jovens entram na sala com terminais de multibanco. A mensagem é clara: a quem quiser doar, basta aproximar-se com o cartão ou com o telemóvel. E dezenas de pessoas acabam por contribuir nesta quarta-feira.

O pastor Fernando Diniz entra depois em palco para uma aula que parece ser de autoajuda e desenvolvimento pessoal. Assumindo um “interesse por pedagogia” que já dura há 30 anos, o homem de 52 anos lembra os fiéis da importância de não adiarem decisões futuras e de não sentirem medo. Enquanto orador, é carismático. Eleva o tom nos momentos certos e anda com naturalidade pelo palco, misturando um discurso por vezes abstrato com exemplos práticos.

A aula motivacional com uma componente religiosa dura uma hora. Soltando um “ámen” de quando em quando, a plateia acompanha atentamente: uma senhora toma notas num bloco, enquanto outro fiel aponta no telemóvel o que Fernando Diniz diz. O pastor tinha preparado uma apresentação em PowerPoint eficaz, ainda que o tema da literacia financeira tivesse sido explorado de forma leve. “Irmãos, procrastinar é um dos maiores venenos. Sabe aquela coisa de empurrar um pouco mais? Há gente que faz isso. Há uma parábola na Bíblia que retrata isso — Lucas, capítulo 14, dos versículos 15 ao 24”, exemplifica.

Quando termina, é a vez de Josué Valandro Jr. subir ao palco. Mentor e com 840 mil seguidores no Instagram, o pastor aborda o tema do dinheiro. Também carismático e bastante seguro em palco, pede aos fiéis para acreditarem que podem ter uma “vida abundante financeiramente”. “Eu quero que acredite que pode ter uma casa cheirosa, gostosa. Comida boa na mesa, poder comprar as suas coisas, prosperar. O seu coração vai ser mais rico do que o seu bolso. A gente só não pode ter medo de prosperar.”

Enquanto Fernando Diniz evitou comentar temas da atualidade política, o pastor carioca é bem mais incisivo. “Senhor, eu vejo um monte de gente com dinheiro a comprar arma para o crime. Vejo gente com dinheiro a comprar noites de prostituição, aqui no nosso país… Deputados, senadores, juízes… Gastarem milhões em prostitutas de luxo”, lamenta, numa referência ao caso Master — um dos assuntos mais comentados na campanha eleitoral brasileira, que envolve o empresário Daniel Vorcaro numa rede intrincada de trocas de favores na alta sociedade brasileira. “Deus, que devassidão o dinheiro dessa gente trouxe”, lamenta o pastor.

▲ Momento em que se pede doação de dinheiro com códigos QR

José Carlos Duarte

Em sentido inverso, elogia os “empresários” que conhece e que “colocam milhões na obra missionária, que ajudam nas obras da igreja, que ajudam as pessoas carentes, que fazem obra social”. “Senhor, que coisa maravilhosa a gente poder prosperar financeiramente e poder fazer a diferença”, frisa, fazendo ainda uma avaliação negativa do Brasil: “O poder de compra das pessoas diminuiu, Deus”. Ainda assim, Josué Valandro Jr. mantém a crença de que, em 2027, “não vai faltar nada”.

O discurso de Josué Valandro Jr. é bastante parecido com a visão de Flávio Bolsonaro para a economia: os incentivos ao empreendedorismo, a defesa da iniciativa privada e a desconfiança em relação aos apoios sociais do Estado. Para o pastor, tal como para o movimento bolsonarista, a verdadeira transformação financeira não vem das políticas públicas ou da redistribuição de rendimentos, mas sim do esforço individual, do mérito e da crença de uma bênção de Deus concedida a quem arrisca — algo que fica bem patente neste discurso.

No entanto, o pastor vai ainda mais longe. Pede aos fiéis que vão votar para “repreender todo o mal”. Afirma esperar não haver “sacanagem” nas urnas e que ninguém tente fazer manobras de “manipulação”, apelando, ainda assim, para que não haja “confusão” e para “ninguém bater em ninguém”. Josué Valandro Jr. quer que os membros da sua igreja “votem na tecla certa”. “A votação é muito rápida. Nem é para governador, que isso já foi na primeira volta”, explica ainda.

"Vote como um cristão, patriota e de bons costumes. A gente não é a favor do aborto, da ideologia de género, da libertinagem e das drogas."
Pastor Josué Valandro Jr.

No final do discurso, antes da oração de encerramento, o pastor exalta-se ao abordar as eleições. “Vote como um cristão, patriota e de bons costumes. A gente não é a favor do aborto, da ideologia de género, da libertinagem e das drogas”, apela, acrescentando: “Vamos respeitar a nossa causa e o nosso credo”. Alguém na multidão faz o gesto do 22 — levantando o indicador e o dedo do meio das duas mãos. Josué Valandro Jr. aponta para essa pessoa e sorri, mas sem nunca pronunciar o nome daquele de quem é amigo pessoal: Flávio Bolsonaro.

As preferências políticas de Josué Valandro Jr. — guru espiritual da antiga primeira-dama — não são segredo para ninguém: nas redes sociais, tem feito vídeos de apoio a Flávio Bolsonaro. O pastor intervém ativamente na vida política e costuma acolher, na Igreja Batista Atitude, vários candidatos de direita, dando-lhes a sua bênção. Em 2018, Jair Bolsonaro levou-o ao Tribunal Superior Eleitoral, em Brasília, para realizar uma oração. Em simultâneo, naquele ano, o pastor foi alvo de mais de 200 queixas por propaganda eleitoral irregular nas eleições de há oito anos.

O evento termina ao fim de duas horas e quinze minutos. Alguns fiéis deslocam-se ao espaço de restauração para um jantar tardio, enquanto outros se mantêm a conversar em grupo. Ao Observador, muitos partilham a ideia de que “Flávio Bolsonaro é o único que defende o que acreditam”. “É o único que respeita as nossas tradições, as nossas formas de pensar, as nossas causas”, conta Douglas Fernandes, que veio à igreja esta quarta-feira com dois amigos — um hábito que mantém todas as quartas-feiras e domingos.

▲ Os três amigos que vieram ao culto (Douglas Fernandes à direita)

José Carlos Duarte

Outro casal que sai do recinto revelou que este evento — dedicado à literacia financeira — foi o seu favorito. “Maravilhoso. O pastor é uma inspiração. A ideia de que devemos prosperar é muito importante”, salienta Cassandra Fagundes, na companhia do namorado. “No domingo, voto 22, obviamente. Deus vai dar a graça e permitir que Flávio Bolsonaro seja o próximo Presidente para acabar com a libertinagem do PT”, espera, acrescentando que tem “feito orações” para que isso aconteça.

Segundo várias sondagens, Flávio Bolsonaro consolida uma vantagem significativa entre os evangélicos face a Lula da Silva. Cerca de 60% destes eleitores tencionam votar no candidato do Partido Liberal, enquanto Lula da Silva se fica pelos 30%. Em 2026, os evangélicos representam já, segundo os levantamentos realizados, cerca de 36% da população — e esse número deverá aumentar nos próximos anos. Por volta de 2050, podem mesmo chegar aos 50%. Para que essa expansão se concretize, grandes produções e eventos que misturam música, autoajuda e um forte sentimento de comunidade — como o desta quarta-feira — desempenham um papel decisivo.

O padre progressista que fez obra social e usa um boné antifascista: “O fascismo usa o discurso da religião”

O barracão no bairro da Mooca onde se assiste a missas de segunda a domingo (à exceção de sábado) é apenas provisório. A igreja principal está em obras. A estética, descreve Júlio Lancellotti ao Observador, vai ser “bem católica e tradicional”, preservando elementos do antigo edifício. Deverá reabrir em “abril ou maio do ano que vem”. Nos tapumes que escondem a obra, veem-se várias fotografias que retratam o padre, de 77 anos, com origens italianas, no apoio aos mais carenciados.

▲ Atual igreja da Mooca enquanto a principal está a ser remodelada

José Carlos Duarte

A rotina de Júlio Lancellotti é sempre a mesma aos dias da semana. Às 7 horas da manhã, celebra a missa. Esta está longe de estar cheia, apesar de o espaço provisório não ser muito grande. No final da sessão, o padre lamenta perante os fiéis as “atitudes de enfrentamento” no Brasil: “Não sei para onde nos estão a levar”, desabafou. “Deus nos proteja neste momento tão difícil. Ámen.”

Depois da missa, e após um curto descanso, segue para o espaço que designa como “café”. Antes disso, sentado numa cadeira, confessa ao Observador que, na madrugada passada, “dormiu muito mal”: “Tive dores de cabeça”. Alguns fiéis vão-se aproximando. O padre não resiste a comentar a atualidade política, até porque, na noite anterior, Lula da Silva e Flávio Bolsonaro tinham-se enfrentado num debate transmitido pela Band. “Foi muita grosseria, muita má educação. Desliguei a meio e fiquei incomodado. Se calhar foi por isso que fiquei com dores de cabeça”, desabafa.

Quem também aborda o padre é Ana Cláudia Kennedy. Veio de Nova Iorque para São Paulo para ver o padre em Mooca, estando no Brasil para visitar a família. “Sou fã absoluta”, conta ao Observador, acrescentando que “o acompanha nas redes sociais”. A mulher trouxe mesmo um saco cheio de várias oferendas para o padre, como um quadro de que Júlio Lancellotti gostou particularmente.

▲ Ana Cláudia Kennedy (ao centro) veio de Nova Iorque e deu um quadro ao padre Júlio Lancellotti

José Carlos Duarte

Júlio Lancellotti é o pároco de São Miguel Arcanjo. Ao longo dos últimos anos, ganhou uma impressionante projeção mediática pela sua defesa dos direitos humanos, sobretudo num assunto que ainda melindra muitos membros da Igreja Católica: os direitos LGBT+. Aliás, o padre tem inclusivamente o que diz ser “filha emprestada”: Brisa, uma mulher transexual que o apoia diariamente no trabalho comunitário com os mais vulneráveis do bairro, como o Observador testemunha.

Com um carrinho de mão carregado de roupa e meias, antes de ir para o café Júlio Lancellotti percorre as ruas do bairro até parar numa praça na Mooca. Várias pessoas em situação de sem-abrigo já o aguardam. Recebem as peças distribuídas pelo sacerdote com um sorriso rasgado: “Muito obrigado, senhor padre”. “Isto é tudo doação, temos um acordo com uma empresa que nos dá a roupa”, explica, enquanto entrega os agasalhos. Daiane Ribeiro, que diz ter saído das ruas graças ao sacerdote, é uma das mulheres que o acompanham nesta ação. “Fui vítima de violência doméstica. Fiquei sem dentes. E fiquei sem casa quando fugi. O padre ajudou-me num momento muito difícil”, recorda.

A próxima paragem é o tal “café” — um armazém onde cerca de 150 pessoas já fazem fila à porta para receber o pequeno-almoço, numa iniciativa que conta com a presença diária de Júlio Lancellotti. Antes de distribuir a comida, o padre pede aos presentes que “vão votar no dia 25” e que votem “no candidato mais justo”. As pessoas gritam “Lula”, mas o sacerdote apenas sorri. E critica ainda aquilo que diz ser uma “cabeça de serpente” — uma provocação dirigida a Flávio Bolsonaro, expressão que este também já tinha usado contra o candidato do PT.

▲ O "café" onde o padre dá comida às pessoas em situação sem-abrigo

José Carlos Duarte

Uma mulher que faz parte da equipa de apoio declara perante os presentes, em voz alta: “Dia 25, é votar no 13, votar no Lula”. “Tive um grande desgosto, porque o meu filho — negro e a estudar numa universidade federal — votou no Flávio. Ontem [domingo], durante o debate, estava a pôr no Instagram que apoia aquele miliciano. Estou desgostosa como mãe”, critica. Algumas pessoas na fila dizem depois ao padre que “vão votar no Lula” e que querem que ele vença.

O vestuário de Júlio Lancellotti também denuncia claramente o seu sentido de voto. Usa um boné do “Frassati, movimento antifascista”, uma iniciativa lançada pelo próprio em setembro de 2025 — inspirada em Pier Giorgio Frassati, o ativista católico italiano que foi um crítico feroz do regime de Benito Mussolini. Com este movimento, o objetivo do pároco é defender “os direitos humanos, os oprimidos e a recusa absoluta do autoritarismo”, opondo-se às vertentes mais conservadoras na Igreja Católica.

Outro pormenor que salta à vista é o avental usado pelo padre com a imagem de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do país. “O Brasil tem mãe”, lê-se na indumentária. Durante a campanha para a primeira volta, o tema gerou forte polémica: devido à estreita ligação de Flávio Bolsonaro aos evangélicos, surgiram rumores (nunca oficialmente confirmados) de que o candidato pretendia retirar-lhe o estatuto de padroeira do país, o que provocou uma forte reação de indignação entre os católicos.

Sempre que passa pelos sítios — se bem que nunca seja categórico —, Lancellotti realça a importância de se ir votar no dia 25 de outubro. "No candidato certo" e não na "cabeça da serpente", diz — uma provocação dirigida a Flávio Bolsonaro.

“Isso já foi superado e já meio que morreu”, assinala ao Observador Júlio Lancellotti, que não deixa, no entanto, de criticar os ataques que a Nossa Senhora Aparecida diz ter sofrido. “É como se em Portugal se atacasse a Nossa Senhora de Fátima. É a mesma situação”, compara. Sobre o avental, usa-o para mostrar a sua “crença” no poder da santa.

Em São Paulo, Júlio Lancellotti gera fortes elogios e ácidas críticas. Sendo uma cidade com um autarca de direita (Ricardo Nunes) e com um governador do mesmo espaço político (Tarcísio de Freitas), o padre refere que sofre “muitos ataques”: “Querem que eu deixe de ajudar os mais pobres. Mas quem é bolsonarista pode fazer o que quiser que não me atinge“. Aliás, não é apenas politicamente que as suas posições sociais geram incómodo: em dezembro de 2025, foi proibido pela Arquidiocese de São Paulo de transmitir missas pela internet e de usar as redes sociais, por todo o mal-estar político que se gerou em relação aos apoios sociais que concede.

É uma luta que o sacerdote afirma travar todos os dias. “Estão agora a construir prédios novos, querem descaracterizar esta zona de Mooca. E querem expulsar as pessoas da rua, que já vivem em más condições”, acusa. O seu projeto de caridade social é visto como um entrave pelo poder local a criar um bairro em que a pobreza não está tão exposta como agora.

▲ Padre a dar roupa aos sem-abrigo do bairro de Mooca, em São Paulo

José Carlos Duarte

Na visita que faz em vários espaços do bairro, o padre mostra ainda outros equipamentos da obra social. No armazém onde dá comida aos mais carenciados, existe uma escola de culinária para os sem-abrigo, algo que lhes ocupa o tempo. Há também uma biblioteca com um grande acervo de livros e computadores. “É importante que eles tenham acesso à internet”, explica Júlio Lancellotti. Há ainda um moderno ginásio e alguns escritórios.

O padre é uma figura bastante bem acolhida nas ruas, como se vê no passeio que faz com o Observador nas visitas entre os espaços do bairro. “Vou votar Lula sem dúvida”, diz-lhe um sem-abrigo. Outro faz uma festa quando o vê e assinala que já “se informou” sobre onde votar. No dia 25, o padre não esconde que quer que vença Lula da Silva, criticando ao Observador a “polarização” gerada pela direita. “Não tem racionalidade. A falta de racionalidade da polarização é a falta de respeito pelo outro”, atira.

“O fascismo usa o discurso da religião”, lamenta ainda o sacerdote, acrescentando que António de Oliveira Salazar “já tinha feito isso” em Portugal com o catolicismo. São os evangélicos os culpados pelo fenómeno? Júlio Lancellotti nega e aponta que também há “muitos católicos bolsonaristas”. “São pessoas polarizadas e é difícil convencê-las do contrário.”

▲ O ginásio e a biblioteca da obra social do Padre Júlio Lancellotti

José Carlos Duarte

Defensor do Papa Francisco (recebeu mesmo uma chamada dele em 2020, na qual foi designado “mensageiro de Deus”), Júlio Lancellotti já tinha feito campanha ao lado de Lula da Silva — que também se assume católico — em 2022. Em dezembro de 2023, o chefe de Estado chamou-o ao Palácio do Planalto para o ajudar a elaborar um plano para as pessoas em situação de sem-abrigo, defendendo-o nos embates com os dirigentes políticos de direita em São Paulo. A 11 de outubro deste ano, o sacerdote esteve presente no grande evento realizado na Avenida Paulista por apoiantes do atual Presidente e foi bastante aplaudido.

As sondagens mostram que, entre o eleitorado católico, a preferência vai para o chefe de Estado: Lula da Silva capta 50% das intenções de voto dos católicos, ao passo que Flávio Bolsonaro se fica pelos 40%. A diferença ainda é substancial, embora menos vincada do que a registada entre os evangélicos. No total, contabilizam-se mais de 100 milhões de católicos no Brasil, o que corresponde a cerca de 56% da população.

Entre o espetáculo automotivacional da Igreja Batista Atitude, na Barra da Tijuca, e a caridade comunitária no bairro da Mooca, o ambiente não podia ser mais diferente. Os evangélicos apostam em megaproduções para atrair famílias de classe média; os católicos preferem manter o contacto direto e diário com os fiéis, em particular os mais vulneráveis. Partilham, ainda assim, um objetivo em comum: garantir que a sua visão e o seu projeto de sociedade triunfam nas urnas no domingo.

[Em dezembro de 2009, uma mulher é encontrada assassinada a tiro no estado do Rio de Janeiro. A polícia brasileira há-de confirmar que o corpo é de Rosalina Ribeiro, a herdeira de um milionário português, que tinha sido dada como desaparecida. A última pessoa conhecida a vê-la com vida tinha sido o advogado português dela, o ex-deputado e antigo líder parlamentar do PSD Domingos Duarte Lima. Já pode ouvir, em antestreia, o primeiro episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.