As histórias da Mafalda não podem começar por “era uma vez”, mesmo que Quino quisesse. É que, ao fim de cinquenta anos de vida, as tiras satíricas da menina de seis anos continuam muito atuais. A provar isso está o Prémio Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades que o desenhador argentino de 82 anos ganhou ainda no ano passado.

Mafalda detesta sopa, a guerra, as armas e Bond – James Bond. Mas adora Beatles e é uma grande defensora dos direitos humanos. É uma criança de mente aberta e linguagem primorosa, que se rege pela honestidade e um certo – muito – descaramento.

A verdade é que a Mafalda tem deixado marcas em todas as gerações desde 1964. E existem muitas lições de vida a absorver das suas bandas desenhadas. Quais? Estas, por exemplo:

Nunca devemos parar

https://twitter.com/MafaldaDigital/status/479732132387233793

Tradução livre: “Pés na terra: assim que se põe os pés em terra acaba-se a diversão”

Ver televisão pode ser deprimente

Tradução livre: “Televisão: Que programa asqueroso. Desculpa-me [televisão], é o costume afinal”

 

O mundo consegue ser igualmente deprimente

Tradução livre: “Muletas para o ânimo: Para o quê? Para o ânimo, não têm muletas para o ânimo?”

Por isso, mais vale dosear muito bem o tempo que passamos a pensar nele

Tradução livre: “E o mundo: Com tantos desgostos o pobre [do planeta, representado pelo globo] enfraquece”

Ou talvez uma imagem valha mais que mil pensamentos

Tradução livre: “A situação mundial: Papá, que trouxeste? Um monumento à situação internacional?”

Os políticos vão sempre falhar as nossas expetativas

Tradução livre: “E o mundo de Mafalda: Quero felicitar os países que conduzem a política mundial. Assim haja alguma vez motivos para isso”

Se calhar exigimos sempre demais

Tradução livre: “Bom dia, que mundo temos hoje? O primeiro, o segundo e o terceiro. Se houver liberdade, justiça e essas coisas, despertem-me, seja qual for o mundo”

Crescer é complicado. Muito complicado

Tradução livre: “Claro, aos dois meses e dentro de um berço não podes ter a mínima ideia de tudo o que acontece no mundo. Claro que não”

O fator surpresa é sempre preferível

Tradução livre: “Vês, pomos a semente, tapamos, regamos um pouco e dentro de algumas meses teremos uma linda planta [pai]”; “Pois, tiveste de me contar o final!”

O conceito de democracia merece uma revisão

Tradução livre: “DEMOCRACIA (do grego demos, povo, e kratos, autoridade) Governo em que i vivo exerce a soberania”

E o significado de liberdade também

Tradução livre: “A liberdade que você vende: Mas esta liberdade [a estátua] que você vende não tem chama? Porque só se acende quando carregamos [em castelhano, oprimimos, que tem duplo sentido]. Sim, já me tinha dado conta”

Há que estar atento às pessoas tóxicas

Tradução livre: “Sim, eu sei, há mais problemólogos do que solucionólogos, mas que vamos fazer?”

Trabalhar para viver ou viver para trabalhar?

Tradução livre: “E vocês, como chegam ao fim das segundas-feiras: Enviamos todos uns dias um pai [para o trabalho] para que o escritório nos devolva isto?”

Pouco importa: viver pode custar sempre (tal como acordar)

Tradução livre: “Custa ter ânimo para descer ao mundo”

Os discursos e os gestores

Tradução livre: “Levantem a mão: Levante a mão quem está farto de ver o mundo gerido com os pés!”

Somos muito queixinhas

Tradução livre: “Uma vez mais, os nossos microfones levam a todo o país a emoção do nosso desporto mais popular:” “Queixarmo-nos?”

Às vezes, a verdade é dolorosa…

Tradução livre: “Olha, isto é o mundo, vês? Sabes porque é tão bonito, sabes? Porque é uma maqueta! O original é um desastre!”

… Até porque pode ser inútil

Tradução livre: “Desde esta humilde cadeirinha, faço um emotivo apelo à paz mundial!! Parece que hoje em dia o Vaticano, a ONU e a minha cadeirinha têm o mesmo poder”

 

Na vida, há perguntas que nunca vão ter resposta

Tradução livre: “Papá?”; “O Papá está a trabalhar Guille”; “‘Poquê?'”; “Porque quando somos crescidos temos de trabalhar”; “‘Poquê?'”; Porque senão não podemos comprar comida, roupa, nada”; “‘Poquê?'”; “Porque é assim este mundo Guille”; “‘Poquê?'”; “”Com ano e meio e já é candidato ao gás lacrimogénio”