A época tem mais baixos do que altos e termina da maneira que ninguém quer: 38 jogos depois, o Deportivo da Corunha cai. E cai mal porque o trambolhão fá-lo aterrar na segunda divisão. A equipa caça poucos pontos, é despromovida e muitos jogadores têm de pensar no que fazer à vida. Como, durante meses, uns dão mais nas vistas que outros, há também quem pense mais do que os restantes. Bruno Gama não é um deles. Fosse à esquerda ou à direita, a bola colava ao pé e dali era raro não sair algo que piscasse o olho à baliza. É por isso que, no verão de 2013, o português troca uma equipa à rasca em Espanha por outra amiga da Europa na Ucrânia.

Na altura parece-lhe bem. “Era um clube sem problemas e a proposta ia dar bom dinheiro ao Depor. Era o melhor para todas as partes e, claro, para mim”, diz, com a voz a denunciar um sorriso na cara. Bruno está feliz, ainda mais do que estava quando chegou a Dnipropetrovsk, à cidade do nome esquisito e do clube que o simplifica, o Dnipro. “Não vinha com esperanças que acontecesse algo assim, não estava à espera de chegar a uma final europeia”, confessa. Tanto  chegou que vai esta quarta-feira (19h45), em Varsóvia, jogar para tentar ganhar a Liga Europa.

Bruno Gama fala dois dias antes da final com o Observador e a chamada, mesmo um pouco infetada com interferências, dá para perceber que o português está tranquilo. Se não desse, era só esperar que ele o garantisse. “Estou a viver o dia-a-dia normalmente. Claro que é o sonho de qualquer jogador estar numa final destas, mas não tenho tido qualquer tipo de preocupação”, revela quem, aos 27 anos, já anda nisto do futebol há muito — tornou-se profissional aos 16 anos e conta 83 internacionalizações entre os sub-16 e sub-21. Foi durante esses tempos que coincidiu nas seleções nacionais com Daniel Carriço, o Sr. Recordes na Liga Europa.

SAINT ETIENNE,FRANCE - OCTOBER 2: Bruno Gama of FC Dnipro Dnipropetrovsk in action during the UEFA Europa League football match AS Saint-Etienne against FC Dnipro Dnipropetrovsk at the Geoffroy Guichard Stadium on October 2, 2014 in Saint-Etienne, France. (Photo by Jean Phillippe Ksiazek/EuroFootball/Getty Images)

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Agora é contra ele que terá de lutar para ganhar a final. Contra o defesa que também dá uma perninha a trinco e hoje é o homem com mais jogos feitos na história da competição (47). Já o conhece há muito, mas até ao dia do encontro, nada de conversas. Nem com Beto ou Diogo Figueiras, os outros portugueses que jogam no Sevilha. “Não, não, não, só no dia de jogo. Aí provavelmente trocaremos algumas palavras”, garante. Talvez aí, ganhe ou perca, lhes conte como se vive uma vida na Ucrânia que, ao início, não foi nada fácil. Bruno já sabia “mais ou menos como ia ser”, mas quando lá chegou é que caiu na real de tudo ser “completamente diferente” — o frio, sobretudo, “é de morrer”.

Depois foi “aceitando melhor as coisas” à boleia de umas ajudas, como a de Matheus, o brasileiro e um dos capitães de equipa que passou sete épocas em Portugal. É sempre bom ter alguém que fala o mesmo idioma no meio de um país que se entende noutra língua. Sobretudo quando parte desse país decide andar às turras, como aconteceu no início de 2014, quando separatistas rebeldes, pró-Rússia, protagonizaram vários protestos na parte leste da Ucrânia. “Fiquei preocupado, claro. Na cidade onde estou não houve problemas, não se viram manifestações, sentimo-nos seguros. Mas nunca tens 100% de certezas que os conflitos não iam chegar à nossa região”, explica, falando na altura em que o campeonato ucraniano “até esteve uma ou duas semanas parado”.

Pouco depois, tudo ficou bem, como está hoje. Mas podia estar melhor para Bruno Gama, que tem dado mais pontapés na bola na Ucrânia do que na Europa — desde o Natal que o português jogou em todas as oito partidas que o Dnipro fez na Liga Europa, mas não foi titular em nenhuma. “São opções do treinador. É verdade que no campeonato tenho sido muitas vezes titular [19 em 23 jogos, já agora], mas não há nenhuma razão especial para isso. Claro que preferia jogar a titular, não é? Mas tem corrido bem à equipa, estou feliz por isso e o que interessa é que estamos na final”, resume. E isso já ninguém lhe tira.

Tal e qual as saudades de Portugal, que Bruno Gama também já sente. Regressa ao país sempre que pode e só não volta mais vezes porque ainda não atendeu uma chamada que tivesse Fernando Santos, selecionador nacional, a falar do outro lado. “Sinceramente, neste momento, não tenho cabeça para isso”, diz, com a sinceridade de quem só pensa na final da Liga Europa que aí vem. A mesma, quem sabe, que lhe poderá abrir a porta que tem estado fechada na seleção nacional. Bruno salienta que “nunca se sabe o dia de amanhã” e, por isso, também não imagina o que se passará depois do jogo desta quarta-feira. E um retorno, de vez, para jogar à bola em Portugal? “Não digo que não.”