Em Portugal, quase toda a gente sabe que o país é o maior produtor de cortiça do mundo. O mundo é que nem sempre sabe que este material, responsável pelas rolhas que armazenam todo o tipo de vinhos ou do qual são feitos os bibelôs à venda nas lojas turísticas da Baixa lisboeta, é português.

Não foi por acaso que fizemos esta introdução. Assim que nos sentamos no móbil deste texto, o elétrico “Tram Tour”, parece que só o chão escapou ao material castanho escuro e rugoso. De resto, ele está por todo o lado. Os bancos são de cortiça. O teto de cortiça é. E até a parte de fora faz lembrar uma rolha.

Uma das vantagens da cortiça, diz-se, é o isolamento térmico. Isso torna-se evidente antes de iniciarmos a viagem inaugural da nova rota que a Carristur oferece aos turistas em Lisboa, entre o Jardim do Príncipe Real e a Praça Luís de Camões. O telemóvel diz-nos que só estão 25 graus – uma piada de mau gosto para quem estiver debaixo deste sol abrasador. Mas, dentro do “Tram Tour”, não vemos nenhuma testa a brilhar de suor. Nem a minoria de passageiros mais vestidos, que optaram pelo fato e gravata, parecem tentados a alargar o colarinho das suas camisas. Entre eles, sentado de forma descontraída num dos lugares da frente, está Rui Loureiro, o presidente da Transportes de Lisboa. É a esta empresa pública que pertence a Carris. A Carris, por sua vez, detém 100% da Carristur.

Fábio Pinto/ Observador

Das colunas de som redondas instaladas no teto (aí, a cortiça foi pintada de branco) surge a música da fadista Mariza. “Quem tem, quem tem / Amor a seu jeito / Colha a rosa branca / Ponha a rosa ao peito”, ouve-se. É o mote necessário para o elétrico começar o seu percurso (com outro, igual a este onde vamos, a seguir-nos na retaguarda), saindo do Jardim do Príncipe Real a um ritmo vagaroso. A voz de Mariza vai dando lugar a outra, também feminina, que numa gravação vai descrevendo as zonas em volta.

Há 20 anos que não se via nada assim

À medida que o elétrico avança pela Rua Dom Pedro IV, logo depois do Príncipe Real, muitos olham-no de alto a baixo. Os estrangeiros, parecem ambicioná-lo. Os lisboetas apresentam um ar de surpresa. Há um fundo de razão por trás disto. Não é todos os dias que se vê um elétrico por estas bandas. Feitas as contas, tal já não acontecia há 20 anos. Em 1995, a Carris e a Câmara Municipal de Lisboa (CML) decidiram suspender a carreira 24, que circulava entre o Cais do Sodré e Campolide. Parte desse percurso passava pelos carris que agora mesmo percorremos.

O “Tram Tour”, porém, não é o 24 – o caminho tem menos de um quilómetro e o público alvo não são os locais, mas sim os turistas. O bilhete custa 6€ (3€ para crianças entre os quatro e os dez anos) e dá direito a entrar e sair do veículo ao longo de 24 horas. Vendo bem, estas 24 horas não são literalmente 24 horas, uma vez que este serviço funciona apenas entre as 11h00 e as 16h00. A cada 20 minutos, parte do Jardim do Príncipe Real ou da Praça Luís de Camões. E é também aproximadamente 20 minutos que se prevê que a viagem dure. Isto, claro, se tudo correr bem.

Não foi propriamente o caso desta primeira viagem. Poucos minutos depois da partida, já defronte do miradouro de São Pedro de Alcântara e à porta de um dos hotéis mais bem cotados desta zona da cidade, o elétrico é obrigado a parar – uma carrinha de transfers para o aeroporto impede a passagem ao “Tram Tour”. A gargalhada é quase automática em todo o veículo à exceção da parte da frente. Os administradores da Carris têm razão de queixa: em 2013, por exemplo, os carros mal estacionados causaram um total de 454 horas de interrupção na circulação dos elétricos em 11 meses. Por sorte, o condutor da carrinha está por perto e trata da questão em pouco mais de um minuto.

O elétrico segue estrada abaixo sem mais problemas muito em parte porque, a propósito deste novo trajeto da Carristur, a CML colocou uma fila de pilaretes de plástico amarelos à beira do passeio, a meio da Rua da Misericórdia, para evitar que mais carros impeçam o caminho.

Chegados à Praça Luís de Camões, o veículo pára em frente à estação dos CTT. É apenas uma paragem técnica (será desse local que o “Tram Tour” partirá em direcção ao Jardim do Príncipe Real), mas há dois turistas que se acercam da porta e que perguntam se podem entrar. “Ainda não, este está reservado”, diz-lhes um trabalhador da Carris que também está apeado. Os dois homens de calções e tshirt ficam com cara de poucos amigos.

De novo, “a sorte grande”

Ultrapassado este problema, voltamos a repetir o percurso, desta vez na direção oposta, de regresso ao Jardim do Príncipe Real. Quase antes de chegar ao Largo Trindade Coelho, onde fica a Santa Casa da Misericórdia, a voz que faz a legenda da cidade lá fora abandona o tom moderado típico destas gravações de áudio e inicia a difícil tarefa de imitar o pregão dos vendedores de lotaria. “Olha a cautela! Olha a sorte grande! Hoje anda à roda!”

Pois bem, a sorte grande que saiu a este “Tram Tour” foi ficar novamente impedido de circular na estrada, desta vez por um veículo pesado de caixa aberta de onde uma grua tirava, uma a uma, sacas de cimento. Por coincidência, a carrinha está parada pouco depois dos tais pilaretes amarelos. “Extraordinário!”, exclama um dos passageiros de fato e gravata, cuja testa já não demonstra a secura de há pouco.

Quando a viagem termina, por fim, na paragem de elétricos do Príncipe Real, parece haver sentimentos distintos entre os vários tripulantes que agora abandonam o veículo.

No grupo de administradores da Carris e da Carristur, imperam sorrisos de circunstância – talvez ainda ponderem se o facto de este percurso ter sido ressuscitado 20 anos depois da sua suspensão é suficiente para ofuscar os percalços desta acidentada inauguração.

No círculo dos jornalistas, há alguma confusão. “Só isto?”, pergunta-se, depois desta viagem que, mesmo com as interrupções que não estavam nos planos, não demorou os 40 minutos (juntando ida e volta) previstos.

No meio disto tudo, há uma pessoa que não consegue esconder a sua felicidade. Gostou tanto da viagem que é um dos últimos a sair do “Tram Tour”. Trata-se do empresário Paulo Falcão Estrada, da Sofalca, a empresa corticeira sediada em Abrantes que forneceu toda a cortiça deste elétrico. “Deu algum trabalho mas acho que ficou bastante bem”, comenta de sorriso aberto.