O dia amanheceu nublado em Zurique, na Suíça, onde às 9h30 (8h30 em Lisboa) começou uma das jornadas mais longas e difíceis da FIFA. Mergulhada no caos, descredibilizada e pressionada a fazer mudanças urgentes, a organização que regula o futebol no mundo elege o novo presidente, mas não se esperam grandes surpresas. Pelas 16h, Joseph Blatter pode ver confirmado um quinto mandato. Confirme-se ou não, já nada será como era.

Um poder que não se pode comprar

Na abertura dos trabalhos, o presidente da FIFA, falando nessa qualidade e não na de candidato, apelou “à união e ao espírito de equipa” para resolver os problemas que afetam o organismo.

“Isto pode não acontecer num só dia mas estamos a começar e fá-lo-emos com os membros das federações nacionais, porque vocês são os embaixadores do nosso futebol. Vocês têm o poder de mudar a face da FIFA. Têm o poder nos vossos corações, um poder que não se pode comprar nos mercados”, disse Blatter.

Comparando o congresso desta sexta a um jogo de futebol, o suíço disse que a FIFA representa no mundo “a luta contra a corrupção, a viciação de resultados e o racismo”, algo que urge combater, defendeu depois. “Vamos mostrar ao mundo que somos capazes de gerir a nossa instituição e que somos capazes de o fazer juntos”, rematou.

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Blatter treme, mas não cai

A agenda do congresso da FIFA é muito grande e só no 17º ponto da ordem de trabalhos se vai decidir quem comanda os destinos do organismo nos próximos tempos: Blatter, há 17 anos no cargo; ou o príncipe Ali, cuja candidatura estava, desde o início, condenada ao fracasso. Antes da votação, ambos os candidatos terão oportunidade de falar aos delegados de cada uma das 209 federações, tentando convencê-los. Por estes dias, o melhor argumento de Blatter parece ser o de que não tem nada a ver com isto, que não sabia de nada, que não pode “controlar toda a gente” e que ele é, afinal, o homem que quer impedir que “as ações de uma minoria destruam a integridade de uma maioria que trabalha arduamente pelo futebol”. Disse-o esta quinta-feira.

“O futebol e a FIFA percorreram um longo caminho, mas há sempre muito trabalho a fazer de manutenção e de ainda maior elevação do nível do jogo: a bola nunca pára de rolar e há sempre coisas a fazer. Estou ansioso para enfrentar esses desafios futuros, pelo bem das novas gerações”, lê-se na nota introdutória da ordem de trabalhos do congresso.

Apesar do escândalo de corrupção que se abateu sobre a FIFA na quarta-feira, a teia de Blatter não será abalada. Algumas federações das Caraíbas (onde se centra a investigação da Justiça americana), quase todas as federações europeias (menos a Rússia e Espanha), os Estados Unidos, o Canadá e a Nova Zelândia vão apoiar o príncipe Ali. Blatter tem os votos de todas as outras federações – cerca de 156.

FIFA

Um bom exemplo de quão grande é o apoio a Blatter chegou em abril, num encontro da Confederação de Futebol da América do Norte, Central e das Caraíbas (CONCACAF), no centro das atuais investigações. Ao mesmo tempo que Jeffrey Webb, presidente daquele órgão e um dos detidos na quarta, apelava ao voto em massa no suíço, o presidente da federação da República Dominicana comparava Sepp Blatter a Moisés, Jesus Cristo, Lincoln, Churchill, Martin Luther King e Nelson Mandela.

Como funciona a votação

Apesar dos apoios públicos já dados a um e outro candidato, a eleição dos presidentes da FIFA faz-se através de voto secreto em urna. É necessária uma maioria de dois terços para vencer as eleições à primeira. Ou seja, 139 das 209 federações têm de apoiar a mesma pessoa. Caso não se consiga este consenso, realiza-se uma segunda volta, em que apenas basta uma maioria simples para eleger o futuro presidente.

A conferência de imprensa do eleito, marcada para depois da votação, foi adiada para sábado.

Da cúpula da FIFA, apenas Blatter não está ainda envolvido em processos judiciais. Todos os outros responsáveis estão detidos ou acusados.