O David Dinis desafiou-me para escrever para o Observador umas impressões sobre o debate de hoje. Presumo que me tenha convidado com o propósito de ter alguém de esquerda de forma a ter um painel equilibrado aqui no Observador. Aceitei com gosto. O primeiro desafio foi mesmo o de escolher em qual canal seguiria o debate. Não me lembro de ter visto um jogo simultaneamente transmitido por três canais abertos. Como representante da esquerda, elegi o canal público. Se vos parecer que viram o debate diferente do meu é porque, provavelmente, viram o debate num canal privado.

A intervenção inicial de António Costa foi mais forte, fazendo um pouco de demagogia com os anos de crise por que Portugal passou. Pedro Passos Coelho tentou responder, mas não consigo deixar de considerar absurdo a ideia que tentou de que Portugal teve um desempenho melhor do que a Irlanda ao longo desta crise. Estranhamente, Passos Coelho falou pouco no desastre grego.

Durante todo o debate, a estratégia de Passos Coelho foi só uma, colar António Costa a Sócrates. No início, esta estratégia funcionou bem, mais tarde passou a ser cansativa e pareceu uma manobra táctica desesperada, uma forma de não ter de responder às acusações em catadupa que Costa ia fazendo. Chegou a ser patético, como quando desviou a conversa para Sócrates para fugir às acusações de inoperância do programa VEM.

Já a estratégia de António Costa foi, numa primeira fase, a de acusar Passos Coelho de ter ido além da tróica por opção. Passos Coelho nunca conseguiu responder convincentemente a esta acusação. Ainda por cima, Coelho não conseguiu mostrar quaisquer reformas estruturais como bandeira. António Costa, talvez entusiasmado com o aparente sucesso da sua estratégia chegou a sugerir que foi por causa do PSD que a tróica veio parar a Portugal. Exagerou, esta acusação é, como disse Pedro Passos Coelho, ridícula. Numa segunda fase, costa demarcou-se com eficácia de Sócrates, referindo sempre que não queria cometer os erros do passado e dizendo mesmo a Passos Coelho que se quisesse debater com Sócrates então que fosse a casa dele. Acusou também Passos Coelho de ser um “passa-culpas permanente”.

Sobre um dos assuntos mais decisivo para o nosso futuro, a sustentabilidade da Segurança Social e a eventual necessidade de cortar pensões, António Costa fez mais demagogia do que Passos Coelho, que mostrou estar muito mais consciente do problema. Apesar de tudo, do ponto de vista eleitoral, não sei se isto será um trunfo.

Na discussão mais concreta dos programas eleitorais, Passos Coelho esteve bem a justificar que não precisamos de choques ao consumo e que não devemos por em causa as contas externas. Já António Costa foi certeiro ao acusar o programa do PSD de não ter contas. António Costa passou bem a mensagem de que não fazia promessas irrealistas, apesar das acusações em contrário. O que seria uma fragilidade, não se comprometer com alguns números, tornou-se um ponto forte.

António Costa falou bastante menos (cerca de 4 minutos menos), mas pareceu ter falado bastante mais. Melhor indicador não é possível. Hoje as hostes socialistas terão uma noite de alegria. As hostes da PàF devem estar a pensar que mais valia Passos Coelho ter ido debater com Catarina Martins, guardando Paulo Portas para este debate decisivo.

Luís Aguiar-Conraria, professor e vice-presidente da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho

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