Falar bem e em público não é só para quem tem talento. Afinal, se se engasga perante uma audiência, se come as palavras e acelera o ritmo do discurso de tal forma que ninguém percebe nada, a culpa é apenas sua e não da natureza que, pensam alguns, concedeu o dom da palavra a umas pessoas em detrimento de outras. E se a responsabilidade é do orador, é a ele que compete melhorar.

Isto é o que defende o brasileiro Reinaldo Polito, formado em Administração de Empresas e Ciências Económicas e autor do livro Como Falar Corretamente e Sem Inibições (Pergaminho). Nunca ouviu falar da obra? Esteve cerca de três anos no top de vendas da revista Veja e chegou, por estes dias, a Portugal.

A pedido do Observador, e via conversa telefónica, o autor reuniu algumas dicas que deve ter em conta caso tenha por hábito evitar falar em público. A ideia a reter? É tudo uma questão de autoconfiança.

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1. Receba o medo de braços abertos

Reinaldo Polito entra a matar: o autor diz preferir uma pessoa que confesse ter receio de falar perante uma vasta audiência do que alguém sem qualquer tipo de medo. O que à partida pode parecer insólito tem uma razão de ser, dado que “a pessoa muito confiante não se prepara como se devia preparar, não respeita o ouvinte como devia e acaba por falar demais [no sentido em que diz coisas impróprias]”. O autor acrescenta que “quem tem um pouco de receio respeita mais o tema e zela mais pela apresentação”. A isso soma-se o facto de a adrenalina proveniente do medo, se em menor quantidade, trazer emoção e entusiasmo ao discurso.

2. Depois de acolhido, aprenda a lidar com o medo

O medo é tido como um mecanismo de defesa e não tem por hábito desaparecer. Mas isso não quer dizer que não possa ser enfrentado. Há dicas muito simples para colocar o sentimento obscuro no seu devido lugar. Aconselha-se, então, que o orador conheça em profundidade o assunto que vai apresentar (de modo a sentir-se mais seguro); que aprenda a ordenar os seus pensamentos ou, então, que conheça os passos a dar; que pratique o hábito de falar em voz alta e à frente de público sempre que possível (para eliminar o que é desconhecido), e que tenha consciência dos seus pontos positivos e faça uso deles — talvez esteja na hora de reconhecer que tem uma bela voz ou que sabe contar uma boa história.

3. Ponha as cábulas de lado e seja natural

“A pessoa deve explorar a sua naturalidade.” O conselho do autor até parece fácil de aplicar, mas quantas pessoas não recorrem à interpretação de uma personagem fictícia assim que os nervos aparecem? Está na altura de deitar as máscaras sociais abaixo, até porque há quem converse bem no dia a dia, mas opte por alterar a sua forma de falar quando a situação pede por maior formalidade. Acontece que o nervosismo funciona exatamente ao contrário: quanto mais natural for o discurso, mais segura a pessoa se vai sentir. A ideia-chave é escolher a espontaneidade e deixar que a confiança aumente de escalão.

O mais importante é ter consciência de que já sabe falar, de que essa aprendizagem está feita. O que terá de aprender é a usar a palavra em situações em que talvez não esteja tão acostumado, como à frente de uma plateia. Para ter sucesso nessa importante empreitada, procure comportar-se em frente ao público da mesma maneira que age no dia a dia.”
(Como Falar Corretamente e Sem Inibições, pág. 25)

4. Empate e volte a empatar

Quando uma pessoa está diante de uma plateia, prestes a iniciar o discurso, sofre uma descarga de adrenalina devido ao medo que sente. Essa mesma adrenalina precisa de ser metabolizada, pelo que antes de se começar a falar deve-se (e pode-se) “fazer tempo”: desde acertar o microfone a organizar as folhas relativas à apresentação, mas também cumprimentar os restantes oradores que possam estar sentados numa mesa próxima (o que também é útil para uma pessoa habituar-se ao som da própria voz). O ato de empatar permite que o orador do momento fique progressivamente mais calmo.

A adrenalina permanece durante um tempo maior no organismo e provoca a confusão que todos conhecemos: as pernas a tremer, a voz a enrolar-se, as mãos a transpirar, o coração a bater mais rápido e forte, a voz a enrolar-se na garganta e até os pensamentos maravilhosos que eram tão claros antes de falar a desaparecerem diante do púbico.”
(Como Falar Corretamente e Sem Inibições, pág. 30)

5. Cative a atenção da audiência

São simples os truques que permitem agarrar a audiência, até porque, como diz Polito, não existe público desinteressado, apenas um orador desinteressado — a culpa é sempre de quem fala e nunca de quem ouve. E que dicas são essas? Usar o volume de voz apropriado ao ambiente onde se vai falar, garantir a existência de um ritmo mutável ao longo do discurso, pronunciar bem as palavras (mas evitar perfecionismos), usar o vocabulário do dia a dia e adaptá-lo às circunstâncias (não fica mal ter um advogado a usar termos técnicos quando quem o ouve são colegas de profissão), ter uma postura correta e optar por um equilíbrio no gesticular das — o autor garante que é melhor ter gestos a menos do que a mais, uma vez que o excesso faz com que as pessoas comecem a prestar atenção às mãos do orador em vez das suas palavras.

6. Nunca se queixe

Já agora, não se atreva a queixar-se de uma eventual voz rouca ou do facto de estar engripado. Polito explica que fazê-lo é chamar a atenção para um defeito físico. “Se tiver uma mensagem, ninguém vai prestar atenção à sua rouquidão. E também não pode pedir desculpas por não conhecer bem o assunto, caso contrário nem deveria ali estar.”