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Mais do que sair tudo perfeito, os juízes têm de achar que nada falhou ali. A rampa de lançamento de se inventar na zona certa da onda, os pés não podem sair da prancha, as mãos convém estarem livres, a rotação ser das boas e a aterragem estável. De preferência, sem cambalear ou usar o apoio da água para voltar a colocar o corpo em pé. É mais ou menos isto que é preciso para os juízes concordarem em dar nota 10 a uma onda em que um surfista aposta tudo numa manobra no ar. Se isto acontece é caso para arregalar o olho e foi isso que aconteceu quando se viu Gabriel Medina a surfar na praia de Hossegor, em França.

O brasileiro não fez por menos e, na ronda 4, sacou um aéreo monstruoso que lhe valeu um 10. Horas depois, a World Surf League (WSL) colocava os seus comentadores, na praia, a discutirem, com a ajuda de vídeos que mostravam outras façanhas de Kelly Slater, John John Florence, Julian Wilson ou Filipe Toledo, se aquela era a melhor manobra aérea alguma vez vista feita no circuito mundial de surf (CT, ou Championship Tour). O aéreo foi tão bom que chegou para encher quase dois parágrafos até chegarmos à razão da existência deste texto — depois da tal manobra, Gabriel Medina conquistou esta quinta-feira o Quiksilver Pro France e conseguiu, pela primeira vez este ano, vencer uma etapa.

E agora é que vão ser elas. A próxima e penúltima etapa é em Peniche (20 a 31 de outubro), onde Gabriel Medina chegará em quinto do ranking mundial e com hipóteses de saltar para a liderança do circuito. Não dependerá apenas dele e terá de fazer figas para que Adriano de Souza, que derrotou nas meia-finais em França, e Mick Fanning, que tem a mania de ganhar em Portugal (já venceu duas vezes na praia de Supertubos), consigam resultados piores dos que o dele. O australiano lidera o circuito e o brasileiro persegue-o no segundo lugar e ambos têm quase mais nove mil pontos que Medina na classificação.

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Feitas as contas, não será nada fácil para o brasileiro. Caso queria revalidar o título, Medina terá sempre de vencer o Rip Curl Pro em Supertubos e esperar que várias coisas não aconteçam em Peniche:

  • Mick Fanning (1.º) e Adriano de Souza (2.º) não podem chegar à terceira ronda;
  • Owen Wright (3.º) não pode alcançar as meias-finais;
  • caso os dois cenários anteriores se concretizarem, Gabriel Medina até pode chegar à final e perder. Só não pode é ser Julian Wilson (4.) a derrotá-lo.

Se nada disto acontecer terá sempre a última etapa do ano, o Pipeline Masters, no Havai, para se redimir. As probabilidades não jogam a favor de Gabriel Medina mas também não jogavam há uns meses, enquanto o brasileiro não atinou com as ondas. O circuito arrancou com o miúdo (ainda só tem 21 anos) a ficar pela segunda ronda na Gold Coast australiano e a ser o causador de polémica. O heat acabou, saiu da água, foi entrevistado pela WSL, fartou-se de refilar com Glen Hall, o surfista que o venceu e disparou um palavrão feio — ou a f word, como dizem os ingleses. Mesmo pedindo desculpa no dia seguinte, a WSL castigou-o para o ensinar a morder a língua. Depois melhorou com um quinto lugar em Bells Beach, mas despediu-se da Austrália ao perder na primeira ronda em Margaret River, a terceira etapa do circuito. Seguiram-se dois 13.º lugares no Brasil e nas Ilhas Fiji e só em julho começou a atinar.

Medina fez um 5.º lugar em Jeffrey’s Bay, nas mesmas águas sul-africanas onde um tubarão pregou um susto a Mick Fanning. A confiança encheu-lhe o corpo e partiu para um 2.º posto nos tubos gigantes de Teahupo’o, no Tahiti, e um 3.º em Trestles, praia californiana dos EUA. Lá foi galgando degraus na escada do ranking até conseguir a primeira vitória no ano agora nas ondas francesas. Derrotou Bede Durbidge com uma pontuação de 17.50 contra os 9.44 do australiano e atirou a todas as ondas que conseguiu: surfou sete, enquanto Durbidge apanhou quatro. “Senti-me muito bem e tudo correu como queria. Até disse ao meu pai que tinha saudades de ganhar um evento. Estou muito feliz. Tinha feito uma promessa a mim mesmo, queria vencer uma etapa este ano porque há uns meses perdi o meu avô e queria dedicar-lhe uma vitória”, disse o brasileiro, logo após a final, contendo as lágrimas que lhe inundaram os olhos.

Veremos se Gabriel Medina consegue dedicar outra conquista ao avô e fechar a perna europeia do circuito com estilo. Se o fizer, chegará à última etapa, no Havai (de 8 a 20 de dezembro), cheio de hipóteses para revalidar o título. Os melhores surfistas do mundo começam a competir na praia de Supertubos, em Peniche, já na terça-feira, 20 de outubro.