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O realizador e produtor americano, um dos fundadores da Troma Entertainment, esteve na Comic Con do Porto e fez de zombie em Lisboa, para o novo filme de Fernando Alle, “Mutant Blast”. No intervalo de tudo isto, serviu-nos vinho, falou-nos de cinema e garantiu-nos que é mais feliz que Oliver Stone.
Quando combinámos uma hora, Lloyd Kaufman disse que ia estar a “filmar umas coisas de manhã”, que depois ia “almoçar com calma” e que mais tarde então poderíamos “trocar umas ideias”. Era domingo, o homem ia ficar em Lisboa até terça e queria passear. Chegar atrasado seria como levar com uma tempestade no último dia de férias. À hora certa estávamos no sítio combinado. E, também à hora certa, Lloyd e a mulher, Pat, aparecem no mesmo sítio, com um saco de compras em cada mão. “Ah, já cá estás, óptimo”, diz Kaufman, contente com a pontualidade. “Queres subir? Temos vinho.” Vamos a isso. E, já agora, que tal uma ajuda com as compras? “Muito obrigado.” Somos todos amigos e ainda agora nos conhecemos: é a magia do cinema, só pode.

No caso de Lloyd Kaufman, autor único – enquanto realizador e produtor – de brilhantes filmes horríveis para rir, de pedaços de terror para brincar, esta coisa de juntar cinema e amizades acompanha-o desde que descobriu que era isto que ia fazer da vida (ou que na vida era isto que queria fazer, tanto faz). “Quando era estudante universitário estudei em Yale”, recorda, ao mesmo tempo que despeja vinho num copo sem ligar às regras de etiqueta, que é como quem diz chega-cheio. “Tinha um colega de quarto que guardava um monte enorme de exemplares dos Cahiers du Cinéma, aquela revista francesa em que na altura escreviam o Jean-Luc Godard, o Claude Chabrol, pessoas assim, da nouvelle vague.” E o que Kaufman descobriu com essas leituras foi a possibilidade de fazer as coisas à sua maneira, a ideia de que o autor pode ter controlo total sobre a sua obra. Já agora, o que é feito desse amigo de Yale? “Vi-o há pouco tempo. É um dos grandes chefes da NBC, um tipo importante. Mas não deve ser mais feliz que eu.”

Claro que não é. E concentremo-nos apenas nas últimas semanas: Lloyd esteve em Portugal para participar na Comic Con, no Porto. Depois, “foi sempre a descer”: “Passámos por Coimbra e por uma terra com um castelo… Óbidos, isso”. Depois, ficou uns dias em Lisboa, a acertar detalhes de Mutant Blast, filme que o português Fernando Alle está a realizar e que vai ser a primeira longa-metragem nacional de “terror louco” (Alle já tinha trabalhado com Kaufman na curta Banana Motherfucker, de 2011). E, no meio de tudo isto, esteve com os fãs, que é o que mais gosta de fazer (logo a seguir aos filmes). “Temos fãs muito dedicados. Um deles é o Filipe Melo, esse vosso artista incrível que faz música, cinema, BD e mais ainda. Foi ele que nos emprestou esta casa. Se eu fosse o presidente da Sony ou da Paramount, eles teriam de pagar por um hotel de luxo. A Troma tem orçamentos muito pequenos mas os fãs tratam de nós. E nós agradecemos.”

O zombie do Príncipe Real

A Troma é a produtora criada por Kaufman, em conjunto com Michael Herz, em 1974. A mais antiga e resistente das independentes em actividade neste negócio. Baixos orçamentos e filmes que seguem os princípios do rótulo “série B”: nudez, seres de outros planetas, sangue, carne em decomposição e um desapego generalizado pelas regras da boa educação. E porquê? Ora bem, porque sim, porque pode e é ele que manda, nada melhor. “Sempre tive um sentido de humor negro e a sátira é o que mais me move”, conta Lloyd. “Mas o que fazemos, desde sempre e mais que tudo o resto, é humor. Temos gore e sexo, mas a comédia sempre foi o mais importante. E isso torna tudo mais difícil porque o que é divertido nos Estados Unidos pode não ser divertido em Portugal.”

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[Veja nesta fotogaleria os cartazes de alguns dos sucessos da Troma]

10 fotos

Sobre Mutant Blast, Lloyd adianta pouco, mas é fácil perceber que a história envolve monstros e destruição, provavelmente em jeito de conto apocalíptico. Esta sortuda conversa sobre filmes pelo meio de copos (elegantes) aconteceu à tarde, depois de rodadas umas curtas cenas em que o próprio Kaufman é protagonista (um hábito que o realizador/produtor sempre teve). No filme de Alle, o americano vai ser um zombie. Para isso, foi preciso ser caracterizado como mandam as regras. Levantou-se da cama eram umas cinco da manhã. Tomou um café numa pastelaria da zona do Príncipe Real e rapidamente percebeu porque é que estava cheia: “Eram umas seis e pouco e aquilo estava com todas as mesas ocupadas. Só gente nova, que ainda não tinha ido à cama. Lisboa afinal é como Nova Iorque, não dorme. Só que tem mais altos e baixos e as casas são mais antigas.” Sim, é mais ou menos isso.

Ainda sobre os zombies, Kaufman vai estar no filme de Fernando Alle como um desses mortos-vivos, sim, “mas de óculos escuros”. Na manhã que antecipou o nosso encontro, fez muitos “sons de zombie” e isso cansou-o. Está no sofá como qualquer outro preguiçoso que se prepara para ali passar o resto do dia. E atenção que o artista sabe há muito que interpretar um ser de outro mundo é coisa trabalhosa. “Já fiz filmes com galinhas índias zombies, o Poultrygeist”, diz, orgulhoso, recordando a produção sobre aviários apocalípticos de 2006.

O modelo ainda é o mesmo: Toxic Avenger, de 1984. Continua a ser a grande referência entre todas as produções da Troma. É a história de Melvin, um tipo responsável pela limpeza de um ginásio, gozado por quase toda a raça humana, que depois de cair no meio de resíduos nucleares se transforma num mutante com super-força, disposto a vingar-se de uns certos bullies e castigar malfeitores. A caminho de completar essa missão, assina uns quantos homicídios sem qualquer vestígio de elegância e faz umas pausas para sexo sem sentimentos. Enquanto relembra que “há uns petiscos aí em cima da mesa”, Lloyd está sempre acompanhado por uma máscara de Toxie, o herói dessa fita com mais de 30 anos. O realizador-produtor-actor-e-mais-ainda sabe que é esse vingador desfigurado que lhe dá fama, a relativa popularidade que lhe permite manter a Troma e fazer o que quer, como quer.

[O trailer de Toxic Avenger]

https://www.youtube.com/watch?v=6rLEIpP8His

O que faria Loyd se fosse convidado para gerir um grande estúdio ou uma companhia de media multinacional, com todo o dinheiro que isso implica e mantendo a autonomia criativa que tanto preza. Sim, nesse caso o que faria? “Aceitava.” Então e depois? “Depois, faria de certeza um trabalho melhor do que o administrador da Sony, por exemplo.” Atitude, senhoras e senhores, atitude. “Pegava num milhão de dólares e em vez de fazer um filme estúpido fazia cem filmes estúpidos pelo mesmo preço. Dava a duzentas pessoas 5 mil euros. Se calhar conseguia um número maior de bons filmes, de filmes para o futuro, mais do que temos agora com o sistema de blockbusters.”

Isso é tudo muito bonito, mas por estes dias interessa saber apenas uma coisa: e o novo Star Wars, vai ver? “Talvez vá mas não compreendo o fenómeno. Por outro lado, gosto muito do J.J. Abrams. A Troma tem um filme chamado Night Beast com música dele. Mas não consigo perceber o que é que Star Wars tem de tão especial. Acho que as pessoas que gostam de jogos de vídeo vão gostar do filme mas eu não jogo.” Certo, mas sejamos verdadeiros: há qualquer coisa de mainstream nesse coração de Kaufman, certo? “Devo dizer que um dos meus filmes favoritos deste ano é um desses blockbusters, que custou cem milhões de dólares. O Guardiões da Galáxia, escrito e realizado por James Gunn, que escreveu um outro filme que tive o prazer de realizar, Tromeo and Juliet. É um dos grandes discípulos da Troma Entertainment, como o Matt Stone, o Trey Parker [os criadores de South Park] ou Eli Roth.”

“Incomodei as pessoas e gostei”

Já que estamos numa de nomes e de números, Pat Swinney Kaufman – está no mesmo sofá de Lloyd e fica-lhes bem até o ar que partilham, fora tudo o resto – recorda que Return to Nuke’em High Vol 1, de 2013, foi feito “com uma companhia grande, a Stars Entertainment, que é parte da Liberty, um grupo enorme”. Cá está, contas são contas. “E foram eles que desafiaram o Lloyd para isto, deram-lhe o dinheiro e total liberdade criativa. E esse filme teve estreia em Nova Iorque no MoMA, que o escolheu como um dos obrigatórios do ano, ao lado de Lobo de Wall Street, Blue Jasmine ou Inside Llewyn Davies”, acrescenta Pat, que até há pouco tempo dirigia a Comissão de Cinema do estado de Nova Iorque.

Fica registado que isto, obviamente, em nada mancha o currículo feito de independência e arrojo de Lloyd Kaufman. Um caminho que esteve para não acontecer várias vezes. Já aqui se lembrou como o cinema apareceu por acaso na vida do universitário de Yale. E, na mesma altura em que lia os Cahiers du Cinema, o então estudante de línguas chinesas ficava fascinado com o filme Ser ou não Ser, de Ernst Lubitsch (1942): “Completamente louco mas muito disciplinado. Carole Lombard e Jack Benny, incríveis. Foi aí que decidi tudo.” Foi mesmo, Lloyd não está a brincar. Até porque em miúdo era o teatro que batia forte lá em casa, sobretudo os musicais da Broadway. Culpa da mãe Kaufman, que trabalhava nos palcos e olhava para o cinema bem lá de cima. Foi preciso chegar a Yale, deixar a vida acontecer e, como extra, descobrir a BD.

“Isso e uma viagem ao Chade”, complementa Pat. “O Lloyd esteve lá um ano a dar aulas e levou uma câmara Bolex. Filmou, acima de tudo, duas coisas: gente nua e as tradicionais matanças de porcos. Quando voltou juntou tudo num filme.” Lloyd acena com a cabeça, ri-se e recorda o essencial: “Incomodei as pessoas e gostei.” Até hoje — e é coisa para continuar. “Fui colega do Oliver Stone, fui eu que o trouxe para os filmes, quando comecei, em Yale, ele estava lá a escrever, pensava que ia ser o novo James Joyce. Crescemos juntos, desde os 8 anos, os nossos pais eram amigos, e acabámos na mesma universidade. Ele depois seguiu um caminho diferente no cinema mas eu sou um tipo mais feliz.”

O final da conversa é uma comédia romântica como qualquer outra. Lloyd e Pat, casados desde 1974, passaram nesse mesmo ano, em Agosto, por Portugal, quando estavam em lua de mel. “Dormimos na praia, comemos sopa de peixe na Nazaré. Foi o nosso Verão do Amor. E de alguma maneira também foi o vosso, não foi? Se calhar tudo isto dava um filme.”

[Veja aqui um excerto da conversa do Observador com Lloyd Kaufman]

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