O quadro é do início do século XVI e pertence a Gerard David, pintor do Utreque cuja vida está coberta por mistério. É uma “característica representação neerlandesa” do nascimento de Jesus, descreve o Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque.

Característica porquê? Por nela se mostrar uma das narrativas fundamentais da fé cristã: além do nascimento do filho de Deus, óbvio e patente, o quadro remete já para a temática da morte de Jesus. É isso que explica os rostos fechados de todas as personagens, como veremos adiante.

“The Nativity with Donors and Saints Jerome and Leonard”, assim se chama o tríptico, terá sido criado entre 1510 e 1515. É posterior à chegada de Gerard David a Bruges, por volta de 1484, o que representou uma nova fase em termos de apuramento da técnica do artista.

O quadro entrou no “Met” em meados da década de 1940, vindo da coleção do banqueiro americano Jules Semon Bache, que a tinha comprado em 1928 por cerca de 365 mil euros, e foi exposto pela primeira vez naquele museu em 1943.

A vida de Gerard David é uma incógnita e só em fins do século XIX começou a ser desvendada, muito por conta da investigação dos historiador britânico James Weale.

Nascido por volta de 1455 em Oudewater, na província neerlandesa do Utreque, Gerard David é um pintor de transição, interessado em inovar os modelos medievais, sobretudo no que à paisagem diz respeito, lê-se no site do “Met”. É neste museu que se encontra hoje a maioria das suas obras.

1. Rostos fechados
No painel lateral esquerdo, aparece São Jerónimo a resguardar um doador que alguns estudiosos admitem estar personificado em Santo Antão. No painel central, destacam-se a Virgem Maria, São José e os anjos, além do Menino Jesus. E no painel da direita vemos São Leonardo e uma doadora incógnita, possivelmente Santa Catarina. Repare-se nos rostos, reservados ou mesmo fúnebres. Não deveriam, perante o nascimento do filho de Deus, irradiar alegria? Sim, se esta pintura representasse apenas a natividade. “As figuras ostentam expressões sombrias, antecipando o sofrimento e sacrifício de Cristo”, lê-se na descrição feita pelo Metropolitan Museum of Art. Temos, pois, um tríptico cuja mensagem literal está no tempo presente, enquanto a mensagem implícita é de um tempo futuro.

2. Cereais junto à manjedoura
Como fica dito, os elementos desta composição são anacrónicos entre si. E o molho de espigas, aparentemente de trigo, é disso um bom exemplo. Encontra-se paralelo à manjedoura. A descrição do “Met” indica que os cereais remetem para um versículo do Novo Testamento, simbolizando desde logo a mensagem que Cristo irá deixar: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem come deste pão viverá para sempre.”

3. Paisagem e peregrinação
Uma das inovações que se atribuem com frequência a Gerard David é a maneira de representar a paisagem, fazendo-a tema principal das pinturas, com zelo e profusão de pormenores, no que terá sido precursor do paisagismo holandês da segunda metade do século XVI. Nesta pintura, temos o animismo do céu (com anjos em nuvens, ao centro) e um mundo rural de montanhas, florestas, rebanhos e pastores. “Naquela época, a peregrinação era uma forma arreigada de culto, quer no sentido de deslocação física, quer no de viagem mental e individual”, escreve Laurel Eddleman, num ensaio publicado pela Universidade do Arkansas. O pintor “capitalizou bem a ideia de peregrinação ao usar a paisagem pura como símbolo de viagem espiritual”, acrescenta a autora.

4. O tamanho das figuras
Gerard David terá dedicado atenção à paisagem sob clara influência do célebre pintor Jan van Eyck. Ao mesmo tempo, exibe neste tríptico um toque de Renascimento italiano, por via da monumentalidade das figuras humanas, escreve Laurel Eddleman. Os doadores, ou seja, as figuras ajoelhadas nos dois painéis laterais, estão em primeiro plano, sendo um pouco maiores do que os santos que as acompanham – maiores, até, que José e Maria. Ainda assim, o olhar de todas elas conflui para o centro, ou seja, o menino Jesus, como se o pintor quisesse dizer que a atenção a Deus é mais importante que qualquer outro aspeto. Os animais rendem-se igualmente ao messias: aos pés do que se pensa ser Santo Antão está um seu símbolo, o porco, enquanto uma vaca e um burro velam o menino.

Título: “The Nativity with Donors and Saints Jerome and Leonard”
Autor: Gerard David (cerca de 1455-1523)
Data: cerca de 1510-15
Técnica: Óleo sobre tela
Dimensões (cm): 90,2 × 71,1 (painel central) e 90,2 × 31,4 (painéis laterais)
Coleção: The Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque