Dog Mendonça é o maior herói português. Enfrentou abandonos familiares, campos de concentração, nevões e outras desgraças meteorológicas. E depois de ultrapassar tudo isto ainda assumiu o difícil papel de manter longe da humanidade tudo o que é diabos, monstros e uma generalidade de seres do outro mundo que têm o hábito aborrecido de atacar, destruir e conjugar outros verbos do mesmo género. Já agora, acrescentemos um detalhe: Dog Mendonça — que na verdade se chama João Vicente — é um lobisomem. Mas isso é uma vantagem e não o impede de ter um escritório à maneira de um normal detetive privado, em conjunto com PizzaBoy, fiel estagiário na luta contra a malvadez, mais o sócio Pazuul.

As aventuras de Dog Mendonça (e de PizzaBoy, claro) foram contadas em três livros de banda desenhada, por Filipe Melo, Juan Cavia e Santiago Villa, outros tantos tipos a quem agradecemos por nos terem revelado gente tão nobre. Depois de um trio (este número não nos larga) de publicações em que as loucuras desta gente levaram prefixos como “incríveis”, “extraordinárias” e “fantásticas”, nada melhor do que um quarto e derradeiro capítulo, com os “contos inéditos” — especial atenção à passagem destes destemidos por terras americanas.

Falámos com João “Dog” Vicente por email, sobre o passado, o futuro e Bud Spencer. De onde veio, para onde vai e o que o Clube Desportivo Tondelense pode (ou não) vir a alcançar. Dog é curto nas respostas mas decidido na atitude. E, no fundo, é isso que importa:

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Olá Dog. Já agora, posso tratá-lo por Dog ou devo usar o seu nome próprio, João Vicente?

Até podes chamar-me “papá”, se quiseres.

Ainda a propósito de nomes, porque é que trata o Eurico, o seu estagiário, por PizzaBoy? Ele era distribuidor de pizzas, mas…

A questão aqui é porque é que insistem em tratar o Pizzaboy por Eurico! (risos) Agora a sério — durante uns tempos valentes não me lembrava mesmo do nome do rapaz. Tinha “Pizzaboy” escrito no casaco. Dava imenso jeito. E é assim, meu caro, que surgem as alcunhas.

Para quem não o conhece, pode explicar quem é e o que faz?

Agora que a coisa finalmente se tornou mais ou menos pública, posso dizer com orgulho que durante vários anos servi de mediador entre o mundo dos humanos e o mundo dos… bem, não-humanos, à falta de um termo melhor.

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João “Dog Mendonça” Vicente

Nunca teve medo, nessas lutas contra monstros e demónios?

Amigo, a única vez que tive medo na vida foi quando percebi que o Clube Desportivo Tondelense podia voltar à segunda divisão.

É um lobisomem. Que vantagens é que isso tem?

Ser lobisomem é uma maldição. Faz tanto sentido como perguntar: “Que vantagens é que tem sofrer de hemorróidas?” ou “Que vantagens é que tem viver em Estarreja?”

Pessoas importantes como John Landis, George A. Romero, Tobe Hooper ou Lloyd Kaufman gostam muito das suas aventuras. Porque será?

Não sei quem são esses senhores, mas agradeço-lhes e espero que venham a Lisboa para lhes poder agradecer pessoalmente.

Gosta de ser uma personagem de BD ou gostava mais de ser uma pessoa de carne e osso? Quero dizer, sabe que é uma personagem de BD, certo?

Já não é a primeira vez que me perguntam isso, e respondo-lhe o mesmo: ninguém me garante que não é ao contrário e que eu sou um tipo de carne e osso e o amigo é que é um boneco. Ahn? Dá que pensar, não dá?

Quando não está a combater as forças do mal o que é que gosta de fazer?

Comer e dormir. E tenho imensa pena de não conseguir fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

Ao nível de heróis que combatem seres maléficos, quais são os seus favoritos, quem é que o influencia?

Olhe, não é uma pergunta fácil. Assim à partida diria que o Bud Spencer e aquele outro que andava sempre com ele, o Trinitá. Passo tardes a ver essas fitas com o meu sócio no escritório, e nunca ficam velhas. Aquilo é que eram heróis a sério. Corriam com os seres maléficos todos à chapada.

Não acha que já levavam as suas histórias para o cinema?

Levem-nas para onde quiserem, mas mandem-me o cheque, que tenho um esquentador para arranjar.

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Eurico, aka PizzaBoy

Já que é um herói da BD, pergunto-lhe: gosta de BD? E gosta mais de super heróis ou de histórias mais profundas?

Agradeço as suas palavras, caro Tiago. Repare — nunca me considerei um herói. Sou um tipo que gosta de pessoas e, sempre que percebo que há alguém que está contra elas, vejo-me obrigado a intervir. Isso é um herói? Talvez. É tão simples como isso. Qual era a pergunta?

Esteve pelos EUA numa espécie de digressão. Era tipo para se mudar para lá?

Às vezes comento com o Pazuul (o meu sócio) que não me importava de ir a Las Vegas. Mas mudar-me para lá? E o caldo verde? E o sumol de ananás? Deus me livre. Estou aqui e estou muitíssimo bem.

Haverá mais livros com as suas aventuras? Ou acha que já chega?

Sabe, se o amigo tivesse lido os livros em vez de estar para aí a conjeturar, teria percebido que eu me reformei. Se quisesse fazer mais livros, já estavam feitos e estava a falar deles em vez de estar para aqui com este interrogatório.