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Irmãos? Ninguém diria. Porque é que há filhos tão diferentes

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Um é reservado, o outro irrequieto. Um foge com medo, o outro atira-se aos leões. Afinal, o que faz com que dois ou mais irmãos sejam tão diferentes? Duas psicólogas e dois pais (babados) respondem.

A ordem de nascimento das crianças é uma das teorias mais apontadas, ainda que exista pouco consenso sobre a tese.

Andreia Reisinho Costa

Em casa de Inês Teotónio Pereira vivem seis crianças, seres de palmo e meio com idades compreendidas entre os 15 e os três anos. O leque de idades dos filhos da ex-deputada do CDS/PP é bastante variado, tal como as suas personalidades. “Eles são muito diferentes, não há um que seja mais ou menos parecido com o outro”, conta a também ex-jornalista ao Observador. Se o mais velho não tem problemas em acatar ordens, o terceiro não consegue estar sossegado e o quinto é uma verdadeira paz de alma, paciente, fácil e exímio no relacionamento com os outros. São todos irmãos, vivem debaixo do mesmo teto e são filhos dos mesmos pais, mas isso não impede que tenham feitos completamente distintos.

“Dois irmãos podem ser tão diferentes quanto dois indivíduos sem qualquer laço familiar”, atira Cristina Valente, formada pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA) e autora do livro Coaching Para Pais – Estratégias e ferramentas práticas para educar os nossos filhos. Em causa parece estar, sobretudo, o temperamento que, segundo a própria, vem desde nascença: é a forma como se educa uma criança que pode aumentar ou atenuar determinados traços do temperamento, o que ajuda a justificar que dois irmãos sejam particularmente diferentes um do outro.

“Pode ser a diferença de idades, de género ou o tratamento preferencial dos pais, há todo um conjunto de fatores que vai moldar a personalidade”, acrescenta a psicóloga e autora do livro O Filho Preferido Fátima Almeida, referindo-se ainda ao tradicional grupo de pares como um elemento igualmente influenciador. “Não interpretamos as experiências da mesma forma e cada criança vê o mundo à sua maneira”, continua. E se Fátima Almeida fala em personalidade, Cristina Valente refere-se a temperamento, muito embora ambas argumentem em favor de uma mesma ideia.

Uma coisa é certa: enquanto o filho mais velho da ex-deputada que também é blogger conta uma história a partir de um palito, o que nasceu imediatamente a seguir nem um nome consegue dar ao peluche de estimação. Muito embora o primeiro tenha uma capacidade de abstração muito grande, o segundo é melhor aluno na escola. E a única menina da família? “Tem uma natureza diferente e uma dualidade incrível: quer imitar os irmãos mas é muito feminina; tem uma voz esganiçada e anda de bola na mão na praça”, conta a mãe entre risos.

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Tatyana Tomsickova/iStock

O que é isso da ordem de nascimento?

Os filhos do escritor Afonso Cruz também são muito diferentes um do outro, palavra de pai. A julgar pela aparência dos dois rapazes com seis e nove anos — um é loiro e outro moreno — quase que se podia dizer que um é filho do padeiro. Feita a piada, é de personalidade que o escritor quer falar: “Desde muito novos que têm comportamentos diferentes. O mais novo é muito afoito, atira-se às coisas e não pensa muito nas consequências. O outro reflete mais, é mais contido e passa mais tempo em casa.” Exemplo disso é a ida ao parque. Se o primeiro passa o tempo todo a observar de longe as outras crianças — diz o pai que tem medo de miúdos mais altos do que ele e que, quando finalmente ganha coragem, está na hora de regressar a casa –, o segundo não perde tempo a lançar-se à brincadeira e a socializar. E se algum rapagão se mete com ele, a resposta é (ainda em mau português): “Tu não empurras eu”.

Mais do a que personalidade (ou temperamento, o que remete, segundo Valente, para a eterna discussão sobre o que é inato e o que é adquirido), em debate está também a ordem de nascimento, no sentido em que há quem defenda que esta é capaz de influenciar alguns traços de personalidade nas crianças.

Mas nem todos pensam de igual forma. “Em Portugal não há grandes estudos sobre a ordem de nascimento. Os psicólogos consideram-no um tema sensível, que pode induzir em erro. É um tema bastante estudado e valorizado nos Estados Unidos da América, cá não tanto”, tenta esclarecer Fátima Almeida. Prova de que é sensível (e debatível) é um estudo recente, publicado num blogue do The New York Times em outubro de 2015, que mostrou não existir uma associação entre a ordem de nascença e as características de personalidade, embora haja outros que apontem precisamente o contrário. “[A teoria] diz que uma determinada ordem de nascimento [se é o primeiro, segundo ou o terceiro filho, por exemplo] tem implicações a nível da personalidade e não é tão linear quanto isso porque temos experiências que vão influenciar a nossa personalidade. Não é o facto de sermos o primeiro ou o segundo filho que diz em que pessoas nos vamos tornar”, continua Almeida.

De acordo com a tese em questão — amplamente associada ao psicólogo austríaco Alfred Adler (1870-1937) — quem nasce primeiro acaba por ser mais responsável, apto a cumprir as expectativas dos pais, enquanto o que vem a seguir tende a ser mais rebelde. “Se o irmão mais velho for arrumado, o segundo vai ser desarrumado porque vai agir por oposição ao primeiro. E se o terceiro for o último, acaba por ser mais mimado, o centro das atenções”, diz Valente. Quanto aos filhos do meio — os chamados filhos sanduíche –, têm muitas vezes um sentido de justiça muito apurado e são mais solidários. “Se os pais acreditarem nisto e tratarem os filhos de forma diferente, então os filhos podem, de facto, exibir essas características tendo em conta o tratamento preferencial”, especula ainda Fátima Almeida.

“O importante na ordem de nascimento é falarmos da necessidade de criar famílias cooperativas versus competitivas”, adianta Valente, reforçando que no último caso o registo “eu vs. tu” ou “irmão vs. irmão” é dominante, onde há sempre um vencedor e um vencido. Já na dinâmica cooperativa, a família é tida como uma equipa, no sentido em que todos ganham e ninguém perde.

Como se educa a diferença?

Tendo em conta as diferenças entre irmãos, coloca-se a seguinte pergunta: devem os pais educá-los da mesma forma ou ser sensíveis às suas diferenças? “Há filhos mais conformados do que outros, pelo que as exigências para com os mais inconformados são mais flexíveis”, explica Inês Teotónio Pereira, a mãe de seis. “Isto é uma coisa difícil de eles perceberem. Às vezes acham que estão a ser injustiçados, outras vezes que estão a ser privilegiados. Mas se são diferentes temos de os tratar de forma diferente.” Não obstante, admite que é muito difícil arranjar regras para todos ou não tivesse a ex-deputada meia dúzia de crianças a correr pelos cantos da casa. O mais complicado de negociar é, sem tirar nem pôr, a hora de ir para a cama. “Tenho grandes discussões… O terceiro está sempre a sentir-se injustiçado. É mesmo uma gestão diária.”

Cristina Valente concorda com Inês Teotónio Pereira no sentido em que os pais devem equacionar as características únicas dos filhos: “As crianças são todas diferentes e temos de respeitar a sua individualidade.” O facto de dois irmãos (ou irmãs) terem idades diferentes também significa que tenham capacidades, direitos e deveres díspares. “Acho completamente descabida a ideia de comprar dois casacos só porque um dos filhos precisa. Ainda mais descabido que os amigos tenham de trazer presentes para todos os irmãos só porque um menino faz anos”, diz em tom acusador, enunciando o que parecem ser “modas” vigentes entre pais e filhos. E continua: “Se eu entrar no jogo de comprar o casaco para todos, eles vão assumir isso como um ato de amor e podem, assim, tornar-se mais materialistas.”

Afonso Cruz junta-se ao coro de vozes para argumentar a favor da mesma ideia. O importante, assegura, é passar os valores e os princípios básicos associados a uma boa educação, ainda que possam variar um pouco na forma de aplicar. O resto é uma questão de adaptação: “Eles portam-se de maneira diferente e nós também adaptamos um pouco.” O escritor fala ainda da figura paternal enquanto um moderador cuja responsabilidade passa por potencializar virtudes inatas e atenuar defeitos também eles associados ao temperamentos dos mais pequenos.

Uma questão de rivalidade

Mais do que a educação, Cristina Valente considera que o lugar que a criança sente que ocupa na família determina a sua personalidade (aqui tida como o resultado das várias influências e não como algo inato). E explica porquê: “O filho mais velho chega a uma família sem rivais, com direito a um lugar especial. Já o segundo filho vai fazer de tudo, mesmo que de forma inconsciente, para ter o mesmo protagonismo.” Uma maneira de o fazer passa por agir de forma oposta à do irmão mais velho ou desenvolvendo traços de personalidade que o primeiro não apresenta. “O objetivo de qualquer criança é ter um lugar de destaque no grupo em que se integra, neste caso na família.”

Ignorantes dessa realidade, os pais tentam criar uma competição entre irmãos que em vez de os tornar mais parecidos, deixam-nos mais diferentes. “Como assim?”, poderá perguntar o leitor. Em cima da mesa estão situações como, por exemplo, a comparação entre irmãos ou o ato de tomar partido em determinados conflitos. “A não ser que seja algo que envolva riscos para a saúde, na maior parte das vezes os pais não devem interferir na rivalidade entre irmãos. Os irmãos têm sempre ciúmes, mesmo que não o manifestem, e as crianças não conseguem perceber que o amor é infinito”, afirma Valente.

A psicóloga assegura que é natural e saudável existir uma dose de conflito de maneira a que os mais novos sejam capazes de desenvolver competências de negociação. “Isso é tão mais saudável quanto menos os pais interferirem.” A ideia a ter em conta será, então, deixar as crianças resolverem-se sozinhas. “Os miúdos são naturalmente amáveis, pouco conflituosos. Só deixam de ser assim quando há a presença de um adulto porque procuram atenção, procuram o favoritismo.”

Irmãos diferentes, filhos preferidos?

A psicóloga Fátima Almeida já antes disse ao Observador que, quando há um filho com o qual os pais se identificam mais, pode existir a perceção de que este é preferido em detrimento do irmão:

[O] que podemos concluir, quer pela partilha de experiências quer pela opinião de outros peritos, é que existe um filho com quem os pais se identificam mais. Isso pode não ser um favoritismo na própria aceção da palavra, mas é capaz de transmitir a ideia, principalmente aos filhos, de que um deles é o preferido.”

A ideia é corroborada por Cristina Valente, que assegura que não existe mal em uma mãe dar-se melhor com um filho do que com o outro. Nessas situações, há uma ideia importante a reter: pais, não precisam de se sentir culpados, uma vez que a compatibilidade de temperamentos (ou a falta dela) entre miúdos e graúdos não interfere com a capacidade de amar. “Há filhos favoritos, mas isso não quer dizer que gostemos mais deles do que dos outros. É antes — e de uma forma genérica — uma questão de temperamentos compatíveis.”

Independentemente da interpretação de quem opina, este não deixa de ser um tema tabu e com raízes fundas no que à diferença de irmãos diz respeito. “É tabu porque o facto de os próprios pais admitirem que têm um filho preferido pode levar a algumas questões sensíveis, ao julgamento da sociedade e da própria família. Claro que há pais que admitem ter um filho preferido, como outros que respondem que tal é impossível, que não se pode amar mais um do que o outro. O certo é que há sempre um desconforto em falar sobre isso”, conclui Fátima Almeida.

Na via das dúvidas, o melhor é estimar as crianças pelas suas diferenças e ir convencendo quem precisa de ser convencido de que são mesmo irmãos (ou irmãs).

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