A noite passada foi generosa no parque da Bela Vista. A Lua cheia e a temperatura amena acolheram as 74 mil pessoas que, esta sexta-feira, compareceram no Rock In Rio Lisboa. Os Queen + Adam Lambert foram os cabeça de cartaz desta segunda noite, mais um tributo ao rock das multidões. A fasquia estava nos píncaros, depois de uma primeira noite estrondosa à conta de Bruce Springsteen.

Comparar o “Boss” com os britânicos Queen faz pouco ou nenhum sentido, a não ser talvez na capacidade que ambos têm de movimentar os milhares de fãs que têm na memória as canções do antigamente. Outra diferença óbvia está na estrutura atual de cada um: Bruce é o artista que sempre foi, os Queen são hoje metade do que já foram.

A banda inglesa criada no início da década de 1970 por Brian May, Roger Taylor, John Deacon e Freddie Mercury consta da lista das mais importantes e influentes da história da música contemporânea, uma carreira extraordinária que teve como figura central o vocalista, que nos deixou em 1991. Freddie Mercury foi um artista ímpar, não apenas no estilo e na atitude, mas sobretudo na voz. Daí que uma digressão dos Queen na era pós-Freddie Mercury nunca tenha sido encarada com bons olhos pelos mais puristas, quer com Paul Rogers quer, atualmente, com Adam Lambert.

Esta noite, na primeira vez em que se dirigiu ao público, Adam fez questão de dizer ao que vinha: “Estamos aqui para homenagear o Freddie.” Temos de reconhecer que o papel dele não é fácil, na medida em que se apresenta com o propósito de emprestar a voz a grandes canções outrora cantadas por outro, e que outro. É quase inglório, mas sobretudo injusto, esperar o mesmo ou semelhante.

Mas o público português sabia ao que ia e pareceu não se importar com esta nova “versão” da banda inglesa, cuja formação original está agora reduzida ao guitarrista Brian May e ao baterista Roger Taylor. Foram dezenas de milhares de fãs que recordaram na noite passada alguns dos grandes êxitos dos Queen. Ouvimos muitas pessoas comentar as diferenças (com Freddie Mercury) mas ao mesmo tempo que o faziam pulavam, cantavam e choravam. As memórias têm a capacidade de atraiçoar a razão, são um gatilho poderoso de sensações e sentimentos.

O espetáculo dos Queen com Adam Lambert só faz sentido com elevadas doses de purpurinas. E assim foi, ao longo de duas horas, que acompanhamos em direto no nosso liveblog — vale mesmo a pena ler as entradas relativas a este espetáculo, de tão diferentes que são as nuances e perspetivas dos elementos da nossa equipa.

Adam Lambert não enganou ninguém. Esclareceu ao que ia, também já tinha avisado que ia ser uma noite “glam” e assim foi, na atitude e na encenação. Trocou de roupa cinco vezes, soube entrar e sair, dando espaço e protagonismo à alma que resta da banda britânica.

Brian May não enferrujou os dedos nem Roger Taylor os braços, o que ficou devidamente ilustrado em dois momentos especiais. Primeiro, quando o Taylor fez subir à frente do palco uma segunda bateria para entrar em despique com outro baterista, nada mais nada menos que o seu filho Rufus Tiger Taylor. Foi outro daqueles momentos com sabor a “passagem de testemunho” — a outra é transversal a todo o espetáculo e está inscrita na presença e performance do jovem Adam Lambert. A herança dos Queen, verdade seja dita, atravessa gerações. O outro momento aconteceu quando Brian May foi elevado por uma plataforma hidráulica que o colocou no centro do cenário do palco. É esse o lugar das guitarras no rock.

É verdade que Adam canta bem, mas tudo tem limites. Em “Bohemian Rhapsody”, Freddie Mercury apareceu ao fãs (nos ecrãs e no poderoso sistema de som), porque esta canção não é para todas as vozes. Foi um bom tributo, mas também mais um detalhe que sublinha as diferenças: fosse o cenário e o enredo “glam” menos espetaculares, teria parecido que estávamos a assistir à atuação de uma (boa) banda de covers. Não há volta a dar: Freddie Mercury é insubstituível e esse espinho marcará sempre qualquer atuação dos Queen, por muito que a intenção seja a do tributo. Pelo menos enquanto a memória durar.

Mika

Mika entrou no Palco Mundo sob uma chuva de palmas e a falar português (perfeito) para o espanto de todos. “Boa noite, Lisboa”, disse. “Este é o meu primeiro festival de verão.” À frase, seguiu-se uma espécie de oração em nome de todas as big girls, em jeito de introdução à música que aí vinha. “Obrigada, Senhor. Amén”, terminou benzendo-se, antes de soarem os primeiros acordes de “Big Girl”. À sua frente, estava um mar de gente, o Rock In Rio estava a rebentar pelas costuras — a organização anunciou 74 mil entradas até à meia-noite, mais sete mil que no primeiro dia.

Sempre comunicativo, com um sorriso de orelha a orelha, o artista britânico de origem libanesa contou que quando estava no camarim ouviu toda a gente a cantar. “Estás preparada para cantar, Lisboa?”, perguntou. Lisboa estava, e ninguém ficou envergonhado no momento de cantar o verso “big girl you are beautiful”. No ecrã gigante, as imagens eram coloridas como a música de Mika.

Imparável, o artista cantou, dançou e saltou. A seguir a “Big Girl”, sentou-se ao piano para “Grace Kelly”, um êxito já antigo que ainda não saiu da cabeça de ninguém. Em noite de Queen, nunca o verso “so I try a little Freddie” fez tanto sentido. Depois de “Relax”, continuou ao piano para “Underwater”, um dos momentos mais bonitos da noite. Depois de pedir um telemóvel emprestado a uma fã, o cantor pediu para que toda a gente segurasse os smartphones no ar com as lanternas ligadas. “Já não são pessoas, agora são um milhão de estrelas”, disse, enquanto os telemóveis brilhavam na noite.

E quando se pensava que o concerto não podia ficar melhor, Mika anunciou que ia cantar uma música que nunca tinha interpretado num festival — “Over My Shoulder”, um tema que compôs quando tinha 16 anos e que tinha cantado na noite anterior, numa casa de fados em Lisboa. “Não canto fado, mas gosto de fado”, disse, antes de anunciar a entrada em palco dos mesmos músicos que o tinham acompanhado na noite anterior.

“Escrevi isto quando tinha 16 anos e nunca pensei que um dia estaria em cima de um palco em Lisboa, com estes dois músicos, a cantar isto”, acrescentou. A meio da música, as guitarras aceleraram inesperadamente. E Mika, que não sabia cantar fado, cantou — “meu fado, meu fado, meu fado”. Seguiu-se “Rain” e, depois, “Elle me dit”. “Sabes falar francês, Lisboa?”, perguntou. “Não faz mal, se eu consigo cantar fado vocês também conseguem falar francês.”

Em “Gold”, levou o público ao rubro. Principalmente quando, perto do final da música, arrastou Mariza, que estava a assistir ao concerto no backstage, para o palco. “Preciso de uma tradutora”, disse. “O que é que queres que eu traduza?”, perguntou-lhe a fadista, explicando ao público que, depois de Mika contar até três, toda gente deveria saltar e bater palmas. Fiéis, os espectadores não faltaram ao compromisso. E o Parque da Bela Vista tremeu.

Depois de “Love Today”, Mika despediu-se. Uma despedida agridoce, porque tanto ele como os fãs queriam mais. Mas estava quase na hora dos Queen e não havia tempo nem para mais uma música de encore. “Lisboa, obrigado!” Obrigado nós, Mika.

Fergie

Ao início da noite, Fergie bastou-se a ela própria. Antes vocalista dos Black Eyed Peas, Fergie provou que não precisa da banda para brilhar. Ela puxou pelo corpo e pela voz e mostrou que é mais do que a miúda sensual com um pouco de talento para a música. Foi um verdadeiro espetáculo pop. À terceira música já Fergie cantava “Fergalicious” e assim esgotava um dos seus maiores trunfos. Mas muitos mais vieram.

“Sinto-me tão abençoada por estar de volta. Obrigada por terem vindo ver-me”, grita Fergie para o público, enquanto solta lágrimas de felicidade. Esta não é a primeira vez da artista de 41 anos em Portugal — veio com os Black Eyed Peas em 2004, ano do primeiro Rock In Rio Lisboa.

A cada canção, um conselho para os fãs que a aplaudiam. Muitos grupos de adolescentes a gritar por ela, muitas miúdas a saltar. Chegamos a “Glamorours” e, aqui, Fergie manda: “Tenham uma vida glamorosa!”. Mais gritos. A seguir, Fergie confessa: “Tenho um novo outfit. Mas sabem, estas coisas não compram a felicidade. São vocês os donos da vossa felicidade!” Mais gritos. E começa a balada “Big Girls Don’t Cry”.

Fergie, de botas de cano alto de latex e com um corpete bem apertado, esteve acompanhada de um grupo de bailarinos e, todos juntos, deram um grande espetáculo. A artista foi à frente, mexeu o corpo, cantou Rolling Stones, fez uma homenagem a Prince. Às tantas, foi vê-la às cavalitas de um segurança a passar perto do público para os habituais e fugazes toques de mãos com os fãs.

A artista californiana apresentou também temas do novo álbum mas, quem é fã de Fergie é, por norma, fã da banda que a viu nascer. E a cantora fez aquilo que todos desejavam: um medley de canções dos Black Eyed Peas. De “My Humps”, até “Rock that Body”, “Don’t Stop the Party” e “I Gotta Feeling”, todos saltavam. Mesmo aqueles que só estavam ali para guardar lugar para ver Queen.

Boogarins

No Palco Vodafone, o sol pôs-se ao som dos Boogarins e foi bonito de se ver. Os quatro de Goiânia trouxeram o rock psicadélico com um cheirinho a tropicalismo como só os brasileiros sabem fazer. O espetáculo abriu com “Falsa Folha de Rosto”, a sexta canção do álbum Manual, lançado em outubro do ano passado. Mas foi com a segunda canção, “Tempo”, que o público se começou a entusiasmar (ou não fosse este um dos temas de maior sucesso da banda).

Durante as pausas da canção ouviu-se a música que tocava na tenda eletrónica e a banda aproveitou para abanar o capacete. O público riu-se. À segunda pausa passou um avião por cima do palco que coincidiu perfeitamente com o timing da canção. O público voltou a rir-se desta vez extasiado com a perfeição daquele momento que parecia ter sido ensaiado e cronometrado ao segundo.

Foram vários os sucessos que aqueceram os ânimos entre o público, que era pouco mas bom. Pelo alinhamento passaram as maiores de Manual, mas também algumas canções do álbum de estreia da banda, como a gigante “Lucifernandis”.

“Se eu falar boa ‘noitxe’ é sacanagem. O Sol tá grandão, hein? Boa vida!” disse Dinho, vocalista da banda. Se assim era no início do concerto, o tropicalismo inspirado nos Mutantes embalou o Sol, que se pôs no fim do concerto. Foi um bonito final para encerrar o Palco Vodafone no segundo dia do festival.

Sensible Soccers

Antes, o cenário foi outro. Em frente ao palco, estava uma pequena multidão à espera, ansiosa para ouvir a música psicadélica da banda de Vila do Conde. Apesar de serem acusados de terem um som algo negro, o concerto dos Sensible Soccers não teve nada de dark. Num registo quase sunset (com o Sol literalmente a descer por detrás do Palco Vodafone), a banda deu o melhor de si, com muitos passinhos de dança à mistura.

Em “AFG” o público não resistiu, e todos se tornaram dançarinos por uns breves minutos. Para a última música, a guitarra teve direito a acompanhamento especial — o arco de um violino. Quase 50 minutos depois, os Sensible Soccers abandonaram o palco da mesma maneira como entraram: entre o som elétrico dos sintetizadores.

Pista

A abertura do segundo dia do Rock In Rio coube aos portugueses Pista que, às 16h45 em ponto, já estavam em cima do Palco Vodafone prontos para “rockar”. À sua frente, tinham meia dúzia de gatos-pingados, pouco entusiasmados com a ideia de aguentar 45 minutos ao sol só para ver um concerto. E não era para menos — o calor que se fazia sentir no Parque da Bela Vista era de deixar qualquer um a ansiar por uma sombra.

Depois de “Três a Zero”, veio a apresentação: “Nós somos os Pista e viemos de longe” (ironia, eles são do Barreiro). Mas nem os quilómetros os fizeram desanimar. Com uma energia contagiante, tomaram o palco de assalto e até conseguiram arrancar uma valente salva de palmas. “Viva o Barreiro!”, gritaram, desabafando que “vocês nem imaginam o calor que está aqui”. Mas imaginavam. À sombra, aqui e ali, iam-se instalando mais e mais pessoas. Afinal, os deuses estavam do lado dos Pista.

Alex D’Alva Teixeira veio fazer-lhes companhia para uma música mais “tropical”, porque os Pista não gostam de andar sozinhos. O “Freddie Mercury da Moita” pegou no microfone para três músicas e, com um jogo de cintura de fazer inveja, conseguiu convencer finalmente toda a gente a levantar os pés do chão. Despediu-se com um “até já”, para voltar logo de seguida para mais um tema. Houve até quem, embalado pela música do trio do Barreiro, decidisse fazer moche — com duas pessoas. O que conta é a intenção.

Entre distorções, os Pista lá se despediram. A faltar ficou apenas uma maior adesão do público. De resto, o Barreiro pode ficar orgulhoso, e o Rock In Rio também. Foi uma bela abertura.

A equipa do Observador acompanhou em direto o segundo dia da 7ª edição do Rock In Rio Lisboa, um festival que é muito mais que apenas música. Voltamos no próximo fim de semana, dias 27, 28 e 29. Até lá.