Este artigo foi originalmente publicado a 28 de julho de 2016. O Observador republica-o a propósito da entrega do Prémio Nobel da Literatura a Bob Dylan. Pode ler a notícia aqui.

All he wanted was to be free, And that’s the way it turned out to be

“Ballad of Easy Rider”, The Byrds

A culpa foi de uma mancha de óleo no asfalto? Ou deveu-se ao sol que, naquela manhã de 29 de julho de 1966, brilhava com intensidade e encandeou Bob Dylan? À semelhança daquilo que sucede com muitos outros pormenores da vida do músico, as circunstâncias em que se deu o acidente de moto de que foi vitima há 50 anos estão cobertas de mistério. O próprio Dylan, que na época tinha 25 anos, tem alimentado a especulação. Até contribuiu com duas versões para a queda que lhe valeu a fratura de várias vértebras, não se sabe, com rigor, quantas, e ter de usar uma coleira cervical durante algumas semanas. Seis, de acordo com alguns testemunhos. Apenas quatro, de acordo com outros.

Parece certo é que o destino se colocou em marcha quando Bob Dylan e a primeira mulher, Sara Lowndes, se deslocaram até à casa do manager Albert Grossman, onde o músico tinha deixado uma Triumph Tiger 100ss, a máquina de origem britânica que naquela época lhe satisfazia a paixão por motociclos. Dylan queria levá-la a uma oficina. Montou-a e fez-se às estradas sinuosas da região de Woodstock, no estado de Nova Iorque, com Sara no encalço, ao volante do automóvel do casal.

Triumph_Tiger_100

Triumph Tiger 100, o modelo que Bob Dylan conduzia em meados dos anos 1960. A moto de Dylan era vermelha.

Depois disto, começam as dúvidas. Dylan era conhecido entre os amigos mais íntimos pela falta de talento para conduzir. Mas gostava de andar depressa, como Joan Baez constatou nas diversas ocasiões em que andou à boleia. “Sempre tive a sensação de que a moto é que o conduzia e que, se tivéssemos sorte, conseguiríamos virar para o lado certo e a moto conseguiria fazer as curvas. Caso contrário, seria o fim para os dois”, contou a cantora e parceira de Bob Dylan.

O músico deu “gás” ao acelerador, perdeu o controlo da máquina e esta acabou por lhe cair em cima? Ou foi a tal mancha de óleo traiçoeira que fez com que o pneu traseiro deslizasse, com o músico a acabar por se estatelar na estrada? Pode ter sido, ainda, uma terceira hipótese: o herói da música folk-rock terá sido surpreendido por uns raios solares que o cegaram durante os milésimos de segundo suficientes para lhe toldarem a visão e provocar o desastre? Não se sabe ao certo.

Só quatro dias após o evento o New York Times publicou uma notícia. Tão vaga que deu origem aos mais diversos boatos. Dylan estaria gravemente ferido, paraplégico ou, mais trágico, teria sucumbido e já não faria parte do clube dos seres vivos. As teses da conspiração também fizeram a sua aparição. A queda de mota não passaria de uma invenção, uma máscara conveniente que visava esconder algo que Bob Dylan não queria que se soubesse, como, por exemplo, um internamento numa clínica de reabilitação para toxicodependentes.

A polícia não foi chamada ao local do acidente e o motociclista nem quis deslocar-se a um hospital. A mulher de Bob Dylan conduziu-o de regresso à casa de Grossman e, daí, o músico foi levado a um médico, Ed Thaler, em casa de quem permaneceu durante um mês, em convalescença. Foi apenas o princípio de um retiro prolongado, em que o autor de Like a Rolling Stone encontrou um refúgio, abrigado do estilo de vida de estrela do rock que o estava, no mínimo, a acabrunhar.

A porta de saída que surgiu por acaso

Para a história da carreira do músico e da música, ficou o registo de que há um período antes do acidente e outro após o acidente. Esta não é apenas a convicção de fãs e biógrafos. Há factos que sustentam a tese. O próprio Bob Dylan considera que o evento fortuito lhe forneceu a oportunidade ideal para escapar de uma vida que não desejava, provocada por uma rápida ascensão à fama, quando os anos 1960 tinham acabado de entrar na segunda metade.

A criatividade de Dylan era imensa nesta fase da carreira, mas a pressão para que produzisse ainda mais também era enorme. Quando sofreu o acidente, o músico vinha de um período especialmente rico no seu percurso. Em 14 meses tinha lançado três álbuns de temas originais, qualquer um deles digno de figurar nas listas dos melhores de sempre da música popular anglo-saxónica. Bringing It All Back Home, Highway 61 Revisited e Blonde On Blonde são obras maiores na discografia do músico.

Marcam a adesão de Dylan às guitarras elétricas, a uma sonoridade rock que lhe valeu apupos, vaias, assobios e ameaças por parte das audiências que o viram e escutaram durante a digressão que terminou nos primeiros meses de 1966, parcialmente documentada no filme “Don’t Look Back”, de D. A. Pennebaker, estreado no ano seguinte. Não perdoavam que tivesse decidido abandonar a guitarra acústica e a harmónica, companheiros, no fim de contas, dispensáveis, mas aqueles com que começou a trilhar o caminho que o levaria à celebridade.

Bob

Na fotografia da capa de “Bringing it All Back Home”, a figura feminina que surge com Bob Dylan é Sally Grossman, mulher de Albert Grossman, “manager” do músico.

A meio da década de 1960, Bob Dylan tinha-se transformado num produto com elevada procura. E Albert Grossman não estava disposto a desperdiçar um único cêntimo de dólar que o músico pudesse proporcionar. As digressões tornaram-se pesadas e a série de concertos que antecedeu o acidente deixou Dylan exausto, de acordo com aquilo que viu quem o acompanhou durante este período. Responder a tantas solicitações, entre a escrita e a composição, as sessões de gravação em estúdio e as prestações ao vivo, exigia combustível que Dylan foi encontrando nas anfetaminas e noutras substâncias que o ajudavam a manter-se de pé.

Sair deste circuito não era coisa simples, mas o fardo estava a tornar-se insuportável para quem, entretanto, tinha começado a constituir família e estava a começar a perceber que os seguidores queriam que ele fosse mais do que um simples músico de folk. Exigiam que se transformasse num líder, a voz de uma geração, capaz de eliminar as injustiças do mundo que denunciava nas letras das canções.

Nada disto fazia sentido na cabeça de Dylan. Queria viver sossegado em Woodstock, a compor e a desempenhar o papel de marido e pai. E foi assim que o acidente de moto funcionou como o pretexto perfeito para escapar daquilo que a realidade lhe estava a tentar impor. Nos meses que restavam de 1966, Dylan ainda tinha compromissos para fazer mais de seis dezenas de concertos. Forçado a ficar em repouso para recuperar dos danos que a queda lhe provocou, começou a pensar na vida e acabou por tomar decisões.

Adeus à estrada

Excluindo quatro presenças em palco, num balanço em que se contabilizam as participações no festival da Ilha de Wight, em Inglaterra, em 1969, e no Concerto para o Bangla Desh, organizado pelo ex-Beatle George Harrison dois anos depois, Bob Dylan resguardou-se e esteve oito anos consecutivos sem se comprometer com tournées ambiciosas. Rejeitou o convite para atuar no festival de Woodstock, uma celebração que parecia feita à medida da sua obra. A primeira aparição ao vivo após o acidente só aconteceu em janeiro de 1968, no Carnegie Hall, em Nova Iorque. Mas não se pode dizer que o desaparecimento tenha sido prejudicial para os apreciadores do músico e para o próprio, porque o tempo de repouso não foi uma época de menor produtividade. Pelo contrário.

Com os Hawks, grupo que o acompanhava e que mais tarde alterou o nome para The Band, Dylan gravou mais de cem canções em 1967, acervo que, após ter sido alvo de uma escolha, seria editado oito anos mais tarde sob o título The Basement Tapes, um conjunto de material que estava destinado a não superar o estatuto de demos, mas que rapidamente foi catalogado como um dos grandes tesouros da carreira. Entre os temas está um dos hinos criados por Dylan, I Shall Be Released. Também aproveitou para preparar e gravar o disco seguinte, John Wesley Harding, editado em 1968, com arranjos simples e que contrastam com aquilo que Dylan tinha andado a fazer nos discos que antecederam o espalhanço de mota.

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A capa do álbum duplo “The Basement Tapes”, gravado por Bob Dylan com The Band.

Só em 1974, quando os frenéticos anos 1960 já tinham murchado, é que Bob Dylan regressou às digressões. A aura de herói tinha-se apagado, para sua felicidade, e a nova geração tinha arranjado os seus próprios ídolos. Na autobiografia, Chronicles, o músico confessa-se. “Tive um acidente de moto e magoei-me, mas recuperei. A verdade é que eu queria escapar à corrida de ratazanas. Ter filhos mudou a minha vida e segregou-me de quase toda a gente e de tudo aquilo que se estava a passar. Fora da minha família, nada tinha um interesse real para mim e eu estava a observar tudo através de umas lentes diferentes”.

Like a rolling stone, With no direction home. O mais famoso acidente de moto na história da música popular anglo-saxónica tinha fornecido a Dylan a porta de saída de que andava à procura para conseguir escapar a um modo de vida que ele próprio cantou.