A prova de que os adolescentes, à medida que cresceram, terão sido protegidos demais, é que de cada vez que sentem um episódio de ansiedade o sinalizam como um estado de pânico. Como se stress, ansiedade e pânico fossem a mesma coisa. Acabam por ser tão pouco expostos a experiências ansiosas que têm na sua base o medo, que passam a ter medo de ter medo. Como se qualquer medo, ou as suas manifestações somáticas, pudesse ser sinónimo de colapso ou duma sensação de quase-morte. Fazendo por reprimirem o que sentem e censurando e racionalizando as contradições que isso lhes traz, a ponto de, idealmente, isso traduzir uma aspiração a deixarem de sentir. E o pensamento se vencesse de cada vez que deixamos de pensar.
Esta “tendência do momento”, transversal a imensas pessoas, faz com que se procurem “estratégias” para vencer os “pensamentos intrusivos” sem se pensar neles, como se aquilo que lhes parece mau dentro de si devesse ser domesticado ou dominado. Ou, se possível, anulado e destruído. Como se os tais pensamentos que parecem intrusos não fossem seus, e não representassem partes de si que é indispensável entender para que deixem de ser assustadores.
Acontece que com a tristeza a reação é semelhante. Como se tristeza e depressão fossem a mesma coisa. E como se estar triste fosse um assomo de fraqueza que belisca uma imagem que se cria e contraria a autoestima que se quer transparecer.
Do mesmo modo que acontece com a ansiedade, experimentar a tristeza significa aprender a reconhecê-la. Aprender a desconstruí-la e a entender como se gera e o que quer dizer. Aprender a não fugir dela e a descobrir como se pode “adubar” o crescimento que traz, de seguida. Da mesma forma que fugir dum medo é a melhor forma de se ficar preso a ele, também a tristeza é o melhor “antidepressivo” do mundo.
E, chegados aqui, talvez se torne importante conversarmos sobre um condimento indispensável para a saúde mental: a capacidade de estar triste. Como manifestação de humildade perante o que sentimos. De equilíbrio, de transparência, de autenticidade e de coragem de se ser quem é. E de lealdade e de esperança para com “o outro”, junto de quem a nossa tristeza, colocada ao seu cuidado, nos torna menos sós. E mais fortes!
Sem capacidade para estar triste qualquer pessoa entende um insucesso como uma derrocada que se insinua. Uma dor como um vulto de desmoronamento. Um reparo como uma ameaça. O reconhecimento de um erro como uma culpa sem reparação. Ou a tristeza como uma vergonha. O que faz com que sem capacidade para estar triste alimente a ilusão de que o crescimento se possa dar sem ser preciso crescer.