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Isto não é uma apologia do “meu tempo”. Estaria a ser como aqueles que suspiram pelo passado como se um Salazar a cada esquina lhes devolvesse não a vida miserável que possivelmente tinham mas a juventude que lhes permitia suportá-la.

O “meu tempo” não é, de todo, o tempo destes jovens que estão há dias acampados na Herdade da Casa Branca, muitos deles pela primeira vez, talvez para as primeiras férias longe dos pais. O Sudoeste mudou muito desde a primeira edição, em 1997, simplesmente porque assumiu mais a sua função de ritual iniciático do que de festival de música. É hoje uma espécie de colónia de férias para uma faixa etária bastante específica, não indo ao encontro da nostalgia (característica dos melómanos que frequentam outros festivais) mas perseguindo o ar do tempo. O MEO Sudoeste já não quer nada com esta trintona e isso não tem mal nenhum: é apenas mais uma prova de como o meu tempo não é melhor que nenhum outro. Nem sequer é meu.

O Sudoeste não foi o meu primeiro festival (Super Bock Super Rock, 1995) nem as minhas primeiras férias longe dos pais (Porto Covo, 1996) mas lá acontecem algumas primeiras vezes, talvez comuns à universalidade da juventude.

A primeira vez que apanhei uma boleia

A Zambujeira do Mar é a cerca de 5km do recinto do festival e do campismo e, na altura, não havia cozinha, nem lavandaria nem uma app que permitisse encomendar compras de supermercado (sim, este ano há disso no campismo e até cinema ao ar livre), portanto uma visita à vila era essencial e acartar os garrafões de água e vinho não era fácil. Havia um autocarro apertado que fazia o percurso e pouca paciência para esperar. Uma boleia nunca é coisa que se aconselhe, mas a juventude é destemida e estarei eternamente agradecida àquele casal de freaks.

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A primeira vez que acampei

Continua a ser para muitos adolescentes (alguns estão a guardar lugar desde o final da semana passada). E pode ser um pequeno Vietname. É comum perder-se a tenda ou levar-se com um campista bêbado em cima a meio da noite. Em 1997, não se dormia propriamente, tentava-se fechar os olhos com força suficiente para se ignorar o batuque infernal dos djembés. Ainda não se andava à procura da Elsa, mas alguém gritava repetidamente palavras como “briosa” e “alvorada”. Foi no campismo do Sudoeste que descobri que sofria de claustrofobia ou que tinha comprado uma tenda demasiado pequena ou que a vida é demasiado curta para não se dormir sob o céu estrelado. Também dormi sob chuviscos mas, quando regressei ao conforto de Lisboa, lembro-me de me sentir enclausurada.

Acampar pela primeira vez é também comer arroz com salsichas e massa com atum pela primeira vez. Pode também ser beber vinho ao pequeno-almoço pela primeira vez e tomar duche em público pela primeira vez. Depois desta descrição, sinto-me a prova viva de como os pais devem conhecer e confiar nos seus filhos. Ou então está aqui a razão por que não os tenho.

A primeira vez que tomei banho num canal

Quem preferisse banhos de imersão, ia ao canal que passa pela Herdade da Casa Branca. Nos primeiros anos do festival, era uma opção meio clandestina que cheirava a risco e a tétano, mas entretanto a organização apropriou-se do canal e transformou-o numa parte obrigatória (e segura) da experiência. Agora há “sunsets” (como quem diz, pôr-do-sol patrocinado) com DJ e nadadores-salvadores.

A primeira vez que vi concertos nas grades

O cartaz de 1997 parecia ser feito à medida da Ana daquele tempo: Blur, Marilyn Manson e Suede eram os cabeça-de-cartaz. Como não havia dinheiro para cerveja, a bexiga era fácil de dominar, o que permitia guardar lugar nas grades durante horas. Aprendi letras dos Rio Grande para suportar a espera até aos dEUS, só para os ver ali a dois passos. Sia, Steve Aoki e Wiz Khalifa são alguns dos nomes a subir ao palco MEO este ano. Já não há biqueirada como antigamente, o Marilyn Manson que o diga.

A primeira vez que me assoei e saiu uma massa indistinta de negrume

Foi a forma mais poética que encontrei para descrever a pasta que a toda a hora saía dos narizes festivaleiros devido às densas nuvens de terra que o rock levantava do chão. Essa é outra memória que não se repete: hoje, o MEO Sudoeste está devidamente atapetado e o muco parece o orvalho da manhã. Ainda dizem que “no meu tempo é que era bom”.

[o MEO Sudoeste começa esta quarta, dia 3, e continua até domingo, dia 7; toda a informação aqui]

Ana Markl é guionista, apresentadora no Canal Q e animadora de rádio na Antena 3