Uma fotografia de Cristiano Ronaldo, assinada pelo próprio, é a coqueluche do estúdio que os Capitão Fausto têm em Alvalade. “Isso é que era, ele tocar connosco no Coliseu”, brinca Francisco Ferreira, homem das teclas que aqui vira homem das palavras. E se o confronto com realidade é atroz – Ronaldo não pode estar em todas – há mais por celebrar. Nesta quinta-feira, a banda lisboeta apresenta-se como nunca. 14 músicos, seis sopros, um contrabaixo, uma guitarra acústica e congas latinas.

Mais: a disposição em que isto vai ser feito é coisa inédita nesta que é das salas mais simbólicas da capital. Os cinco elementos da banda estarão bem no centro da plateia, em pentágono – como se de uma exibição para imperador ver se tratasse – enquanto os restantes músicos se arrumarão pelo palco.

Tudo isto é coisa pouco comum. Mas juntemos ainda o facto de esta ser a primeira ocasião onde vão tocar ao vivo os sopros de Capitão Fausto Têm Os Dias Contados, um dos discos que fez as maravilhas de 2017. Depois, claro, esperam-se versões e arranjos distintos das canções que já andam por cá há mais tempo. Muito se tem falado da maturidade desta rapaziada, como se antes fosse “tudo um bocado à balda e não era”, confessa Francisco Ferreia. Por este andar, qualquer dia fazem um best of.

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No Vodafone Mexefest tocaram na varanda do Coliseu. Andam desde aí a estreitar relações, portanto.
Sim, foi um bom aquecimento. É algo que não costumamos fazer, só acústico, vozes e guitarras, os cinco a tocar guitarras, mesmo aquilo que não costumam tocar, tentámos ser um bocado os Crosby, Stills, Nash & Young. Foi bom porque pôs-nos a pensar nesse patamar, ser bons como eles na performance ao vivo. Obrigou-nos a ensaiar os pormenores e nuances das músicas num modo cru, sem barulho. Foi divertido.

A partir daí, ou da convivência neste estúdio, ponderaram fazer um acústico ou um disco de Natal?
Acústico não, mas Natal confesso que chegámos a pensar fazer isso. Já não vamos a tempo, mas chegámos a pensar fazer uma compilação de natal da Cuca Monga, onde todas as bandas da editora interpretavam músicas de natal ou até originais.

Mas vocês gostam do Natal ou de brincar ao Natal?
Alguns de nós passam o Natal com a família de uma forma mais séria, outros nem tanto. Temos o jantar de Natal da Cuca Monga e o dress code é ganga, temos que ir de ganga dos pés à cabeça. Falta-me uma gravata de ganga, há muita coisa de ganga que não se tem e se pode ter [risos]. Também nos reunimos todos aqui no estúdio dia 24, depois da consoada. É sobretudo uma desculpa para estarmos juntos.

Já viram grandes concertos no Coliseu?
Tenho uma relação um bocado estranha com o Coliseu. Já vi coisas muito boas e muito más. O último concerto que lá vi fora de festivais foi o do Jack White e acho que foi um flop, o som estava terrível. Senti que a banda estava a tocar bem mas que não chegava cá. Mas, sobretudo no Mexefest, já vi coisas muito boas. Espero que agora a minha relação com o Coliseu melhore.

Há sempre receio do som. Há razão para alarme?
Estou tranquilo, confiamos cegamente no nosso técnico, faz o nosso som desde sempre. Estou mais ansioso que outra coisa, até porque nunca vi um concerto no Coliseu da maneira que o vamos fazer. Vamos tocar no centro.

No centro da plateia?
Sim. O Coliseu costuma estar montado para o Circo nesta altura do ano, então tem umas barras redondas à volta, vamos deixar isso e estaremos os cinco, no meio, virados uns para os outros, em pentágono. As pessoas vão estar todas à nossa volta.

Portanto, desta vez é que vai ser mesmo estilo Coliseu, à antiga.
Exatamente. As pessoas estão de pé à nossa volta e alguém vai ter de ver o meu rabo, outras vão estar a ver o rabo do Domingos…

Pode-se ir rodando, também.
É isso, nunca tinha visto as coisas dessa maneira, podem perfeitamente mudar de enquadramento de música para música. O sistema de som vai ser diferente do habitual.

E o palco, vai estar tapado?
Não, vão estar músicos na boca de cena a tocar connosco, percebes? Portanto, as pessoas podem dividir a atenção por vários sítios, o que me parece muito interessante. Nunca vi lá nada assim e já nos contaram que vai ser a primeira vez que se faz isto no Coliseu. Seremos a primeira banda a tocar no centro, com pessoas no palco e pessoas de pé.

Há perguntas que se têm que fazer: o que significa para vocês este concerto?
Confesso que isto não foi uma proposta nossa. Atiraram-nos a ideia para o ar e nós dissemos que sim, porque não é fácil dizer que não. Admito que ficámos um bocado atarantados com a proposta, sentimos que ainda era um passo grande, não tanto como seria há um ou dois anos. Mas decidimos aceitar porque a oportunidade podia não surgir tão cedo.

E aparece num ano incrível para vocês.
Sim, só aparece por isso.

É uma consequência direta, na tua opinião?
É uma consequência do ano que vivemos, se não fosse isso não nos teriam feito esta proposta e nós não teríamos aceite, talvez um bocado por receio. Foi um ano muito bom, ficámos orgulhosos do que gravámos e dos concertos que demos. E, pelos vistos, houve mais pessoas a achar que isto era uma coisa que devia ser aplaudida.

Fala-se muito de uma maioridade, maturidade, que atingiram com este terceiro disco. Já estão um bocado cansados dessa conversa?
Sim, um bocado.

Dá um pouco a ideia de que o que fizeram antes não importa.
[risos] Sim, é isso, um bocado condescendente, quer dizer que antes era tudo um bocado à balda e não era. A maturidade é uma verdade óbvia e…[longa pausa]

…normal, no crescimento de uma banda.
Exato, não é nada estranho nem peculiar que estejamos mais velhos, passámos dois anos a tocar o Pesar o Sol e a fazer digressão, seria de esperar que estivéssemos um bocado mais maduros. É só por isso que nos fartamos. Sentimos que estamos crescidos em relação a algumas coisas profissionais, mas continuamos infantis, continuamos a ter uma Nintendo no estúdio em vez de cabos.

Além da tal mudança de cena, que mais podes adiantar sobre o concerto?
O que está implícito na mudança de cena é o número de músicos, vamos ser 14, nós os cinco mais nove. O núcleo grande somos nós, o Diogo [Rodrigues] e o Luís Montenegro que vão tocar connosco, respetivamente, percussões e guitarra acústica, que é uma cena que temos em todos os nossos discos, mas que nunca conseguimos ter ao vivo, não temos mais que dez mãos. Logo isso vai estar forte, as músicas ganham outra dimensão. E vamos acrescentar um ensemble de seis sopros e um contrabaixo, que é algo que já tínhamos no último disco e achámos que esta era a ocasião perfeita para isso. Talvez a única.

E também vão esticar esses sopros para temas mais antigos?
As do disco mais recente vão ser o mais fiéis possível, mas só por si isso é novo, temos tentado recriar algumas coisas mas não com esta precisão, vai ficar mesmo igual. E depois algumas das músicas antigas, sobretudo as do Pesar o Sol, terão uns arranjos de sopros e isso entusiasmou-nos bastante, tivemos que compor de novo para isso.

Vai ser, portanto, um concerto especial.
Sim, mas posso já adiantar que não vai haver confetti nem videomapping, estamos a dar mais atenção ao que vamos tocar, achamos que isso é que vai tornar aquilo especial.

https://www.youtube.com/watch?v=WCOWJ0yhGYU

Não haverá lugar para bailarinas, portanto.
Infelizmente não. O máximo que estou tentado a arranjar serão uns insuflável estilo AC/DC ou Xutos [& Pontapés] no Estádio de Alvalade. Insufláveis mesmo gigantes para pôr no meio de nós, ainda não sei bem que tipo de insuflável, mas algum. Um caranguejo gigante… mas com mamas, mais sexy.

Esta coisa de fazerem versões distintas e recuperarem temas para os tocar com os sopros… isto dá quase o ar de uma espécie de best-of para uma banda com três discos.
[risos] É claro que é pateta pensar nisso assim, de facto só temos três discos. Mas são três discos bastante diferentes e claro que temos fases, as músicas que temos mais gosto em tocar agora são as mais recentes, vai ser sempre assim, nisto há algumas malhas que vão ficando para trás. Então dar-lhes nova roupa é fixe. Há uma altura do concerto em que tocamos só músicas antigas… e sim, parece quase um revival.

Partilharam no vosso Facebook fotografias antigas, de quando acabaram de gravar o “Gazela”…
Sim… sabes, como temos três discos tão diferentes fomos, inevitavelmente perdendo e ganhando fãs. Umas pessoas só agora é que ganharam interesse e outras foram perdendo porque gostavam mais dos outros discos. E, neste concerto, é uma espécie de reunião dessas pessoas todas. Vai ser uma mistura curiosa, um bocado nostálgico. Foi engraçado estar a pensar nas faixas que vamos tocar e reparar que há músicas que já odiamos.

Isso acontece?
Claro, e acontece-nos aos cinco e são cinco malhas diferentes, se for preciso, esse é que é o problema.

Estás disposto a dizer a faixa que menos gostas?
Não tenho uma que odeio mais, mas digo com muita confiança que do nosso EP [homónimo, editado em 2010] só gosto de uma [risos]. Do “Gazela” gosto de metade…

Como é que se lida com isso?
Lida-se de uma forma bastante saudável, também. É interessante ver como mudámos de uma coisa para outra, pensar nas músicas que ouvíamos na altura e pensar como é que essas influenciaram a forma como estávamos a tocar, há ali por trás uma cena curiosa, tiro prazer daquilo. Não é bem um prazer genuíno.

Quase gozão.
É isso, gozão e de análise, isso traz-me enorme prazer. Há truques para contornar esse possível aborrecimento com as coisas que já nos dizem tanto.

Se um dia se separarem e quiserem, vinte anos depois, fazer uma digressão de reunião dos Capitão Fausto, o Coliseu seria um bom local para isso?
Não. Não desfazendo, mas a reunião na sala grande é o mais óbvio.

E esso não é a vossa onda.
Não, nunca falei disto com eles, mas esta seria a minha proposta: estou a imaginar-nos em minha casa, com os filhos todos a brincar, e nós à mesa a beber uns copos e a discutir isso. Diria logo “vamos tocar nos bares”. Vamos outra vez a Pisões e a Freamunde.

Pode dar-se o caso de isso nunca acontecer.
Óbvio, mas, caso aconteça, seja por razões pacíficas ou hostis… a minha proposta é esta.

E qual é a vossa resolução para 2017?
O objetivo principal é tocar mais e fazer mais música. Felizmente temos este estúdio e a máquina está bem oleada, é mais fácil. Estamos a zeros. Isto a nível concreto, a nível ideológico estamos todos de acordo. Assim que os concertos acalmarem é começar a fazer músicas. Se o próximo disco não sair em 2017, vai sair em 2018 com certeza.

Concerto esta quinta-feira às 22h, bilhetes entre os 18 e os 22 euros.