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▲O mandato de oito anos (não renovável) de Lagarde decorre até 31 de outubro de 2027

AFP via Getty Images

▲O mandato de oito anos (não renovável) de Lagarde decorre até 31 de outubro de 2027

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Lagarde queria "águas calmas" para sair do BCE, mas deverá fazê-lo no meio da turbulência. O "xadrez" que vai mudar profundamente o BCE

Reuters noticiou que saída antecipada pode consumar-se já nas próximas semanas. Lagarde queria "águas calmas" para sair mas deverá ter de fazê-lo no meio da turbulência que envolve o seu país-natal.

O “fumo” surgiu há um ano e meio e, agora, também o “fogo” se tornou mais visível. A Reuters noticiou, na quinta-feira, que a francesa Christine Lagarde se prepara para sair do BCE um ano antes do fim do mandato e que poderá ser nomeada já a 2 de novembro para a liderança do Fórum Económico Mundial, uma influente organização internacional que é conhecida por organizar a cimeira de Davos. O momento da provável saída não é o mais tranquilo que Lagarde poderia desejar, mas o risco de não sair é ainda pior: significa, potencialmente, envolver o próprio BCE na turbulência política que se vive na zona euro – sobretudo no seu país natal.

A revelação de que Lagarde poderia suceder ao controverso Klaus Schwab na liderança do Fórum Económico Mundial (WEF, na sigla original) foi feita ao Financial Times, em maio de 2025, pelo próprio. A presidente do BCE teria, segundo Schwab, estado pessoalmente envolvida nos preparativos da mudança e terá sido, mesmo, reservado um luxuoso apartamento, na Suíça, para que Christine Lagarde pudesse lá viver nos períodos em que estivesse no país.

Aliás, parte da polémica que nessa altura se tinha abatido sobre Klaus Schwab estava relacionada com a alegada utilização desse apartamento – no condomínio Villa Mundi, propriedade do WEF – por membros da família do fundador. Schwab defendeu-se dizendo que aquele apartamento não era para si mas, sim, para Lagarde.

Todos estes planos de sucessão terão sido, porém, perturbados pelas alegações de conduta imprópria – incluindo assédio sexual e bullying laboral – que levaram à saída de Klaus Schwab da instituição que fundou e que, entre outras iniciativas, reúne anualmente os principais governantes, empresários e banqueiros do mundo em Davos.

Os rumores de que Lagarde poderia sair antecipadamente subiram de tom em fevereiro, antes do início da guerra no Irão, quando o BCE estava a navegar em velocidade de cruzeiro, com a taxa de juro “estacionada” em 2% e a inflação controlada, bem próxima do objetivo.

A imprensa financeira internacional noticiou, nessa altura, que a francesa estaria a aproveitar as “águas calmas” de então para acelerar os preparativos para abandonar o cargo. Isto porque, dessa forma, garantia-se que ainda seria Emmanuel Macron o Presidente de França na altura em que se tiver de escolher um sucessor. O receio era que, se se esperar pelo fim natural do mandato de Lagarde, nessa altura França poderia, eventualmente, ter um Presidente de extrema-direita, que teria um peso decisivo na escolha.

Mas, desde então, tudo mudou. A guerra no Médio Oriente gerou (mais) um choque energético que fez derrapar a inflação e obrigou o BCE a subir novamente as taxas de juro, algo que já aconteceu duas vezes (de 2% para 2,25% e, depois, para os atuais 2,5%). Por outro lado, a instabilidade social e as dificuldades orçamentais de França colocou o país no centro das preocupações dos responsáveis europeus (e dos investidores).

Mercados pressionam França como na crise da dívida soberana (mas veem com bons olhos eleições antecipadas em Espanha)

“Não diria que estamos em crise, mas vêm aí eleições em França, em Espanha, possivelmente na Alemanha, e temos as taxas de juro em máximos de vários anos, ao mesmo tempo que a inflação está demasiado elevada e somos afetados por duas guerras”, salienta Filipe Garcia, economista do IMF – Informação de Mercados Financeiros. “Talvez dizer que é uma má altura [para a saída de Lagarde] não seja justo, mas sem dúvida que não vivemos um tempo fácil”, considera o economista.

A Reuters, nesta quinta-feira, frisou que, segundo as suas fontes, a decisão de sair ainda não está tomada. Mas, no mesmo dia, outra agência, a Bloomberg, avançou que esta constante indefinição sobre os planos de Lagarde está a deixar alguns responsáveis do BCE agastados e impacientes, porque esta situação, consideram, está a desgastar a instituição e a gerar especulações sobre sucessores que acabam por ter um efeito desestabilizador.

Publicamente, Lagarde só, em finais de setembro, admitiu poder sair antecipadamente. “Não descarto a possibilidade de sair alguns meses antes do fim do meu mandato, mas não anunciei nada em específico e uma coisa é certa: ainda cá estarei em 2027”, disse ao jornal La Croix. “Se eu sair mais cedo, será apenas uma questão de alguns meses. Não será algo que mude o mundo”, afirmou a francesa, que está prestes a lançar um livro de memórias.

epa12435334 European Central Bank President Christine Lagarde attends the hearing of the Committee on Economic and Monetary Affairs of the European Parliament in Strasbourg, France, 06 October 2025. The current plenary session runs from 06 October until 09 October 2025.  EPA/CHRISTOPHE PETIT TESSON

▲ Lagarde tem fugido ao tema mas admitiu no final de setembro, finalmente, poder "sair alguns meses" antes do fim do mandato.

CHRISTOPHE PETIT TESSON/EPA

Embora a escolha do sucessor de Lagarde caiba a todos os líderes da zona euro, composta por 21 nações, historicamente qualquer candidato, para ter sucesso, necessita do apoio tanto da Alemanha como de França para garantir o cargo. Ainda não há candidatos formais, mas têm corrido vários nomes nos círculos do BCE como potenciais presidentes do BCE, entre os quais o espanhol Pablo Hernández de Cos e o neerlandês Klaas Knot.

Qualquer um deles, pelo seu percurso, poderá ter dificuldades em conseguir um voto favorável de um Presidente como Marine Le Pen, caso saia vencedora das eleições para as quais tem estado à frente nas sondagens. Daí que se vá falando, há vários meses, que Lagarde poderia sair mais cedo, forçando uma substituição antes das eleições de 18 de abril em França (com possível segunda volta em maio).

O mandato de oito anos (não renovável) de Lagarde termina a 31 de outubro de 2027. Antes de ser nomeada para suceder a Mario Draghi no BCE, foi diretora-geral do Fundo Monetário Internacional de 2011 a 2019 e, antes disso, ministra das Finanças de França.

Lagarde não é a única a sair. Cúpula do BCE vai mudar profundamente

A eventual saída antecipada de Lagarde não será uma simples troca de presidente como foi, por exemplo, a saída do italiano Mario Draghi (que não foi antecipada, ocorreu no final do seu mandato de oito anos).

A possível mudança abriria caminho a uma negociação mais ampla – que, na verdade, já está a decorrer nos bastidores – sobre a composição da comissão executiva do BCE, num momento em que outros dois lugares de enorme importância estão, também, prestes a mudar de mãos. E é precisamente esta possibilidade de negociar vários cargos em simultâneo que torna a sucessão particularmente delicada e complexa.

A primeira mudança já tem data marcada. Isabel Schnabel, a economista alemã que integra a comissão executiva desde 2020 e lidera a área das operações de mercado, vai abandonar o BCE a 3 de janeiro de 2027 para assumir funções de conselheira financeira e diretora do departamento de mercados monetários e de capitais do Fundo Monetário Internacional (FMI).

O mandato de oito anos só terminaria no final de 2027, mas a saída antecipada foi confirmada pelo próprio BCE em setembro e a escolha de um sucessor já está em marcha. O segundo lugar em aberto será o de economista-chefe. O mandato de Philip Lane, o irlandês que ocupa essa função desde 2019, termina a 31 de maio de 2027.

E assim, caso Lagarde saia antes do previsto, o BCE poderá ter de escolher três novos membros para a sua comissão executiva num intervalo de poucos meses: o sucessor de Schnabel, o de Lane e o da própria presidente. É uma concentração invulgar de decisões numa instituição em que a independência é fundamental e onde a continuidade é um valor chave. Foi, aliás, por isso que se criaram mandatos não coincidentes, para evitar que houvesse demasiadas mudanças de titulares em simultâneo.

A comissão executiva tem seis membros e assegura a gestão quotidiana do banco central, prepara as reuniões do Conselho do BCE e executa as decisões de política monetária. A escolha de novos responsáveis não altera, por si só, as regras de decisão sobre as taxas de juro, mas pode modificar os equilíbrios internos sobre a forma como o banco central interpreta os riscos para a inflação e para a economia.

A questão é, também, geopolítica. A comissão executiva não é composta através de uma distribuição formal de lugares por nacionalidade, mas as grandes capitais europeias procuram, tradicionalmente, assegurar influência sobre os cargos mais importantes. E, quando há várias vagas em simultâneo, torna-se possível negociar um pacote: um país apoia o candidato de outro à presidência em troca de um outro lugar relevante na equipa executiva.

“Os três cargos que ficarão vagos são de particular interesse para os países-membros, pois podem influenciar decisivamente o Conselho do BCE e, consequentemente, a política monetária“, refere o Commerzbank numa nota de análise recente. Além do título de presidente, o cargo de responsável pelas operações de mercado — ainda ocupado por Schnabel — “é considerado, juntamente com o de economista-chefe, o departamento mais poderoso e com maior influência operacional dentro do BCE”, acrescenta a nota do banco alemão.

▲ Klaas Knot, dos Países Baixos, é visto como um "falcão" da política monetária mas o rótulo não lhe assenta na perfeição.

AFP/Getty Images

Foi precisamente esse cenário que começou a ganhar forma nos últimos meses. A Reuters noticiou em setembro que França (isto é, Macron) estaria disposta a apoiar o neerlandês Klaas Knot para a presidência, desde que um candidato francês fosse escolhido para suceder a Philip Lane no lugar de economista-chefe.

Esse é um dos nomes mais fortes na corrida para a presidência. Mas do outro lado está o espanhol Pablo Hernández de Cos, que é visto por alguns analistas como o candidato com maiores hipóteses de ser escolhido.

Knot e De Cos. Um “falcão” (convertido?) e uma “pomba”

Klaas Knot, antigo governador do banco central dos Países Baixos, é economista de formação, passou 14 anos no Conselho do BCE e ficou conhecido, sobretudo na primeira fase desse percurso, por defender uma política monetária mais restritiva e por criticar as medidas de estímulo de Mario Draghi. É, por isso, habitualmente classificado como um “falcão“ da política monetária, ou seja, mais inclinado a dar prioridade ao combate à inflação e a defender taxas de juro elevadas quando os riscos de subida dos preços o justificam.

Essa fama, contudo, não conta toda a história. Knot aproximou-se das posições de Lagarde durante a presidência da francesa e demonstrou capacidade para trabalhar no quadro de consensos do BCE. Aos olhos do Commerzbank, porém, o neerlandês é claramente um “falcão”, embora “pareça que as suas comunicações passaram a ser marcadamente mais neutrais a partir do momento em que terá começado a ter ambições de suceder a Lagarde” .

Seja como for, a sua candidatura não significaria, necessariamente, uma viragem automática para uma política monetária mais dura: o contexto económico, as previsões e a composição do Conselho do BCE continuariam a determinar as decisões.

O principal concorrente é o espanhol Pablo Hernández de Cos, antigo governador do Banco de Espanha e atual diretor-geral do Banco de Pagamentos Internacionais (BIS, na sigla original), o chamado “banco central dos bancos centrais”.

O espanhol é geralmente visto como um perfil mais moderado, frequentemente descrito como mais “pomba” em comparação com Knot, embora esta classificação deva ser entendida como relativa, e não como uma posição fixa. O seu percurso é marcado por uma abordagem técnica e orientada pelos dados, bem como pela experiência na supervisão bancária e na cooperação internacional.

O Commerzbank salienta que “desde julho de 2025 que o espanhol exerce funções de diretor-geral do BIS”, ao passo que, “em contrapartida, Knot não ocupa qualquer cargo oficial desde que deixou o cargo de governador do banco central em julho de 2025, o que reduziu a sua visibilidade pública“. Na leitura do banco alemão, “sobretudo tendo em conta o crescente endividamento público em vários países — e considerando a veemência com que o moderado Draghi combateu a crise da dívida soberana —, muitos governos preferirão, provavelmente, um presidente do BCE com uma postura mais moderada”. Ou seja, o espanhol De Cos poderá ser o candidato mais forte nesta fase.

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▲ O espanhol Pablo Hernández de Cos, à esquerda de Christine Lagarde (na foto), é visto como mais moderado do que Knot.

Bloomberg via Getty Images

A escolha entre os dois colocaria em confronto não apenas diferentes reputações em matéria de política monetária mas, também, diferentes estratégias políticas. Knot poderá beneficiar de um eventual entendimento com França, caso Paris consiga assegurar o lugar de economista-chefe. Hernández de Cos, por seu lado, tem experiência internacional e um perfil que pode facilitar a construção de consensos entre países com posições distintas sobre a política monetária.

Além disto, há um outro fator que pode entrar em jogo. “Desde a criação do BCE, nunca houve um presidente oriundo de Espanha, enquanto os Países Baixos deram o primeiro presidente do BCE, Wim Duisenberg, que exerceu o cargo de junho de 1998 a maio de 2003″, salienta o Commerzbank.

Um terceiro nome possível é Joachim Nagel, atual presidente do Bundesbank, que admitiu numa entrevista ao Le Monde, no início de setembro, estar interessado no cargo. É geralmente classificado como um “falcão” moderado, defensor da ortodoxia monetária clássica alemã – e tem, acima de tudo, sido um defensor vocal do valor da independência do BCE, sem deixar de mostrar disponibilidade para compromissos institucionais.

Mas a Alemanha terá de decidir se privilegia a presidência ou se procura garantir influência na substituição de Schnabel. A imprensa financeira noticiou que Berlim pretende apresentar um candidato para essa vaga, o que poderá reduzir o espaço político para uma candidatura alemã à presidência. Segundo o jornal Handelsblatt, em setembro o Governo alemão atribuía-lhe poucas hipóteses e o jornal noticiou, também, que Friedrich Merz iria reunir-se com Klaas Knot e Pablo Hernández de Cos, dois sinais de que Nagel poderá ter ficado para trás.

“O governo alemão não demonstrou, até ao momento, qualquer inclinação para apoiar a sua candidatura, presumivelmente porque a Alemanha já detém as presidências da Comissão Europeia (com Ursula von der Leyen) e da Autoridade Bancária Europeia (com Claudia Buch)”, afirma a nota de análise do Commerzbank.

Há, ainda, outro nome a considerar, o de uma mulher — Nadia Calviño, presidente do Banco Europeu de Investimento (BEI) e antiga ministra espanhola da Economia. A sua experiência política e institucional coloca-a entre os nomes referidos nas especulações sobre a sucessão, embora não tenha o mesmo percurso de economista de banco central dos outros candidatos. Mas Christine Lagarde também não tinha.

A espanhola disse, em junho, que não estava na corrida. Porém, a Reuters, em setembro, voltou a referir que o nome de Calviño surgia ocasionalmente em conversas privadas sobre a sucessão.

epa11863093 European Investment Bank (EIB) President Nadia Calvino speaks during a press conference about the EIB's annual results in the EU Council in Brussels, Belgium, 30 January 2025.  EPA/OLIVIER MATTHYS

▲ O nome da (também) espanhola Nadia Calviño surge, por vezes, na lista de possíveis sucessores, embora seja visto como menos provável.

OLIVIER MATTHYS/EPA

Não existem, para já, candidaturas formais à presidência do BCE e os apoios políticos podem mudar. Os perfis mais associados aos “falcões” ou às “pombas” ajudam a compreender as diferenças entre os nomes em discussão, mas não permitem antecipar, por si só, o rumo futuro das taxas de juro – muito menos numa fase de grande incerteza como aquela em que se vive atualmente, com a inflação na zona euro nos 3,8%, quase no dobro do que seria o desejável.

Além disso, sublinhe-se, o (ou a) presidente do BCE não decide sozinho a política monetária: as decisões são tomadas pelo Conselho do BCE, que inclui os membros da comissão executiva e os governadores dos bancos centrais nacionais da zona euro.

França quer influência — e Berlim não quer perder a sua

A possível saída de Lagarde antes das eleições presidenciais francesas de 2027 tem uma dimensão que ultrapassa a sua carreira pessoal. Se a sucessão for decidida enquanto Emmanuel Macron ainda ocupa o Eliseu, o Presidente francês poderá participar nas negociações e procurar assegurar um nome que considere compatível com os interesses europeus de Paris.

Por outro lado, numa fase em que se especula que o BCE poderá ver-se obrigado a intervir nos mercados de dívida para atenuar a pressão dos investidores sobre França, ser escolhida para a liderança uma pessoa não francesa (ninguém está à espera que França volte, já, a ter mais um presidente, depois de Lagarde e de Jean-Claude Trichet) poderia tornar essa intervenção menos controversa e delicada, caso viesse a ocorrer.

Se o processo se prolongar para lá das eleições em França, o quadro político poderá ser diferente. A possibilidade de uma vitória da extrema-direita francesa, ou de uma mudança significativa na orientação política do país, acrescenta incerteza às negociações. Isto embora nenhum chefe de Estado na Europa tenha, por si só, a capacidade de nomear unilateralmente o presidente do BCE: a decisão pertence ao Conselho Europeu, liderado por António Costa, segundo o procedimento previsto nos Tratados.

epa09960219 The President of Germany's central bank, Joachim Nagel, speaks to the media during a press conference of the G7 Finance Ministers and Central Bank Governors Meetings in Koenigswinter, near Bonn, Germany, 20 May 2022. The meetings of Finance Ministers and Central Bank Governors will take place in Bonn and Koenigswinter from 18 to 20 May 2022.  EPA/SASCHA STEINBACH

▲ O alemão Joachim Nagel admitiu disponibilidade para suceder a Lagarde, mas terá poucas hipóteses.

SASCHA STEINBACH/EPA

Para a Alemanha, a questão é igualmente delicada. A maior economia da zona euro nunca teve um presidente do BCE e poderá querer assegurar que a próxima composição da comissão executiva não reduz a sua influência sobre as decisões de política monetária. A vaga deixada por Schnabel, economista alemã conhecida pela sua atenção aos riscos inflacionistas e que tem grande ascendente sobre Lagarde, torna-se, por isso, particularmente importante.

Por outro lado, a substituição de Philip Lane acrescenta outra peça ao puzzle. O economista-chefe tem um papel central na preparação das análises económicas e das projeções que sustentam as decisões do BCE. Se França conseguir ocupar esse lugar, poderá ter um argumento para apoiar um candidato de outro país à presidência. É esta possibilidade de distribuir os cargos por nacionalidade, experiência e orientação económica que transforma a sucessão numa negociação europeia de grande alcance.

“Uma das regras não escritas no BCE tem sido que a Alemanha, a Itália e a França têm sempre um lugar na comissão executiva, com os países mais pequenos a partilharem os outros três lugares”, refere o Commerzbank. “Se os países da zona euro mantiverem esta prática e De Cos se tornar presidente do BCE, os outros dois membros do conselho executivo do BCE virão provavelmente da Alemanha e da França”, afirma o banco, acrescentando que, recentemente, “duas professoras de economia francesas — Agnès Bénassy-Quéré e Hélène Rey — foram nomes falados para possivelmente serem nomeadas para um conselho predominantemente masculino”.

O euro digital e a continuidade da agenda de Lagarde

A mudança de liderança também ocorre quando o BCE tem entre mãos um dos projetos institucionais mais importantes dos últimos anos: o euro digital. A iniciativa pretende criar uma forma digital de moeda de banco central, acessível ao público e complementar às notas e moedas, para permitir pagamentos eletrónicos em euros sem depender exclusivamente de sistemas privados de pagamento.

O projeto entrou numa nova fase de preparação técnica, mas a sua concretização depende também do processo legislativo europeu. Em julho de 2026, o Parlamento Europeu deu luz verde ao avanço das negociações com o Conselho da União Europeia sobre a proposta legislativa. Nesta fase, o BCE está a trabalhar com o objetivo de estar preparado para uma eventual emissão em 2029, embora a decisão de emitir o euro digital só possa ser tomada depois de concluído o processo legislativo.

Uma saída antecipada de Lagarde não significaria, claro, o abandono automático do euro digital. O projeto não depende exclusivamente da presidente e o calendário envolve instituições europeias e decisões colegiais. Ainda assim, a liderança do BCE tem importância na definição das prioridades, na comunicação pública e na construção de consensos com bancos, comerciantes, prestadores de serviços de pagamento e governos nacionais – e não é certo que outro líder venha a ser tão entusiástico quanto Lagarde relativamente a este tema, o que pode ser decisivo para o andamento do projeto.

O sucessor herdará, também, o desafio de explicar por que razão o euro digital é necessário, como se articulará com o dinheiro físico e de que forma serão protegidos a privacidade dos utilizadores e o papel dos bancos comerciais. A sua posição sobre o projeto poderá influenciar o ritmo e a estratégia de implementação, mesmo que não possa substituir as decisões legislativas dos colegisladores europeus.

Filipe Garcia, economista do IMF – Informação de Mercados Financeiros, salienta que o dossiê do euro digital é outro tema quente que está numa fase decisiva de lançamento. Outro tema que está em aberto é o orçamento comunitário, que também fez deste um “momento sensível” para haver uma alteração tão profunda das lideranças do BCE.

[Annie conhece o ministro do Interior de Cuba há muito tempo, mas a paixão que os une é relativamente recente. É justamente nessa altura que Zé Manel, como ela lhe chama, vai ser implicado num dos maiores escândalos da liderança de Fidel Castro. O “Caso Ochoa” envolve droga, fuzilamento, prisão e o narcotraficante mais conhecido do mundo: Pablo Escobar. Já pode ouvir o quinto episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]

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