Tinha tudo para ser perfeito: três horas, dois dos álbuns mais memoráveis dos Moonspell e o ainda fresco Extinct a coroar. Fogo de artifício, mudanças de cenário e todo o aparato a que convinha à ocasião. Só que, por algum motivo, o feitiço não foi forte o suficiente para agarrar o público lisboeta. Depois de um concerto memorável em Guimarães (em dezembro), o espetáculo de comemoração dos 20 anos do Irreligious — disco que marcou um ponto de viragem para a banda portuguesa –, que passou este sábado pelo Campo Pequeno, em Lisboa, não conseguiu mais do que criar um ambiente morno.

A razão é quase inexplicável: os Moonspell deram o melhor de si, com um concerto pensado ao pormenor e repleto de pequenas surpresas a pensar nos fãs. E isso ficará imortalizado no DVD que foi filmado em Lisboa (ainda sem data de lançamento). Do outro lado, porém, faltaram palmas, faltaram uivos mais altos, faltaram gritos agudos na “Vampiria”. Faltou a salva de palmas calorosa que, durante três horas, a banda não conseguiu receber.

Mas já lá vamos.

Como estava previsto, foi com Wolfheart que os Moonspell começaram a maratona de três horas de concerto no Campo Pequeno. O plano parecia megalómano, mas a minúcia com que tudo tinha sido montado fazia prever um final feliz. A banda abriu, como não podia deixar de ser, com o tema “Wolfshade”, seguindo o alinhamento original do álbum de 1995. “A noite começa agora sob a sombra do lobo”, anunciou o vocalista Fernando Ribeiro, sempre comunicativo, na primeira de várias intervenções ao longo da noite. Atrás, erguia-se uma lua gigante, rodeada por tochas, que iluminavam o palco.

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Num concerto que percorreu três álbuns na íntegra, os fãs tiveram a oportunidade de ouvir alguns temas que a banda, por norma, não toca ao vivo, como “Trebaruna” e a sua “irmã malvada”, “Ataegina”, que conseguiu arrancar uns saltos e uns “lalalas” entusiasmados. Em “Vampiria”, um dos grandes momentos da noite, o Campo Pequeno pintou-se de vermelho, transformando Fernando Ribeiro no vampiro que nunca deixou de ser. No final, ninguém gritou com as Crystal Mountain Singers que, como já é costume, fizeram companhia aos Moonspell durante a noite. No ar, ficou apenas o silêncio.

Talvez o público tivesse a guardar o entusiasmo todo para “Alma Mater”, um dos temas mais simbólicos da banda e sempre um dos mais aguardados. Ainda a canção não tinha começado, e já alguém gritava da audiência. Voou uma bandeira de Portugal em direção a Fernando Ribeiro, que a agarrou de imediato. E foi agarrado a ela que cantou o tema do início ao fim, fechando a primeira parte do concerto da melhor maneira possível. O Campo Pequeno não estremeceu, mas devia.

Com a saída de cena da banda, seguiu-se uma confusão em palco — a lua desapareceu para dar lugar ao gigante olho de Hórus amarelo de Irreligious. A animar o intervalo, ficou a banda portuguesa de música medieval Cornalusa, que tentou a todo o custo que o entusiasmo não esmorecesse (acrescentando até ao seu repertório algumas covers dos próprios Moonspell). Os Cornalusa foram uma novidade do concerto de Lisboa — em Guimarães, não houve entretenimento entre as mudanças de cenário e figurinos.

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A verdadeira celebração chegou na segunda parte do concerto, dedicada ao álbum Irreligious. Renovados, os Moonspell abriram com “Opium”, seguindo-se “Awake” e “For a Taste of Eternity”, seguindo mais uma vez o alinhamento original do disco. Apesar de muitos dos temas raramente serem apresentados em palco, notava-se que o álbum tinha sido bem trabalhado pela banda, que tem reforçado os concertos mais recentes com muitos dos temas de Irreligious.

“Raven Claws” contou com a ajuda da italiana Mariangela Demurtas, vocalista dos Tristania. Em “Mephisto”, o palco cuspiu fumo e fogo, e Fernando Ribeiro deu o melhor de si num tema inspirado pela obra de Goethe, “Fausto”. Para a penúltima música, “Herr Spiegelmann”, o vocalista transformou-se numa espécie de robô brilhante, com um casaco espelhado e garras verdes feitas de lasers. O público, possivelmente intrigado, decidiu guardar todas as energias para o tema seguinte: “Fullmoon Madness”, tema que define tudo aquilo que os Moonspell são. “Esta é uma das músicas mais importantes para nós”, frisou o vocalista. Fala sobre “viver para sempre debaixo do feitiço da lua cheia”.

Deixando-se levar pelo feitiço, Fernando Ribeiro uivou, mas da parte da audiência recebeu apenas em troca um latido fraco. Houve uma tentativa de crowdsurfing, é certo, mas e headbanging? Pouco para a amostra. Ainda assim, “Fullmoon Madness” acabou por se transformar num dos momentos mais especiais da noite — no final do tema, subiram ao palco Mariangela e as Crystal Mountain para um final memorável.

Terminada a segunda parte, seguiu-se mais um intervalo, com animação também a cargo dos Cornalusa. As múltiplas paragens e o grande aparato cénico fizeram com que, em muitos momentos, o espetáculo se assemelhasse mais a um festival do que a um concerto, com pequenas atuações dentro de pequenas atuações. Apesar disso, o cuidado evidente com que todo o espetáculo foi montado, mostrou uma verdadeira dedicação por parte da banda, que tentou de tudo para tornar a noite de sábado numa noite memorável, com surpresas atrás de surpresas.

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Extinct não foi exceção. Depois de “Breathe”, Carolina Torres subiu ao palco para tentar degolar os músicos durante “Extinct”, segundo tema do mais recente álbum dos Moonspell. Em “Funeral”, Fernando Ribeiro transformou-se numa espécie de Carl McCoy, de chapéu e óculos de sol, e, em “A Dying Breed”, o guitarrista Ricardo Amorim fez cair sobre si uma chuva de confetti. Aparentemente mais desperto, o público respondeu bem a temas como “Breathe” e “The Last of Us”.

Prometendo voltar a Lisboa muito em breve, já com o novo disco na algibeira (que deverá sair perto do final do ano), Fernando Ribeiro desdobrou-se em agradecimentos já perto do final do concerto — aos lisboetas mas também aos vimaranenses. “Obrigada por fazerem parte da história dos Moonspell”, que já contam com 25 anos de carreira. “Não garantimos que duramos mais 25, mas estes ninguém nos tira.”

A maior salva de palmas de todas veio no fim, quando a banda se preparava para abandonar o palco depois de “The Future is Dark”. Só é pena que não tivesse vindo na altura certa .