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Além de ser um dos artistas de manga e anime mais influentes de sempre, Akira Toriyama, mais conhecido por ser o autor de “Dragon Ball”, é também um game artist de renome. E do portfólio invejável que construiu no mercado dos videojogos faz parte “Dragon Quest“, a sua série mais emblemática.

São já 31 anos para “Dragon Quest” e dezenas de jogos lançados entre o ramo principal deste mundo e os muitos spinoffs que foram nascendo, sempre com o talento do “grande mestre” Toriyama.

Não foi (nem é) apenas a distintiva estética de Toriyama que conferiu a “Dragon Quest” o estatuto de respeito que tem, mas acima de tudo o facto de esta série ter lançado quase todas as bases do que viria a ser o género dos JRPGs (Japanese Role-Playing Games), do qual “Final Fantasy” acabou por ser o standard para lá das fronteiras nipónicas. Representou o ponto inicial daquilo que foi uma interpretação dos RPGs tão em voga no Ocidente e os primeiros passos que estes davam no rudimentar mercado dos videojogos do início da década de 1980. “Dragon Quest” adaptou todos os elementos a uma linguagem própria, num entendimento japonês que se tornou um sucesso à escala global.

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Mas “Dragon Quest Heroes 2”, o recém-lançado spinoff desse verdadeiro filão de ouro da Square Enix, não é um jogo por turnos: está, aliás, muito distante disso. Longe da tática aprimorada que um JRPG usualmente exige,

Para percebermos “Dragon Quest Heroes 2”, que está já diponível em Portugal para PS4 e PC, temos de recordar outro nome pesado dos videojogos nipónicos com sucesso mundial: “Dynasty Warriors” ou Musou. Neste tipo de jogos a ação frenética e o esmagamento constante dos botões são a língua obrigatória, com os nossos heróis a derrotarem centenas de soldados inimigos em segundos, numa explosão de adrenalina e efeitos que transferem a sensação de heroísmo e omnipotência a qualquer jogador.

Ao contrário dos JRPGs em que a história é a espinha dorsal de toda a obra, neste estilo de jogo Musou dá-se primazia à ação versus a estratégia, com milhares de inimigos derrotados por nível, o que para muitos representa um género com pouca substância ou profundidade.

Dragon Quest Heroes 2” é o resultado desse casamento aparentemente impossível entre a história coesa e compassada de “Dragon Quest” e a linha “Musou”, trazendo o elenco e os monstros criados por Toriyama para dentro de um ambiente jogável onde os inimigos são quase formigas a serem esmagadas perante o poder avassalador do nosso protagonista.

Onde os RPGs por turnos (como os JRPGs) apostam num ritmo compassado, com um forte pendor estratégico e narrativo, Musou é o inverso: é irrefletividade e impulsividade, é o furor de carregar em botões e vermos as personagens aplicarem dezenas de golpes no ecrã, a submeterem à derrota centenas de inimigos de uma assentada, onde a recompensa e a diversão são imediatas, resgatando uma quase sensação de pureza videolúdica que as saudosas máquinas de arcadas possuíam — e ainda possuem, no Japão, onde sobrevivem.

Dragon Quest Heroes 2” é então o cruzamento de duas séries distintas e o melhor dos seus mundos: por um lado o estilo visual e a mestria artística de Toriyama enquanto concept artist, e a diversão e ação quase “desmioladas” de Musou, porque carecem de pouca ou nenhuma reflexão, utilizando apenas reflexos e instintos na jogabilidade.

O que jogos deste género trazem – e “Dragon Quest Heroes 2” não é exceção – é a satisfação imediata e descomprometida que o ato de jogar nos traz, no mesmo patamar de efusividade que um filme de domingo à tarde nos dá: não vai marcar qualquer mudança emocional na nossa vida, mas diverte. E por vezes basta isso.

Ricardo Correia, Rubber Chicken