Prestes a chegar ao mercado — o lançamento está marcado para 26 de outubro — a colaboração do designer libanês Elie Saab com a H&M vai ter sapatos produzidos em Portugal, revela Luís Onofre ao Observador, durante esta edição da ModaLisboa. O designer de calçado português é quem assume a confeção dos modelos, “dois ou três”, todos em pele, e que integram mais uma edição premium e limitada da marca de fast fashion.
“Já trabalho com a H&M há muitos anos e tenho feito desde a Jimmy Choo até agora praticamente todos os guest designers — um ou outro que não, porque eram dedicados mais a um estilo de sapato mais desportivo”, conta Luís Onofre, à margem da apresentação da sua coleção em nome próprio, com propostas para o próximo verão. “Neste caso da H&M serão dois ou três sapatos que são muito diferentes uns dos outros mas que exemplificam bem o ADN da marca Elie Saab”, explica ainda.
“É um desafio grande, porque temos de fazer pequenas quantidades para o mundo inteiro. Mas a verdade é que podem ir tanto seis pares para a China como podem ir quatro para os Estados Unidos ou dois para a Inglaterra”, conta o também presidente da APICCAPS (Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e Seus Sucedâneos). “O primeiro dia que eles abrem a coleção é para quem os comprar nas lojas. Não são destinados a ninguém em especial”, remata.
Na ModaLisboa, Luís Onofre trouxe uma coleção variada que vai das sandálias rasas ao salto alto, incluindo cores sóbrias, pele, verniz, aplicações 3D, trançados, metalizados e tons como o laranja ou o amarelo. “A temática foi a cor e, acima de tudo, as construções”, conta o designer, que optou por apresentar primeiro seis ou sete modelos de cada com o mesmo salto, mas diferentes abordagens. “Em cada construção fui buscar uma época. Desde os anos 70 até aos anos 2000, passando claramente pelos anos 80, aqueles saltos ao contrário da boca de sino, acabavam por ser um cone para o interior, terminando nos saltos extremamente finos e técnicos, passando também pelos flats, que é uma grande tendência para a próxima estação”.
Outra tendência para o verão, aponta Onofre, são as cores vivas, especialmente o amarelo. “Fazendo o multicolor da forma que fiz, acabei por relaxar um bocadinho, sem estar muito preocupado com o pandã, mas sim com a diversificação da cor. Ou seja, nada se repete a não ser o último look amarelo, um pandã perfeito, que é uma das coisas que acredito que vai funcionar mais no verão de 2027.”
A experiência de mais de 30 anos no setor do calçado dá a Luís Onofre a propriedade necessária para dizer o que é tendência quando o assunto é sapatos. O designer português tem sido um dos mais procurados em parcerias internacionais, impulsionadas pela estratégia da APICCAPS de juntar criadores de fora com a indústria portuguesa. Exemplo disso é a coleção recente que fez em colaboração com Henry Zankov, designer que é também diretor criativo da Diane von Furstenberg.
“O Zankov é alguém, como eu, muito parecido no aspeto da cor. É uma pessoa que brinca com a cor. Foi provavelmente um dos designers que eu melhor vi a conjugar as cores. Tanto no desfile que ele fez para a Diane von Furstenberg, como diretor criativo, como para o próprio desfile. Portanto, foi uma colaboração fantástica”, conta Luís Onofre, que começou o trabalho com Henry Zankov a partir de um modelo criado pelo pai, nos anos 1970. “É um modelo que é quase icónico da minha coleção. Ele adorou. E mudámos algumas coisas, principalmente os tons. Quando ele começou a fazer a paleta de cores, eu comecei a estranhar muito como é que iria ficar. Até eu tinha dúvidas disso. E, de facto, ficaram fantásticos”.
A colaboração com Zankov chegou ao público na última semana da moda de Nova Iorque, mas antes Onofre já tinha produzido para o desfile da Jacquemus em junho, e para Willy Chavarría em janeiro, que fez um pedido que o criador português considerou “complexo”. “Ele precisava basicamente que se notassem os dedos nos sapatos, na parte de cima. Então tivemos que recorrer a uma técnica 3D design com um material não tão duro. E foi um desafio técnico muito interessante, mas correu muito bem”, garante Luís Onofre, que defende que a indústria portuguesa é capaz de atender aos pedidos mais difíceis dos designers, por ser resiliente. “Como dizem os americanos, somos resourceful. Ou seja, nós temos recursos para ir buscar, para fazermos o quase impossível.”