É como se a gala dos Globos de Ouro fosse realizada num aeroporto. A fila para passar no raio X que exige o Museu do Tesouro Real a todos os que entram tem ares de red carpet. Carolina Loureiro, Isabela Valadeiro, Inês Castel-Branco: os nomes a que o público se acostumou a ver na televisão não param de chegar. O squad de famosas que em tempos lotou o Pátio da Galé, nesta edição desloca-se por um motivo importante. Se em março foi quem fechou, nesta edição Luís Carvalho teve o papel de abrir o fim de semana de desfiles da ModaLisboa.
O desfile off location da última sexta-feira, no Museu do Tesouro Real, no Palácio da Ajuda, serviu também de programação cultural/turismo para a imprensa local e internacional. Para este grupo a chegada foi feita num autocarro da Carris, seguido de uma visita guiada e encenada com o diretor do museu, Nuno Vale, e outras três personagens do século XIX, a revelar as joias da coroa.
Do lado de fora do “cofre”, com a parede dourada de pano de fundo, o designer de Vizela preparava-se para apresentar a coleção Wildflower, uma continuidade do universo da coleção de março, com memórias pessoais de infância, impulsionado por “uma fase nostálgica” que vem com as quase quatro décadas de vida.
▲ O desfile deu-se no corredor exterior do Museu do Tesouro Real, no Palácio da Ajuda
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
“Quando era miúdo costumava brincar em campos de flores e tenho mesmo essa imagem de apanhar flores, fazer colares e correr. Portanto é esta imagem, um bocado turva, que me levou ao estampado. A seguir começou a surgir o conceito todo à volta disso: pegar na flor e brincar com as laçadas nas camisas, nos bolsos, os próprios blazers na construção, com possibilidades muito mais descontraídas, muito mais fluidas. Todos os fatos perderam um bocadinho a estrutura e ficou tudo muito mais leve”, diz Luís Carvalho, já depois de apresentar as propostas para o próximo verão.
Esta abordagem pessoal traduz-se em fluidez nas construções habitualmente com maior rigidez, como é o caso da alfaiataria. “É brincar um bocadinho com a estrutura dos fatos e dos casacos, com os moldes, reinterpretar a maneira como aperto, como coloco os botões. Os ombros continuam largos, mas aperto a cintura, por exemplo”, explica o criador de moda, que apresenta uma coleção consistente e que respeita o próprio ADN, construído ao longo da última década, mas sem se repetir nas fórmulas.
Em contrapartida, também se viram silhuetas mais femininas e delicadas, numa paleta suave que transita entre crus, bege e cinzento até cores como o verde, o salmão ou o azul — e um padrão floral que voltou à passerelle desta edição na coleção de Gonçalo Peixoto. O trabalho em vestidos também é um ponto forte de Luís Carvalho, que costuma vestir um bom número de figuras públicas em galas nacionais e internacionais. Mas, quando o assunto é peças sob medida para cerimónia, a procura maior é, na verdade, masculina. “Continuo a fazer mais noivos que noivas. Muitos noivos vêm de fora para fazer fatos comigo, por isso é fixe perceber que o meu trabalho chega a pessoas lá fora”, diz o designer. “Só me procuram noivas que são muito mais específicas ou que querem uma coisa mais alternativa”, remata.
▲ O boné em prata, fruto da parceria do designer com a Topázio
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Para os acessórios, Luís Carvalho retoma a parceria bem-sucedida com a Topázio, que resultou em peças como a gravata em prata que já se encontra à venda. Agora, entre as coroas de flores e brincos — uma abordagem “um bocadinho mais comercial”, assume — há também um boné. “É um objeto que, quando somos meninos, todos nós usamos”, explica. “É diferente do design de joias. É uma folha plena de prata, e eles martelam, num trabalho manual, portanto é fixe trazer esse lado artesanal também para a coleção.”