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NOS Alive

The Weeknd: é para isto que se pagam balúrdios a um cabeça de cartaz

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O canadiano que é uma estrela maior da pop mundial fez o circo que se esperava na primeira noite de NOS Alive. Ryan Adams salvou o rock'n'roll. E os The xx continuam a fazer tudo bem.

É para isto que se pagam balúrdios aos cabeças de cartaz. Há uma função a cumprir e não há espaço para reclamações. Há sucesso a cantar e eles aparecem. The Weeknd, nome impróprio para fechar um palco principal numa quinta-feira, nome certo para garantir a festa que se espera num primeiro dia que teve outros bons sucessos previsíveis e alguns episódios mais mornos que, ainda assim, não magoaram. É a vida a acontecer e que bonito que é.

O rapaz estrela (fica-lhe bem, vá lá, não se aborreçam com o nome) começa com “Starboy”. Só podia. Tudo o que nos aparece pela frente parece a MTV como já não há. Produção no máximo, com o indivíduo a não perder tempo até esgalhar aquele “I’m good I’m good I’m great”, verso tramado da canção “Party Monster”. O casaco certo, a pose certa, as vezes que conta “1, 2, 3, 4 agora saltem”. O palco é todo dele, esta multidão é toda dele. O refrão está decorado. E no meio da maralha há dança de tamanha qualidade que merecia estar no palco.

Ao vivo, The Weeknd (já agora, o nome do canadiano é Abel Makkonen Tesfaye) mistura e bem o que faz no disco, mas tudo mais alto, tudo maior, circo a mais para uns, exatamente o que era preciso para outros. Para todos, é mel de cama com a pose de ghetto blaster. É uma receita vencedora e ele sabe-o. Quis isto o tempo todo. Quer isto desde que começou em jeito R&B meio indie, sem se atirar às feras como faz agora. “Mas explica lá isso do agora.” Muito bem. Agora vai pedindo, uma e outra vez: “bounce bounce bounce”. Quando há uns anos passou pelo Primavera Sound, num palco secundário, era outro fim de semana que cantava. A lenga lenga mudou e agora é vê-lo com todos os jeitos de patrão, chefe de sala, dono do bairro. Ele que em 2016 foi o 15.º músico mais bem pago, de acordo com as listas da Forbes.

Atira “6 feet under” e dá ordens: “When this beat drops I want every motherfucker to go crazy”. Não era preciso tanto, oh The Weeknd… mas tudo bem, já que foste por aí, vamos também. Rimas sobre “them girls”, sobre dólares e mais dólares. Canções sobre aquele carro e sobre aquela noite na cidade, mais as coisas que ele tomou e que não devia. Talvez tenha ido longe de mais, diz ele. Do lado de cá parece que tudo faz sentido. Há um papel a cumprir, ninguém quer ver um gajo bem comportado, ninguém quer. E ele não é (ou pelo menos não parece, perguntem à Selina).

E segue em ritmo de clubbing. Há uma banda em palco que às tantas soa a DJ set. Será? Não será? Bom, é verdade que isto é um baile de rufias, são canções de engate atrás de canções de engate. É o macho a ser alfa com alguma boa educação, mas não muita. Porque se tem de existir uma canção só para se poder cantar “pussy poppin’”, então que venha “Often” (e “pussy poppin’” aqui é o mais educado que há).

“You got me touchin on your body”. Ele é um sacana e dedica canções às #safadeusas. Diz que só está a tentar amar mas deixa algumas dúvidas no ar. Mas enfim, ele pode, ele afinal é o starboy no meio disto tudo. “Gostas da maneira como uso a minha língua?” A pergunta foi ele que a fez e era disto que estávamos a falar.

The Weeknd exagera, é um exagerado em tudo. Diz que morria por Portugal. Sabemos que não é verdade mas ainda assim… É um bom esforço. Tudo isto pouco antes de oferecer o hit que entregou ao filme “50 Sombras de Gray”. O artista pediu ajuda, a malta respondeu com telefones no ar. Faz sentido.

“I can’t feel my face”? Check. Festança? Check check. “I Feel it Coming com o toque dos Daft Punk? Tudo isso. Ali perto alguém está sentado, aquela última cerveja não correu bem. Pois até ela baila, dentro do possível, ao som deste “quem me dera ser o Michael Jackson”. Não vai dar, caro Weeknd, aí não chegas. Mas onde estás, estás bem. Há dúvidas? Ele regressa para um encore com fogo. Com fogo, sim.

Mas e além do rapaz estrela?

Ah, tanta coisa. Ryan Adams, por exemplo. Ryan Adams salvou o rock’n’roll. Trouxe guitarras e amplificadores, cabelos compridos e ganga por toda a parte. Trouxe canções de amor mascaradas de noites bem bebidas, as referências de sempre a Springsteen, à América menos óbvia e à outra. Foi de Nova Iorque ao velho Oeste, atirou-se à guitarra e atirou-se de joelhos para o chão. Pediu desculpa por Trump e provou que é o maior. É mesmo: Ryan Adams é o maior (e tocou “Let it Ride”, o malandrão).

[leia aqui mais sobre o concerto de Ryan Adams:]

Já agora, neste campeonato do rock também se safaram os Royal Blood. Certo, certo, as canções são de outra onda, a emoção não se descobre da mesma maneira (na verdade, mal se descobre), mas segue tudo em modo “máquina oleada”. Não é necessariamente bom como não é necessariamente mau. No final, muitos elogios de quem sabe as músicas todas na ponta da língua.

[leia aqui mais sobre o concerto de Phoenix:]

Curioso: foi mais ou menos o que aconteceu com os Phoenix. Eles não falham, nada disso. Mas também não encantam lá muito. Têm canções boas mas boas — “Lisztomania”, “Lasso”, por aí — mas depois têm as outras, que vão atrás das pegadas já feitas. Ninguém pode censurar esta escolha, não é crime nem pecado, mas depois em palco a diferença nota-se. Foi apenas OK, e OK não é KO, que costuma ser algo bem mais interessante (e o som não ajudou… nada).

Valha-nos aquela maravilha chamada The xx. Portugal já os recebeu sete vezes desde 2010. A relação entre a banda e o país podia ter ficado monótona, rotineira, presa nas armadilhas das uniões longas. Mais de uma hora de concerto depois, é fácil concluir que não. Romy, Oliver e Jamie agradecem-nos “por todo o amor” que sempre lhes demos. Se dizem sem rodeios “amamos esta cidade” e “estávamos ansiosos por este concerto”. E se, além de palavras ditas, incluem nas cantadas os clássicos “Crystalised”, “VCR” e “Islands”, as novas, como “Say Something Loving” e “Dangerous”, e as do meio, como “Chained” e “Angels”.

[leia aqui mais sobre o concerto de The xx:]

E Alt-J? 2013, 2015 e 2017. Ouvir “Matilda” no Passeio Marítimo de Algés já é praticamente um evento bianual e não cansa. Mas, esta tarde, quando o concerto estava a explodir, levámos uma tampa. Já lá vamos. Em 2013, o público cantou o hino neste mesmo festival, num palco secundário demasiado pequeno para o hype que havia em torno do trio britânico. Cantaram bem alto “this is for Matilda”, por cima do timbre tão característico de Joe Newman. Hoje também, e a partir daí é que a coisa começava a aquecer. “Fitzpleasure” caiu que nem ginjas — An Awesome Wave, claro. “Left Hand Free” capitalizou os ganhos conseguidos até aí, “Breezeblocks” deu a machadada final em qualquer resistência de espírito. Estávamos prontos para a entrega total ao concerto, e eis que ele termina quando parecia que estava mesmo, mesmo a começar. Isto aqui, sabem o que foi? Uma pena.

[leia aqui mais sobre o concerto de Alt-J:]

Os outros palcos, rapaziada

Por exemplo: Karlon e aquela morna, aquele batuque, aquela coladera transformada em hip hop. O criôlo a mandar nas rimas, as ancas a comandar o resto, um beat feito de ginga que sacudiu, abalou e enganou a hora de jantar. Isto horas antes de Batida, a tropa de Pedro Coquenão que de Angola vai para toda a África e depois para o todo o mundo. Em concerto tudo se perde numa enorme confusão. E se na maior parte dos casos isto é terrível, com os Batida é a melhor das sortes. Era perguntar quem por lá andava.

Isto passou pelo Clubbing. No palco Heineken houve outras histórias, umas menos interessantes outras mais. Das primeiras, os Blossoms. O vocalista tem um ótimo cabelo. O teclista tenta, mas ter o cabelo comprido não é a mesma coisa. Vêm todos de camisa, menos o baterista, que faz questão de arregaçar as mangas da T-shirt quase até aos ombros. Manias, nada contra. Então e a música? Enfim. Está ali entre os Phoenix, que haveriam de tocar a seguir, e uns Tame Impala aborrecidos. Têm um ótimo sotaque da zona de Manchester e isso dá sempre pontos. Mas no palco não se passa muito. Por isso cantam “tonight we can get away” com a mesma vontade de fugir como a de quem faz canções sobre espécies raras de pássaros.

Na parte mais entusiasmada estiveram os Bonobo, uma máquina certeira de eletrónicas para grupos de bom gosto. Bonobo é na verdade Simon Green e quando o nome de um grupo ou “projeto” pertence só a uma pessoa, a coisa tende a correr bem. Porquê? Sabe-se lá porquê. E isso agora interessa assim tanto? Mas falávamos em Simon Green. Mostrou como se leva a palco um disco desta categoria: com vocalista, bateria, duas guitarras, teclado e três instrumentos de sopro, 8 em palco. Sozinho sim, mas sempre não. E como isto é um festival a ideia foi ótima. Nota: The Weeknd estava tão alto que há quem se queixe que o som se ouvia no palco secundário, onde tocava Bonobo. Nós não ouvimos, é possível que tenha acontecido, mas isso não mudou nada.

E não esqueçam o Coreto. Nunca esqueçam o Coreto. Basta recordar dois momentos: Doutorado Pro e Riot. Ambos a seguir um princípio de África digitalizada, ambos a mostrar que aquele espaço, bem pequeno, pode ser muito mais que um suporte contra o aborrecimento durante as pausas dos outros concertos. Isso é que não.

De um lado o Tejo, do outro um mar de gente

Há um triângulo das bermudas no recinto do NOS Alive. Junto das casas de banho principais fica, de um lado, o caminho para o palco principal e, do outro, a passagem para todos os outros palcos. Por vezes é desesperante querer chegar a um concerto ou ir à casa de banho e saber que teremos pela frente um amontoado de gente, cada um a querer seguir a sua direção. Comparando com o primeiro grande festival do ano, o NOS Primavera Sound, é difícil não concluir que o espaço do NOS Alive é demasiado pequeno para acolher tanta gente. 55 mil pessoas por dia em Algés, 30 mil a Norte.

No final do concerto de The Weeknd, o chão estava forrado de plástico.

Outra lamentação que já fizemos o ano passado e que voltamos a fazer: é desolador olhar para o chão no final do primeiro dia do NOS Alive e ver milhares de copos de plástico e garrafas de água no chão. Mesmo estes sendo “biodegradáveis, feitos à base de ácido poliláctico, um componente de origem 100% vegetal”, que se decompõe mais depressa, informou a organização. Há festivais que já adotaram os copos reutilizáveis, a medida funcionou bem e o ambiente agradece. Pontos positivos: com o vento que esteve, os tapetes relvados no chão valem ouro.

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