Quando o Arsenal se mostrou irredutível em relação à saída de Bellerín, o Barcelona avançou para o seu plano B: Nélson Semedo. Na quarta-feira, também com Jorge Mendes, o empresário do jogador, ao barulho, o acordo com o Benfica ficou próximo; ontem, quinta-feira, uma delegação de três dirigentes dos catalães (Javier Bordas, Robert Fernández e Raúl Sanllehí) veio a Lisboa, onde se encontrou com Luís Filipe Vieira, presidente dos encarnados, e Nuno Gaioso, administrador da SAD, numa unidade hoteleira da capital. Valdir, ex-jogador que pertence hoje à Gestifute de Jorge Mendes, também esteve presente.

O negócio ficou fechado por 30 milhões de euros, com mais cinco de variáveis. E foi esta última parte que gerou mais notícias na Catalunha esta sexta-feira: de acordo com o diário Sport, uma das cláusulas diz respeito ao número de jogos realizados pelo lateral, neste caso 50. Mas há mais: o Barcelona marcará presença numa futura edição da Eusébio Cup e o Benfica terá, durante três anos, preferência nos blaugrana que saiam.

Nélson Semedo chegou esta manhã à Catalunha para fazer exames médicos, após os quais ficou formalizado o acordo entre Barcelona e Benfica que, mais uma vez, consegue faturar mais de 100 milhões em vendas: antes do lateral, tinham saído Ederson (Manchester City, 40 milhões) e Lindelöf (Manchester United, 35 milhões). O que nos leva para uma outra temática: como se faz nos dias de hoje a negociação de uma grande transferência?

O Indepedent publicou esta semana extenso trabalho a tentar decifrar todos os passos para um grande negócio no futebol dos nossos dias com a ajuda de Jake Cohen, advogado que participou em alguns dos maiores acordos nos últimos tempos. E tudo se pode resumir a seis grandes ideias.

A diferença entre o que deve ser e o que é

Há três grandes negociações em qualquer transferência: a negociação entre o clube vendedor e o clube comprador; a negociação entre o clube comprador e o clube vendedor com o empresário do jogador, a propósito das condições oferecidas ao atleta; e a negociação entre o clube comprador e o agente.

Às vezes não parece, mas existem regras. Por exemplo, um clube que queira comprar um jogador só poderá abordá-lo depois de alcançar acordo com a equipa onde está a jogar, algo que nem sempre (ou muitas vezes) não é cumprido, sobretudo porque o agente do atleta, estando ao corrente da situação, avança logo para o passo seguinte. A quebra dessa cadeia pode originar problemas como aconteceu com o central holandês Van Dijk, que ficou no Southampton depois de ter sido abordado várias vezes por responsáveis do Liverpool, inclusivamente o técnico Jurgen Klopp, que se terá encontrado com o central. Os reds pediram desculpa pelo sucedido.

Porque é que o WhatsApp é tão usado nas conversas?

De acordo com o advogado ouvido pela publicação inglesa, há cada vez mais agentes e administradores de SAD’s que preferem utilizar o Whatsapp para fazerem as negociações. “Em 2017, é uma ferramenta indispensável para a transferência de muitos jogadores”, adianta o Independent. E porquê?

É mais fácil do que enviar emails, pode criar-se um grupo, tem a indicação se o recetor viu ou não a mensagem, é funcional e pode ser usado em qualquer parte do mundo. Mas não é só: a publicação descreve o exemplo de um alto executivo de um clube que começou recentemente a trabalhar num outro país (Antero Henrique, será ele?) e que mudou de email, de número e de telemóvel mas não de contacto no Whatsapp. Ou seja, nunca perde o rasto à rede de contactos que vai criando com o tempo.

Os agentes que começam a fazer o jogo a três

Mino Raiola é o mais recente super agente do mundo do futebol, quiçá o único capaz de rivalizar com o português Jorge Mendes nos últimos anos. Foi o italiano que intermediou o maior negócio de sempre – a venda de Paul Pogba, da Juventus para o Manchester United, por 120 milhões de euros – e a recente saída de Lukaku também para Old Trafford. E este terá sido uma situação quase única em termos de negócio.

Segundo conta a publicação, Raiola representou Lukaku nas negociações com o clube comprador, o Manchester United, mas também teria uma procuração dos red devils para negociar com o Everton, o clube vendedor. Apesar de haver um claro conflito de interesses, a verdade é que começa a ser comum encontrar este tipo de situações nos maiores negócios que são feitos no mundo do futebol.

A antecipação ou o adiamento das transferências por causa do 1 de julho

O mercado de transferências só abre oficialmente a 1 de julho. Que é como quem diz, só a partir de 1 de julho é que se podem inscrever jogadores para a temporada seguinte, neste caso a de 2017/18. Mas, nesse caso, porque existem negócios que são anunciados oficialmente em maio ou em junho, como a transferência de Bernardo Silva para o Manchester City?

A saída de Fàbregas do Barcelona para o Chelsea, em 2014, é um bom exemplo. O acordo foi selado ainda em junho, porque os catalães, tal como todos os clubes europeus, têm o seu exercício entre 1 de julho e 30 de junho. Assim, conseguiram acabar a temporada de 2013/14 com contas positivas. Mas há sempre outros aspetos em consideração: como o acordo dos blues com a Adidas terminava a 30 de junho de 2017, o central alemão Rudiger só foi confirmado no Chelsea a 1 de julho para ter a camisola da Nike, a nova marca de equipamentos dos londrinos.

Os mitos das camisolas e do trabalho dos managers

Jake Cohen aproveita a conversa com o Independent para desfazer dois mitos latentes do mundo do futebol: os negócios com as camisolas e o papel dos managers.

Mito 1: contratar um jogador faz disparar as contrapartidas financeiras a nível de receitas por causa da venda de camisolas. Falso, pelo menos na realidade inglesa. Porquê? Porque os acordos com as grandes marcas no futebol envolvem um valor fixo (grande, como os 75 milhões de libras que a Adidas paga por ano ao Manchester United) e as contrapartidas pela venda de equipamentos geram apenas 10% a 15% para os clubes, o que não é assim tanto como se poderia pensar numa realidade que envolve milhões e milhões. Mito 2: os managers é que negoceiam as contratações. Só em parte é verdade. Porquê? Porque o valor salarial é acordado com responsáveis ou administradores do clube e não com os managers, que definem apenas até onde se pode chegar pelo passe do jogador sabendo qual é o orçamento para contratações que tem.

Como contabilizar uma transferência e as cláusulas de rescisão

O exemplo de Lacazette é utilizado para explicar como se contabiliza a contratação de um jogador, num raciocínio importante para perceber a forma como os clubes se vão adequando às regras de fair-play impostas pela UEFA (e que foram notícia este ano devido à penalização que o FC Porto sofreu por parte do órgão europeu).

O passe do avançado custou 53 milhões de libras. Mas o que aparece desde logo no exercício do Arsenal da temporada 2017/18 não é 53 milhões mas sim 10,6 milhões, o equivalente a esse valor total dividido pelas cinco épocas de contrato. Mas há mais valores para serem contabilizados: o ordenado fixo, os direitos de imagem, o prémio de assinatura e algumas cláusulas de objetivos (jogos, golos, troféus etc.). No caso do francês, estamos a falar de um valor a rondar as 200 mil libras por semana (em Inglaterra o salário é pago semanalmente e não de forma mensal, como em Portugal). Assim, contas por alto, o valor do negócio será de 22 milhões de libras por época e não apenas os 53 milhões globais que se falaram aquando da passagem do Lyon para o Arsenal.

O Independent termina o artigo com as cláusulas de rescisão. No caso da Premier League, há muitas alienações que são feitas ficando contratualizado que os jogadores não poderão depois voltar a serem vendidos a clubes ingleses; no exemplo das equipas portuguesas, fala-se de cláusulas do triplo ou do quádruplo do valor caso o atleta ingresse num dos adversários diretos do clube vendedor em primeira instância.