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Diogo Francisco foi pai de uma menina há menos de 24 horas e nem o impacto da greve de enfermeiros lhe apagou a felicidade que traz estampada no rosto. Ainda assim, não deixou de referir o seu “lamento”.

Não estão a ser dados os cursos às mães para explicar a amamentação e o primeiro banho foi ela mesma a dar, quando normalmente são as enfermeiras”, relatou ao Observador, ao início desta tarde.

“Os médicos é que são porreiros e estão a ajudar”, rematou, contando que ontem à noite, antes de a greve ter início (às 24h00), os enfermeiros andavam a justificar-se perante os pais, explicando que não subiam na carreira, nem eram aumentados há muitos anos. Se, por um lado, Diogo Francisco diz perceber as razões que movem os enfermeiros nesta paralisação, por outro, lastima “que os serviços estejam a ser afetados e que sejamos nós a pagar”.

Ao seu lado, à porta da Maternidade Alfredo da Costa (MAC), em Lisboa, Nelson Borga, que leva umas horas de avanço no que toca à paternidade, ia concordando, e confirmou que também a ele e à mulher lhes foi dito que “não haveria aquele curso que normalmente é feito para explicar a amamentação porque não os enfermeiros estavam em greve”.

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Não está a haver assistência à mãe nem aos bebés, como era suposto”, queixou-se Nelson Borga.

Já Vânia Teixeira, grávida de 18 semanas, foi à MAC a uma consulta de alto risco marcada para as 12h30 e só foi vista às 15h00. “A rececionista avisou-me logo que, por causa da greve, estava tudo atrasado. E assim foi, 2h30 à espera porque só estava uma enfermeira no serviço de triagem e normalmente são duas”. Experiência diferente tiveram João Correia e a mulher. Na consulta de diabetes na gravidez “hoje, em particular, não sentimos nada”.

Mas nem por isso deixaram de se mostrar preocupados com a situação e aproveitaram a ocasião para revelar o desabafo da médica, durante a consulta.

Disse-nos que estão a sentir bastante as falhas no serviço, mas já há 15 dias e que a situação já está a chegar a um extremo”, contou João Correia.

Alguns minutos mais tarde, e num outro hospital da capital — o Hospital D. Estefânia –, Ana Santos, acompanhada do filho, só ficou a saber pelo Observador que havia greve de enfermeiros. A consulta de desenvolvimento estava marcada para as 15h00 e às 15h50 já estava a cruzar o portão da saída. Também Maria não deu conta da paralisação. Foi a uma consulta de urologia “que envolveu cuidados de enfermagem e correu tudo bem”.

Passando para o Rio Tejo para a Margem Sul, pelas 17h00, tudo aparentava estar muito tranquilo no Hospital Garcia de Orta, em Almada, tal como no Hospital Santa Maria, depois de a concentração de centenas de enfermeiros vestidos de negro ter terminado.

Enfermeiros. Centenas em protesto frente ao Hospital de Santa Maria

À porta do serviço de urgência do Garcia de Orta, vários doentes referiram o facto de haver pouca movimentação de enfermeiros, mas sem conseguir explicar se era por causa da greve ou de ainda haver gente de férias. E João António, que aguardava novidades da mulher que partira um pé, a única referência que ouviu à greve foi feita por um médico que disse que o melhor era avançar com uma operação mas que “por causa da greve dos enfermeiros podia ser só na próxima semana”.

Já à porta da Urgência Pediátrica, duas mães garantiram que não deram pela greve durante o dia. E Alzira (nome fictício), internada no serviço de Nefrologia, que tinha ido à rua apanhar ar fresco, também disse estar “tudo a correr bem”.

Mas a verdade é que nem tudo terá corrido bem e o impacto de uma greve destas é muito difícil de aferir ouvindo apenas as pessoas que saem do hospital. Disso mesmo deu conta um médico que estava na hora de pausa e que falou ao Observador, sob anonimato. Explicou que no seu serviço foram adiados exames e análises, “o que adia todos os tratamentos” e outro tipo de cuidados, dificilmente mensuráveis, como o levantar dos doentes das camas para os cadeirões não estavam a ser assegurados aos doentes.

Outra enfermeira do serviço de Medicina contou ao Observador que no seu serviço, assim como na urgência, a adesão à greve foi de 100%. E explicou que, se durante a noite o impacto não é tão notório pois os serviços mínimos da greve funcionam com o mesmo número de enfermeiros que estão habitualmente escalados para a noite, o mesmo não aconteceu durante o dia. O mesmo contaram ao Observador três enfermeiros, de serviços diferentes, do Hospital de Santa Maria. Houve serviços, inclusive, em que foi necessário fazer sorteio para escolher os enfermeiros que ficariam a assegurar os serviços mínimos, pelo menos no horário da manhã.

A isso juntam-se várias publicações em grupos fechados de enfermeiros no Facebook que mostraram, ao longo do dia, enfermeiros em greve em vários hospitais, bem como denúncias de hospitais que estariam a pressionar funcionários como dizer que mesmo os que estejam a cumprir serviços mínimos, em greve, levariam falta injustificada. Foi o caso do Hospital de Setúbal. Depois desta comunicação, ao que parece, na urgência, a adesão subiu para os 100%. O hospital não comentou números.

Sindicato fala em adesão de 85%, Governo fica em silêncio, hospitais admitem impacto

Segundo o Sindicato dos Enfermeiros que, juntamente com o Sindicato Independente dos Profissionais de Enfermagem (SIPE), marcou esta greve de cinco dias, a adesão à greve na manhã desta segunda-feira rondou os 85% em todo o País, com especial impacto nos blocos cirúrgicos e nas consultas externas, a que se juntaram várias concentrações de enfermeiros de norte a sul.

O Observador procurou saber junto do Ministério da Saúde qual a adesão à greve, mas o Governo mantém o princípio de não comentar números de greves. O mesmo aconteceu com as Administrações Regionais de Saúde que ou não responderam ou responderam reencaminhando para os hospitais. Dos contactados, apenas o Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa avançou com um número: 30%.

Hoje, 11 de setembro, o nível de adesão à greve no IPO Lisboa foi de cerca de 30%. Ainda assim, o Instituto conseguiu assegurar o funcionamento de todos os serviços, incluindo o bloco operatório”, declarou o gabinete de comunicação daquela instituição, admitindo que “é provável que consultas ou cuidados menos urgentes possam ter sido adiados”.

Também o Centro Hospitalar Lisboa Central (que inclui a MAC e a Estefânia) respondeu que se notou “efetivamente, algumas ausências de profissionais de enfermagem em alguns serviços”.

Já o conselho de administração do Centro Hospitalar Lisboa Norte (que inclui o Santa Maria) respondeu dizendo que “entende dever informar, a bem da verdade dos factos e não contribuir para a desinformação pública, que está a cumprir com irrepreensível rigor e bom senso a legislação e que não existe registo de qualquer situação de conflito entre profissionais e chefias de enfermagem, prevalecendo o interesse público e a prestação de cuidados essenciais aos doentes”, mas sem avançar com números.

Alexandre Lourenço, presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH), confirmou ao Observador que a greve “está a ter impacto em termos de cancelamento da atividade” mas que “hoje estava à espera de mais impacto, por exemplo, ao nível da urgência e não percebemos grande impacto”. Cenário diferente se verificou ao nível das cirurgias, onde houve “cancelamentos”, mas porque “bastará faltar uma pessoa para a cirurgia, em princípio, ser cancelada”. O maior problema, sublinhou, é que “não nos podemos antecipar a esta greve adiando ou antecipando consultas, exames e cirurgias, e o transtorno para os utentes é maior também”.

A greve que se iniciou à meia noite desta segunda-feira e que se estende até sexta-feira foi considerada irregular pelo Governo por, segundo o Ministério do Trabalho, não ter sido entregue o pré-aviso de greve com 10 dias de antecedência. O presidente do Sindicato dos Enfermeiros, José Azevedo, e o SIPE não baixaram os braços e mantiveram a greve.

Os enfermeiros reivindicam a introdução da categoria de especialista na carreira de enfermagem, com respetivo aumento salarial, bem como a aplicação do regime das 35 horas de trabalho para todos os enfermeiros.

O Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP) não se juntou à greve porque diz que estavam marcadas reuniões para estes dias, uma das quais com o ministro da Saúde, já com a apresentação de uma proposta de acordo, que tem lugar já esta terça-feira e que foi preparada juntamente com o primeiro-ministro, conforme noticiou a Lusa esta segunda-feira.