Não foi pontualidade britânica mas quase: às 14h33, Jaime Marta Soares, presidente da Mesa da Assembleia Geral, deu início à reunião magna que decidirá o futuro de Bruno de Carvalho na liderança do Sporting, anunciando que já estavam no interior do Pavilhão João Rocha 4.000 pessoas, naquele que será um dos encontros mais participados do clube. Explicadas as formalidades do costume, foi também destacado que esta sessão era uma nova e não uma continuidade da que tinha acontecido no Multidesportivo de Alvalade no dia 3, contrariando as afirmações que tinham sido proferidas no final da primeira assembleia geral pelo próprio Jaime Marta Soares.

“A falta de calma levou ao desrespeito entre alguns sócios e quisemos acalmar a situação. Temos de dizer e não tenho medo das palavras: o momento esteve quente, mas sem ultrapassar os limites do bom senso. Numa alteração estatutária vem sempre ao de cima o calor dos que desejam e não desejam. A assembleia ficou suspensa, mas será retomada e acabaremos por concretizar, com os votos dos sócios, a reforma estatutária. Aquilo que pudemos constatar é que foi respeitada religiosamente a liberdade dos sócios. Tenho pena de não termos atingido todos os pontos, mas a vida democrática é assim”, comentou então o líder da Mesa da Assembleia Geral.

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Ultrapassado esse ponto, com a aprovação por esmagadora maioria da ata dessa reunião magna de dia 3 (apenas três votos contra), seguiu-se o discurso inaugural de Bruno de Carvalho. Um discurso que começou com uma tirada que apanhou os presentes desprevenidos: “Chamei a esta intervenção ‘Porque vou votar não a tudo'”.

“Não sou eu que retiro o foco do que se passa no futebol português em casos que denunciei como os vouchers, os emails ou os jogos para perder”, comentou o presidente do Sporting, numa primeira fase de muitos pontos a explicar o raciocínio inicial mas com um item comum: o ataque a todos aqueles que o foram criticando nos últimos tempos, inclusive José Roquette, antigo líder do clube, para quem teve as palavras mais duras. “Representa tudo o que de errado existe neste país, com casos gravíssimos de justiça, ou de não justiça. Recordo as palavras que João Rocha, que o acusou de pensar que o Sporting era uma operação fácil como o Totta, onde ganhou numa operação ilegal 20 milhões de contos sem sequer pagar impostos. Sou populista com muito orgulho, porque fui eu que me afastei das elites, dos grupos e dos grupinhos para dar a voz aos sócios e adeptos do Sporting”, destacou.

Sérgio Abrantes Mendes e Pedro Madeira Rodrigues já tinham sido abordados, Paulo Pereira Cristóvão, João Pedro Paiva dos Santos, Carlos Severino ou Carlos Seixas foram de seguida. No entanto, e pela primeira vez, Bruno de Carvalho esticou a corda e foi mais longe, visando outras pessoas e temas como nunca tinha feito.

Alguns exemplos? A forma como considerou “consciente” o tweet da página PS quando escreveu “assustador” em reação à frase “Eu não sou daqueles que dorme com um olho aberto, quando durmo tenho os três olhos fechados”; as críticas a Rogério Alves, antigo presidente da Mesa da Assembleia Geral do clube, com questões deixadas no ar como “Por que não fala dos almoços e jantares que nunca cessam porque este é clube do bota-abaixo constante? Por que se quer manter como o Dom Sebastião do nosso clube e não afirma de uma vez por todas que quer ser presidente do Sporting e que tudo fará para o conseguir?”; ou as acusações ao antigo treinador verde e branco Marco Silva, “que foi despedido do Olympiacos, desceu de divisão uma equipa que gastou milhões, foi despedido do Watford e disse aos jornalistas que nunca o ia despedir do Sporting, mas que seria ele a fazer com que os sportinguistas me despedissem a mim”.

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“Cresci com João Rocha como presidente de referência e tenho-me mantido fiel. Se fosse vivo, estava aqui, do meu lado e sei que nos dávamos bem porque tive o prazer de falar com ele várias vezes sobre o Sporting”, destacou ainda, numa fase onde criticou os “discursos infelizes” de Maggy Rocha, filha do “eterno presidente” dos leões, e os ataques vindo dos elementos mais velhos e da fundação da claque Juventude Leonina (os “vets”).

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“Quero relembrar que um dos motivos que ia fazendo cair a reestruturação financeira foi os bancos acharem que podiam dizer-me que não permitiam fazer o pavilhão. Estes órgãos sociais, e eu em particular, merecemos respeito e confiança. Recordo o que disse numa assembleia geral no mandato anterior: estou disposto a dar o meu tempo, a minha vida e a minha alma ao Sporting, mas têm de estar comigo. Nos últimos dois anos tive duas hipóteses: ou me juntava aos interesses ou a vocês. Escolhi juntar-me a vocês. É tão válido hoje como era há dois anos”, concluiu no discurso inaugural de uma reunião magna que tem o Pavilhão João Rocha, o que faz com que quem chegue nesta altura a Alvalade seja conduzido até ao piso 3 do Multidesportivo.