O recorde foi alcançado por uma pintura de Paula Rego, intitulada “Cortesão”, com data de 1981. A base de licitação começava nos 60 mil euros e foi exactamente esse o preço pago por um colecionador cuja identidade não foi revelada.

O leilão de arte contemporânea que decorreu quarta-feira à noite na Veritas Art Auctioneers, em Lisboa, teve o particular interesse de incluir dezenas de obras da colecção privada de Isabel Vaz Lopes, a mesma que o Museu do Chiado acolheu até 2017 e que entretanto foi dali retirada pela coleccionadora.

A hasta abrangeu 160 lotes de diversas proveniências, mas o leiloeiro Igor Olho-Azul, responsável pela Veritas, preferiu não revelar com precisão quantos, ou quais, tiveram origem na colecção Isabel Vaz Lopes. Cerca de três dezenas, sugeriu (ver galeria de imagens no topo da página). “Cortesão”, de Paula Rego, pintura de acrílico sobre papel, assinada e datada no verso, terá sido um dos lotes da colecionadora privada. A leiloeira também não divulgou o nome do comprador, mas disse que se tratou de um arremate através de ordem de compra, ou seja, uma manifestação de interesse que deu entrada antes de o leilão ter acontecido.

Outros preços altos foram atingidos na quarta à noite, como seja o caso de um óleo sobre tela de Júlio Resende, “Caminhantes”, de 1950, comprado por 55 mil euros. “Uma peça desafiante, porque durante algum tempo apareceram no mercado muitas obras de Júlio Resende”, comentou Igor Olho-Azul. “Esta tem a particularidade de pertencer a uma fase especial do pintor, a fase do Alentejo, e por isso é procurada por colecionadores mais informados.” O comprador foi um português com muitos anos de colecionismo, sobretudo de antiguidades.

Outros preços de martelo elevados:

  • fotografia de Helena Almeida, intitulada “Desenho”, de 1999 – 40 mil euros (10 mil acima da base de licitação máxima);
  • “Autoportrait”, de Maria Helena Vaz da Silva, criado em 1931 – 24 mil euros;
  • fotografia de Cindy Sherman, sem título, de 1989 – 30 mil euros;
  • um guache de 1923 assinado por Robert Delaunay20 mil euros; o mesmo preço de um guache de 1916 de Sonia Delaunay (marido e mulher);
  • uma jarra em cerâmica vidrada, com 29 centímetros de altura, do escultor açoriano Canto da Maya4200 euros (mais três mil do que o preço-base máximo).

Aquém do interesse do público ficaram obras de Pedro Cabrita Reis (aguarela “Land #8”), Alberto Carneiro (escultura “E a Cerejeira Floriu”), José Pedro Croft (escultura em ferro e vidro, sem título, de 2009) , Mário Cesariny (um acrílico sobre madeira, assinado, com desenhos e poema no verso) ou Joana Vasconcelos (estátua com crochet “Valbom”). Não se venderam, ainda que Croft, por exemplo, tenha tido compradores para obras em papel.

“No geral, o leilão correu-nos muito bem”, avaliou Igor Olho-Azul, em conversa com o Observador no fim da sessão. “Com pena, não foram vendidas algumas peças que consideramos relevantes, mas já contávamos à partida que tivessem essa dificuldade acrescida. São peças difíceis para coleccionadores particulares, pela escala, mas boas para instituições, que infelizmente não têm possibilidade de as comprar”, justificou.

Tratou-se do leilão número 74 da Veritas, casa fundada há sete anos em Lisboa. Iniciou-se às nove da noite, em ponto, e durou 90 minutos, com cerca de uma centena de pessoas a assistir, além dos habituais representantes de interessados via telefone e da participação através da internet.

Pelo percurso que tem feito no tema da arte moderna e contemporânea, a Veritas tem cultivado um público muito específico, extremamente bem informado, muito exigente, que nos desafia a manter leilões com consistência”, comentou Igor Olho-Azul. “Temos também um público que novo, que está a aprender e ainda não tem tanta informação sobre arte contemporânea.”

Acerca das obras de Isabel Vaz Lopes, o leiloeiro não entrou em detalhes. Disse que “as pessoas detentoras desta coleção já têm uma relação de confiança” com a Veritas. “Na falta de uma capacidade por parte do museu de adquirir as peças, a alternativa foi colocá-las em venda pública e nós fomos o canal para essa venda.”

As obras em causa, quase 50, foram cedidas por protocolo ao Museu do Chiado, em 2003, quando era diretor Pedro Lapa, que viu nelas a oportunidade de “aprofundar alguns núcleos” do acervo do único museu público de arte contemporânea. Porém, no ano passado, Isabel Vaz Lopes, que começou a construir a coleção em 1987, entendeu que “o Estado não se preocupou em ampliar o espaço para o próprio museu poder ter mais acervo”, como declarou ao jornal Público. E não quis renovar o protocolo de cedência. O Museu do Chiado, sob direção de Aida Rechena, considerou a coleção “importantíssima”, mas rejeitou a compra na totalidade por presumível falta de dinheiro.

Os lotes que ficaram por vender no leilão da Veritas vão manter-se disponíveis por mais algum tempo e se, mesmo assim, não obtiverem interessados podem voltar a hasta pública na mesma casa ou noutra leiloeira.