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Antes das luzes da ribalta iluminarem os melhores artistas da sétima arte, o lado lunar dos Óscares regressa ao palco. Os Razzies, nome dado aos prémios Framboesa do Ano, desvendaram quais foram as piores criações do cinema na opinião dos jornalistas, dos cinéfilos e dos internautas que vagueiam pelo site Rotten Tomatoes. Mas nem sempre Óscares e Razzies andam de costas viradas: na verdade, até chegam a funcionar mais ou menos como um Yin-yang. Já houve 70 filmes que foram nomeados para ambos os prémios no mesmo ano. E um venceu os dois no mesmo fim de semana.

Uma pesquisa avançada no site da base de dados IMDB é o que basta para desvendar o único filme que venceu o pior prémio da sétima arte para logo a seguir ser galardoado com uma estatueta dourada. “Wall Street”, o filme de 1987 realizado por Oliver Stone, valeu a Michael Douglas o Óscar para melhor ator principal, mas também valeu a Daryl Hannah o Razzie para pior atriz secundária.

A juntar-se a esta odisseia de insólitos está também Sandra Bullock. No mesmo ano, a artista norte-americana venceu o prémio de pior atriz principal pelo papel desempenhado em “Nada Mais Que Steve”, mas também levou para casa o Óscar de melhor atriz pela interpretação no filme “Um Sonho Possível”. O Razzie em nada feriu Sandra Bullock, que até manifestou interesse em recolher o odioso prémio quando soube que estava nomeada.

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Depois de ganhar e de entregar cópias de “Nada Mais Que Steve” a todas as pessoas do público, Sandra Bullock brincou: “Nunca me tinha apercebido de que, em Hollywood, tudo o que tinha de fazer era dizer que iria aparecer para receber um prémio. Se soubesse disso, teria dito que ia aparecer nos Óscares há muito tempo”.

Como Bradley Cooper, com quem contracenou no filme, também ganhou o prémio de pior ator no mesmo ano e pelo mesmo filme, Sandra Bullock aproveitou a ocasião para dar uma descasca aos membros da academia que escolhem os vencedores dos Razzies:

“Vocês escolheram-nos aos dois porque acham que fazemos de casal amoroso no filme. Isso só prova que nunca viram ‘Nada Mais Que Steve’ porque a história é a de uma perseguidora e isso, na verdade, não se encaixa bem na premissa de um casal amoroso”.

Depois do discurso passivo-agressivo, Sandra Bullock foi-se embora:

“Estou a faltar a um jantar do Jeffrey Katzenberg para estar aqui, mas tenho de ir andando porque, sabem… é o Jeffrey Katzenberg e é basicamente dele que depende se volto a trabalhar ou não”.

Na noite seguinte, Sandra Bullock ganhou o Óscar de melhor atriz por “Um Sonho Impossível” e não fez nenhuma referência ao Razzie que tinha recolhido no sábado anterior. Mas entrou diretamente para a curta de lista de pessoas que apareceram na cerimónia de entregas do prémio — a primeira delas a ser Bill Cosby em 1988 para receber os galardões de pior filme, pior ator principal e pior guião com “Leonard Part 6”; e a mais recente a ser Dinesh D’Souza no ano passado com “Hillary’s America”.

Nem a música escapou ao duelo entre as duas estatuetas mais famosas — para o bem e para o mal — de Hollywood. “I Don’t Want To Miss A Thing”, uma canção dos Aerosmith que fez parte do filme “Armageddon”, foi nomeada em 1999 para o Óscar de Melhor Canção Original mas também para o Razzie de Pior Canção Original. A música prometia: foi nomeada não só para a estatueta dourada mas também para dois Grammy (melhor canção e melhor performance vocal), para um MTV Video Music Award e para um Prémio Billboard. Só que não ganhou nenhum deles: os Aerosmith só levaram para casa um Razzie.

Não houve ressentimentos, ainda assim: “I Don’t Want To Miss A Thing” tornou-se marcante no percurso da banda ao conquistar o primeiro lugar na lista Billboard Hot 100 durante quatro semanas. Mas a história em redor da canção ainda se adensa mais: é que a música foi originalmente composta por Diane Warren, que no álbum Diane Warren Presents Love Songs admitiu que “I Don’t Want To Miss A Thing” estava pensada para ser interpretada por Céline Dion. Plot twist: foi precisamente Céline Dion quem ganhou o Grammy de canção do ano com “My Heart Will Go On”, de “Titanic”.

Os dois lados da barricada voltaram a confrontar-se com “Con Air — Fortaleza Voadora”, que também foi indicado para um Óscar de melhor canção original e para um Razzie de canção original pelo tema “How Do I Live” de LeAnn Rimes. Mais uma vez, a compositora Diane Warren só levou para casa o pior prémio de todos. O filme “A Vida É Assim” passou pelo mesmo insólito com a canção “Life in a Looking Glass”, mas apesar de ter sido nomeada para os dois galardões, não mereceu nenhum deles.

Algo parecido aconteceu no filme “O Caça-Polícias II”, a história de um agente que investiga um esquema de cartões de crédito falsos quando descobre que um dos parceiros morreu baleado. Eddie Murphy viu a carreira disparar graças a este filme, mas há mais para contar sobre ele: foi nomeado para Melhor Canção Original com a música “Shakedown” de Harold Faltermeyer e Keith Forsey e Pior Canção Original com a música “I Want Your Sex” de George Michael. Só venceu o Razzie: o Óscar foi entregue a “(I’ve Had) The Time of My Life” do filme “Dirty Dancing – Dança Comigo”.

A sina repetiu-se com “O Guarda-Costas”, mas novamente por canções diferentes: o filme mereceu duas nomeações aos Óscares por melhor canção original com “I Have Nothing” e “Run To You”, mas também mereceu uma nomeação para os Razzies com “Queen of the Night”. Não ganhou nenhum deles.

Prince — sim, Prince — também foi apanhado de surpresa no filme “Purple Rain” de 1984: embora tenha sido nomeado para um Óscar de melhor canção original, o artista também desagradou a Hollywood com a canção “Sex Shooter”, escrita por ele mas interpretada por Apollonia 6. Ainda assim, teve mais sorte do que os outros artistas: levou o Óscar para casa e o Razzie ficou para “Drinkenstein” de Sylvester Stallone e Dolly Parton.

https://www.youtube.com/watch?v=aEm5nkUxGL4

Estas são apenas algumas das histórias em redor dos 70 filmes que foram nomeados para os Óscares e para os Razzies no mesmo fim de semana. O mais recente de todos foi “Esquadrão Suicida”, que foi nomeado para o Óscar de Melhor Maquilhagem e Penteados e para dois Razzies — um de pior ator secundário pela interpretação de Jared Leto e outro para pior argumento. Nenhum deles foi entregue ao filme de David Ayer, uma sorte que “50 Sombras de Grey” não teve: é que a nomeação para melhor canção original com “Earned It” de The Weeknd não chegou a lado nenhum, mas arrecadou uns impressionantes cinco Razzie para piores atores principais, pior casal e pior argumento. De todas as nomeações para os Razzie só não venceu uma: o realizador Josh Trank de “Quarteto Fantástico” conseguiu ser pior do que Sam Taylor-Johnson.