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O Miguel Pinheiro já está conosco para uma nova edição do Bom, Mau e o Vilão. Olá, Miguel, bom dia.

Bom dia.

Bom dia. O teu bom é o primeiro-ministro.

Sim, ontem Luís Montenegro fez uma comunicação ao país sobre o bónus das pensões e a redução do IRS. Esta forma de fazer as coisas é muito criticável. Dar presentes de Natal aos reformados que ficam dependentes da boa vontade dos governantes ou decidir baixas do IRS conforme há ou não moções de censura no Parlamento, tudo isto é muito criticável, mas eu estou a pôr o primeiro-ministro no bom, porque ele usou ontem argumentos muito eficazes ao responder às críticas do PS e do Chega de que deveria estar a fazer mais. Luís Montenegro disse, temo-lo ouvido também aqui nos noticiários, que não troca mais medidas por mais défice ou mais dívida, disse que recusa entrar num leilão de medidas e lembrou os tempos da troika. E ao fazer isso, reclamou para si o slogan das contas certas e tentou colocar o atual PS e o Chega ao lado daqueles que quase levaram Portugal à bancarrota. E é uma estratégia que funciona. Aqui o meu ponto é só esse.

Sim, pra quem tem memória muito presente, isso funciona, certamente.

Certo, sim. Quem se lembra daqueles bons velhos tempos da troika, não é?

É verdade. Uma diversão.

Miguel, o teu mau quer que se faça uma coisa proibida.

Olha, é uma história muito caricata. O mau é José Luís Carneiro. Perante a subida de preços, o PS apresentou um projeto no Parlamento que defende expressamente a redução do IVA dos combustíveis de 23% para 13%. É a proposta do PS: redução do IVA. Segundo os socialistas, esta é a forma certa de impedir que as pessoas paguem mais. Agora, só há um pequenino problema: é que a União Europeia proíbe esta redução do IVA. E aliás, o governo de Pedro Sánchez, de que José Luís Carneiro gosta tanto, avançou com essa medida e depois recuou. E confrontado com isto, o que o PS diz? Diz o seguinte: "Sim, é verdade, nós apresentamos lá uma coisa no Parlamento a defender que o governo deve baixar o IVA, mas isso não é sério. Realmente a Europa proíbe, mas essa coisa que nós apresentamos é só uma proposta, não obriga o governo a fazer nada. Se ela for aprovada, o governo a seguir é que tem de arranjar maneira de baixar os preços correspondente àquela redução do IVA, que não pode fazer, mas tem que arranjar de outra maneira." Aliás, diz o PS, o governo devia adotar a mesma estratégia de António Costa, que quando era primeiro-ministro pediu autorização a Bruxelas para baixar o IVA e depois da nega, desceu apenas o ISP. Mas se é assim, por que o PS não propõe antes a descida do ISP? Por que insiste em pedir a descida do IVA? Bem, esta parte o PS não diz, mas respondo eu, é fácil, porque obviamente fica muito mais no ouvido falar em redução do IVA, até porque como o governo nunca fará isso, será sempre possível continuar a criticá-lo. Mesmo que o governo faça alguma coisa no ISP, o PS pode sempre dizer: "Então e o IVA? Não baixam?" E isto é José Luís Carneiro a adotar como política aquele célebre sketch de Ricardo Araújo Pereira sobre a posição de Marcelo Rebelo de Sousa no referendo do aborto. Vocês lembram-se de certeza. Nesse sketch, Ricardo Araújo Pereira fazia de Marcelo e estava sempre a repetir a frase: "É proibido, mas pode-se fazer". E aqui é igualzinho. O PS defende a redução do IVA. E o que José Luís Carneiro diz? "É proibido, mas pode-se fazer." Na realidade, ele até diz: "É proibido, não se pode fazer, mas eu peço na mesma." Enfim, se o José Luís Carneiro acha que o levam a sério com isto, olha, boa sorte.

Acho que isso parece tudo mesmo um sketch. Estou sempre à espera de ouvir a claquete a dizer: "Ok, corta. Está bom sim."

É que eu não sei se o José Luís Carneiro percebeu, mas eu posso só aqui explicar. É que o Ricardo Araújo Pereira quando fez isto, ele é humorista.

Ah, claro.

Pronto, não é?

Isso são detalhes.

Ele é humorista, ele não é um político. Portanto, depois um político copiar um humorista quando vai pedir votos, não sei, se calhar resulta.

Pode resultar.

Eu não sou o secretário-geral do PS. O José Luís Carneiro é que percebe de política, não sou eu.

Miguel, só falta o teu vilão, quem é?

É o presidente da República. Ontem António José Seguro falou sobre os resultados desastrosos dos alunos portugueses, que foram conhecidos no relatório do PISA. Como se lembram, nós recuamos 20 anos na capacidade pra ler e fazer contas. É, 20 aninhos. E o presidente ontem apelou a uma reflexão séria e ação. Mas, na realidade, quando nós vamos ler nas entrelinhas, ele não quer reflexão nenhuma, porque uma reflexão séria implica uma análise implacável sobre aquilo que foi mal feito. Só que António José Seguro tem horror a isso. Deus nos livre de fazermos uma coisa dessas. Ele diz que não quer dois campos que se acusam mutuamente de todos os males, porque esse é o debate errado. Ora, com certeza que ninguém é responsável por todos os males. Isto é uma caricatura. Agora, aquilo que não há dúvida é de que há dois campos. Um campo quer a escola a formar, por exemplo, médicos competentes e outro campo quer a escola a formar médicos que acima de tudo sejam felizes, pra recuperar a expressão do Bloco de Esquerda. Um campo acha que a exigência e os exames fazem parte de uma aprendizagem eficaz. O outro campo acha que os exames só trazem um estresse desnecessário às criancinhas. Um campo quer avaliar as escolas pra perceber quais são as melhores, quais são aquelas que estão a implementar melhores práticas, e o outro campo acha que fazer isso é discriminar. E por aí adiante. Portanto, há dois campos, sim, senhor, e convinha sabermos, já agora, se fosse possível, em qual deles está o presidente.

Pois, ficar ali no meio pode ser muito confortável, mas se calhar não ajuda, não é?

Não sei, ô Paulo. É confortável. No banco de trás de um carro, alguém quer andar no meio?

Pronto, posto assim, está bem.

Não é? Portanto, não sei, mas enfim. Temos um presidente pra nos dizer o que pensa. Portanto, vamos a isso, caro presidente, não tenha receio, diga-nos o que pensa.

Vamos ao resumo. O bom desta sexta-feira é o primeiro-ministro, o mau é José Luís Carneiro e o vilão de hoje é o presidente da República. São as escolhas do Miguel Pinheiro no episódio que daqui a pouco também fica disponível em podcast.