Título: “Instantâneos”
Autor: Claudio Magris
Editora: Quetzal

Romancista e ensaísta, autor habituado a prosas longas e verbos distendidos, Claudio Magris oferece-nos aqui pequenos textos aos quais dá o nome de “instantâneos”, anotações de ocorrências, vivências, observações em poucas linhas. Poder-se-ia dizer, em contexto digital, que este seria o blogue de Claudio Magris se o escritor italiano, autor de Danúbio, fosse dado às plataformas da internet. Um registo, entre os anos de 1999 e 2016, que parte muitas vezes do quotidiano para se tornar noutra coisa – numa reflexão ou sobre História ou sobre cultura ou sobre a condição humana. É natural que aqui haja irregularidade nas virtudes das entradas deste pequeno dicionário imperfeito. A mesma que existe num blogue. Um sentido da contingência do projecto.

Se há algo que fica do conjunto é a reflexão sapiente e serena, feita de camadas, do escritor a quem é atribuída a criação do conceito de Mitteleuropa. Perpassa aqui, de forma orgânica, o cânone diverso de leituras que fez na sua formação, revelado no primeiro texto de “Alfabetos”, conjunto de ensaios editado em 2013 pela Quetzal. Aí se escreve:

“Na literatura há muitas moradas e não é necessário escolher ideologicamente entre vozes contrastantes; pode-se — e deve-se — crer a um tempo na fé de Tolstói e na inércia de Oblomov”.

São citados Chesterton, Buda, Jesus, Paul Valéry, Bernanos, Charles Louis Philippe, Jorge Luis Borges, Karl Kraus, Rilke. O ecletismo de tradições culturais assumido por Magris — que o ajudou a compor a sua própria ideia sobre o mundo — e a diversidade dos seus interesses estão presentes neste álbum de polaroids literárias.

A importante cidade do Império Austro-Húngaro, Trieste, cidade onde nasceu (em 1939) e hoje vive, é cenário recorrente. Logo no primeiro texto, “A Pomba e a Águia Bicípite”, a acção descrita passa-se no jardim público de Trieste e inclui uma ave destratada por um conjunto de pombos. É um dos textos mais violentos e misteriosos do conjunto — tal como, certamente não por acaso, o último, “Selfie”. No segundo texto o protagonista é um taberneiro da mesma cidade, que comenta uma guerra na qual participou sem saber bem de que lado estava. Num texto muito mais adiante intitulado “À beira-mar”, acrescenta-se à cidade um cruzamento aos já conhecidos:

“Trieste não é apenas uma encruzilhada entre o Este e o Oeste, tal como informa uma das suas descrições, mas também entre o Norte e o Sul, entre a melancolia escandinava de certos poentes de inverno e a vitalidade meridional do verão”.

O lugar a partir do qual Magris ainda sonha com uma Europa como único Estado e os países como regiões.

O menu de assuntos e seus pretextos é variado. Vai de um desfalecimento num encontro literário até às declarações de um banqueiro alemão que se envolve com a viúva de Willy Brandt. De uma conversa com o marchand Leo Castelli, “grande senhor da velha Europa” até ao questionamento da “oficialidade do sexo” no contexto dos convites para congressos. Da leitura da frase “Esquece as cores!” numa parede defronte de uma casa onde James Joyce morou até ao retrato de um jurista adormecido. Da descrição da dignidade ganha por Ida, mulher de um estalajadeiro, após a morte do marido (belo texto este, intitulado “Depois falamos”) ao declínio do urinol em Trieste. Da crítica à nova censura cultural, “sempre bem-intencionada”, à brevíssima meditação sobre a circunstância de a mulher e a filha de Thomas Mann se terem furtado ao gesto de incomodar o escritor, concentrado no seu escritório, com a notícia do início da Segunda Guerra Mundial.

Também há humor nestas páginas. Um dos mais surpreendentes e divertidos textos do conjunto é “Uma Multidão para Ninguém” e envolve um matemático dedicado a estudos especializados que, convidado para dar um curso anual no Collège de France, beneficiou de plateias com pessoas que guardavam lugar para conferências de Roland Barthes. Durante um ano falou para uma “multidão transbordante totalmente desinteressada nele”. Uma situação absurda que segue para umas notas sobre todas aquelas conferências em que nada entendemos mas que nos oferecem a ilusão de que conseguimos entender o malabarismo de “metáforas contorcidas”. Noutro instantâneo, “A zona balnear dos famosos”, é contado um episódio no qual uma mulher pergunta se o cão que o escritor passeia se chama Jackson. “Ao ouvir a minha resposta afirmativa, a senhora retorquiu: ‘Então o senhor deve ser o Claudio Magris’”.