É oficial e impossível de ignorar: “O Jardim” de Isaura e Cláudia Pascoal não impressionou a Eurovisão. Depois da vitória de Salvador Sobral em Kiev, no ano passado, que trouxe pela primeira vez o festival a Lisboa, Portugal chegou ao fim da 63ª edição do concurso em último lugar, numa tabela de 26 países. Metade dos pontos foram atribuídos pelos jurados de 42 países, a outra metade pelos televotos que começaram assim que a última atuação terminou. Israel ficou em primeiro lugar e venceu a competição com a música “Toy”, de Netta.

Mas vamos às contas que nos dizem respeito. A pontuação dada pelo público não foi descriminada, logo, não há forma de saber que países contribuíram para os míseros 18 pontos que Portugal arrecadou. Um número partilhado com a vizinha Espanha, com a diferença de que a música e Amaia e Alfred trazia 43 pontos da votação do júri, enquanto nós, apenas 21. O número 18 foi, aliás, a segunda pontuação mais baixa atribuída via televoto. Abaixo disso, só mesmo os 9 pontos atribuídos à Austrália.

© João Porfírio/Observador

No caso dos pontos dados pelo júri de cada país, aí já fica mais fácil personalizar, que é como quem diz de ver quem são os verdadeiros amigos e de cultivar aqueles ódios de estimação. Comecemos pelos primeiros. Contra todas a expectativas, foi o júri da Lituânia o que deu a Portugal o maior número de pontos, 7. Logo a seguir, a Irlanda, com uma esmola de 6 pontos. Estónia e Suíça contribuíram com 3 pontos cada um e, por fim, os dois pontos dados pela Holanda que, só por acaso, até foram os que nos inauguraram o contador. Portugal partiu para a contagem dos televotos em penúltimo lugar, apenas à frente da Ucrânia, que de 11 pontos passou para 130, aproximando-se do meio da tabela.

Curioso foi também o facto de, durante a comunicação dos votos do jurí de cada país, três dos representantes falarem português. Da Suíça, não surpreende, mas da Austrália e da Finlândia nem por isso.

Quadro com as classificações finais desta edição da Eurovisão

Esta não é a primeira vez que Portugal rapa o fundo da tabela da Eurovisão, tão pouco o resultado mais humilhante da comitiva portuguesa na Eurovisão. Em 1964, em Copenhaga, “Oração” de António Calvário chegou ao fim com zero pontos. Dez anos depois, no Reino Unido, foi a vez de “E depois do adeus”, de Paulo de Carvalho, bater no fundo, com apenas 3 pontos. E como se os zero pontos de 64 não tivessem sido suficientes, ainda repetimos a proeza em 1997. Célia Lawson foi a Dublin e levou a canção “Antes do Adeus”. Voltou de mãos a abanar.

Terminada a final deste sábado, nenhuma das concorrentes portuguesas prestou declarações. No Instagram, Cláudia Pascoal felicitou a vencedora israelita. Isaura usou a mesma rede social para dizer: “Foi um prazer e um orgulho gigante representar Portugal. Obrigada por tudo!”.

Um ano depois de conseguirmos a melhor classificação de sempre na Eurovisão (Portugal participa na Eurovisão desde 1964, precisamente), os esmagadores 758 pontos que deram a vitória a “Amar pelos dois” de Salvador Sobral, viemos por aí abaixo. Ganhar uma edição do concurso com uma balada em português já foi meio milagroso, usar a mesma fórmula para tentar ganhar uma segunda já parece meio arriscado. Portugal passou do 8 para o 80, ou melhor, do 758 para o 39.

[Veja no vídeo quem é Netta Barzilai, a vencedora da Eurovisão]