Mundial 2018

Dez anos depois, o final da supremacia: a Rússia como ponto de partida e de chegada da era espanhola

Depois de conquistar a Europa por duas vezes e o Mundo por uma, a Espanha caiu nos oitavos de final do Mundial, aos pés da anfitriã Rússia. O que mudou na seleção espanhola entre 2008 e 2018?

Getty Images

Autor
  • Fábio Ferreira Lima

Lembra-se daquela Espanha dominadora, que encantava só de ver jogar? Aquela que antes de entrar em campo já era favorita, que antes de marcar já levava vantagem? Essa Espanha revolucionou o futebol, marcou uma era, melhor, criou a sua própria era: dois campeonatos da Europa e um do Mundo conquistados em quatro anos não estão ao alcance de todos ou quase nenhuns. Pois é, essa Espanha era de facto um espetáculo de ver, um hino ao futebol. Más notícias: pode esquecê-la, essa Espanha acabou.

La Roja chegou a este Mundial como uma das principais favoritas à conquista da competição e um dos mais temidos adversários, fosse pelo seu currículo, pelos nomes que apresentava ou pela qualidade coletiva que se perspetivava ser possível demonstrar quando se junta Iniesta, David Silva, Busquets, Koke, Asensio, Isco, entre outros pequenos génios. A verdade é que as coisas começaram mal e nunca se chegaram a endireitar para uma formação que muito prometeu mas pouco cumpriu.

Fernando Hierro bem que deu indicações, mas nada funcionou. O técnico espanhol que entrou na seleção de rompante vai ter de mostrar ter mãos para segurar ‘La Roja’ . Ou isso, ou sacar de um truque de magia (Photo by Stu Forster/Getty Images).

Lopetegui deu o pontapé de saída – literalmente, já que bateu com a porta na véspera da estreia espanhola no Mundial – para o desaire do país vizinho. Hierro assumiu as rédeas, mas não teve unhas para tocar uma guitarra que, de há alguns anos para cá, tem-se mostrado cada vez mais desafinada. A estreia até podia ter sido pior, já que o empate a três com Portugal deixava tudo em aberto na fase de grupos. Esperavam-se facilidades frente a Irão e Marrocos, mas, neste caso, quem esperou rapidamente desesperou. Frente ao Irão, valeu um golo solitário de Diego Costa para levar a Espanha a bom porto, mas, contra Marrocos, o barco espanhol quase afundou: não fosse o VAR a validar um golo no último minuto da partida e a Espanha teria passado em segundo do grupo. Algo impensável se recuarmos dez anos, não?

Em 2008, a Espanha limpou a fase de grupos do Europeu e só parou na final, onde bateu a Alemanha; em 2010, novo primeiro lugar no grupo e uma caminhada que só terminou com o golo de Iniesta, o mais importante dos espanhóis em mundiais, que valeu o título de dono do Mundo; dois anos depois, no Europeu da Ucrânia/Polónia, a Espanha caminhou, caminhou e na final goleou os italianos por 4-0, tornando-se bicampeã europeia.

Ora, dez anos mais tarde, tudo mudou. Bem, nem tudo. E isso ainda torna mais estranho o eclipse espanhol, iniciado em 2014, no Brasil. Num grupo com Holanda, Chile e Austrália, La Roja terminou em terceiro e ficou pelo caminho; seguiu-se o Euro 2016, onde a Espanha chegou até aos oitavos para cair aos pés da Itália, numa derrota por 2-0. E o Mundial 2018, onde tudo se podia ter recomposto, mas onde acabou por se confirmar mais um descalabro espanhol, às mãos da anfitriã Rússia, nas grandes penalidades.

O ciclo pode ter acabado, mas o futebol tem destas ironias e esta não pode passar despercebida. Sabe qual foi o primeiro jogo da Espanha no Euro 2008 que deu início ao domínio espanhol na Europa e no Mundo? Espanha 4-1 Rússia. Pois é, parece de propósito, mas não é. Os russos foram o ponto de partida de uma era que terminou, dez anos depois, na Rússia, frente à seleção anfitriã. Desse jogo de 2008 ficam Sergio Ramos, Iniesta e David Silva; foi-se toda uma forma de jogar ou pelo menos o seu resultado mais prático: as vitórias.

Iniesta e Piqué já anunciaram que não continuarão ao serviço da seleção espanhola depois deste Mundial. A renovação na Espanha estará à porta e talvez esta seja a melhor altura para a fazer. Fechou-se um ciclo de supremacia, uma era de domínio global. O que virá agora? Hierro o dirá. Mas alguma coisa terá de mudar se a Espanha quiser voltar a dominar, encantar e… vencer.

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