“Há alguma forma de assistir ao jogo dos Wolves hoje?”. A mensagem deixou Chris Wright, diretor do clube da MLS Minnesota United, de boca aberta. Do outro lado do telemóvel estava um representante da entidade que gere o futebol americano, que falava em nome de Gareth Southgate, selecionador inglês. O técnico estava prestes a viajar para o outro lado do mundo para assistir à final da Super Bowl e queria aproveitar para assistir ao encontro da NBA entre os New Orleans Pelicans e os Minnesota Timberwolves, marcado para a noite anterior: 3 de fevereiro.

Chris Wright tinha trabalhado 26 anos no clube de basquetebol e conseguiu um lugar para o compatriota na bancada. Mas não se pense que Southgate estava ali para se divertir; estava ali para trabalhar. Por essa altura, já preparava o Mundial da Rússia – o tal onde uma equipa britânica renovada com jovens vai dando cartas – e levava um propósito bem definido: estudar ao máximo as movimentações do basquetebol para os aplicar à seleção inglesa. O quê???? É isso mesmo. E já vai perceber que o plano passou à ação – e com bons resultados.

O selecionador estava particularmente intrigado com o espaço que as equipas norte-americanas criavam à volta dos cestos e com a forma como se usavam os bloqueios a defender e a atacar – os pick-and-rolls e os off-ball screens, na linguagem basquetebolística. Não deixou de fazer perguntas o jogo todo: queria entender como se criavam espaços no processo ofensivo, como os defesas protegiam o cesto… tudo. O selecionador inglês acreditava que podia aplicar esses movimentos, sobretudo, às bolas paradas, um item ao qual tem dedicado todo o amor e carinho neste Mundial – ou melhor, o adjunto Allan Russell, a quem Southgate delegou a tarefa de os estudar exaustivamente. Só para se ter uma ideia, dos 11 golos que a Inglaterra apontou na prova até ao momento, oito foram de bola parada (quatro de canto, três de penálti e um de livre). O que, por si só, já é toda uma nova página na realidade britânica: a seleção tinha apontado apenas quatro golos desta forma nos três Mundiais anteriores juntos.

Mas aposto que já está cansado de teoria. Passemos, então, à prática. No lance seguinte, que deu origem a um dos seis golos apontados pela Inglaterra ao Panamá na fase de grupos (6-1), é possível ver o esqueleto de um esquema de basquetebol, o bloqueio nas costas (back screen): Kieran Trippier apontou o canto, Henderson e Sterling abandonaram o centro da área em direções opostas enquanto a bola estava no ar, à entrada Ashley Young fez o bloqueio ao defesa, levando-o consigo e abrindo espaço para John Stones para cabecear livremente para o golo.

Um Mundial decidido nas bolas paradas

Se olharmos bem para o percurso inglês, vemos bem o peso das jogadas de laboratório. Na estreia da fase de grupos, frente à Tunísia, Harry Kane marcou dois golos na sequência de cantos – um deles já nos descontos, evitando um empate embaraçoso. Na já falada goleada ao Panamá, dos seis golos ingleses um foi de canto (já o vimos acima), outro na sequência de uma jogada estudada e outros dois de penálti (um deles assinalado na sequência de um pontapé de canto). Não admira, por isso, que nos oitavos de final a Colômbia estivesse bem alerta para a estratégia britânica: marcações durinhas e guerra na área a cada bola parada – que mesmo assim não evitaram um golo marcado de grande penalidade pelo suspeito do costume, Harry Kane. Foi, aliás, nos penálties que a seleção inglesa carimbou o passaporte para os quartos de final, fazendo as pazes com os 11 metros.

Mas o mais surpreendente é que as bolas paradas não foram decisivas apenas para a Inglaterra. Afinal, este é o Mundial da estratégia, mais do que do futebol de posse, bem jogado. E além da formação britânica, também a Croácia e a França, por exemplo, podem agradecer aos lances estudados grande parte da presença nas meias finais. O caso croata é diferente do britânico: não podemos dizer que as bolas paradas sejam parte primordial da estratégia de Zlatko Dalic, mas, sempre que foram necessárias, a eficácia estava lá, na ponta das botas (ou da cabeça). Vejamos o caso dos quartos de final com a Rússia; depois do teimoso empate a um nos 90 minutos, Vida quase matou os anfitriões do coração com um golo de canto no prolongamento. Que não foi suficiente para os croatas respirarem de alívio, já que a Rússia aplicou a mesma receita quatro minutos depois e o jogo teve mesmo de decidir-se nos penáltis.

Este Mundial tem um caso de amor com as grandes penalidades

Passemos agora à França, outro semi-finalista, que também se adiantou no marcador frente ao Uruguai… de bola parada. Mais concretamente num cabeceamento de Varane, na cobrança de um livre. Já a Bélgica foi o único que não precisou do laboratório nos quartos de final — neste caso, frente ao Brasil – mas, lá para trás, mais concretamente nos oitavos, precisou e de que maneira. Quando a equipa de Roberto Martínez foi ‘apertada’ pelo Japão e já perdia por 2-0 no início da segunda parte, o selecionador mudou a estratégia, procurando as bolas paradas para inverter o marcador. Assim foi: Vertonghen e Fellaini marcaram de canto e empataram o jogo – permitindo a Chadli fazer o 3-2 num contra-ataque.

Resumindo, 26,6% dos golos do Mundial nasceram no laboratório. Até esta altura, marcou-se um golo a cada 24,2 cantos e 21,8 faltas perto da área. Para ter uma ideia (e poder fazer comparações), o rácio de cantos é de 36,7 na liga espanhola e de 33,6 na Premier League.

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