Cultura

Vimos o primeiro episódio de “Elite”: não é “A Casa de Papel”, mas vai correr bem

No início do ano, meio mundo ficou rendido com “A Casa de Papel”. Espanha ataca outra vez via Netflix, desta vez com “Elite”, série de crime/drama. Lembra-se de Rio e Denver? Eles também voltaram.

Autor
  • André Almeida Santos
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Num artigo publicado nesta semana na Vanity Fair, Taylor Antrim fala de como “Elite”, a nova série espanhola que acaba de estrear na Netflix, é a sua nova obsessão trashy europeia; ou, para se ser mais refinado na descrição, série adolescente europeia. Compreende-se: o ritmo e as interpretações das séries espanholas dão aquele ar “mais-novela-do-que-série” para os norte-americanos (daí o trashy). E não resiste a comparar a “The O.C.”. A comparação vale, mas o olhar europeu sobre “Elite” pode apurar comparações: é uma combinação mortífera entre “Gossip Girl” (outra criação de Josh Schwartz, autor de “The O.C.”) e “Big Little Lies”, série da HBO estreada no ano passado, criada por David E. Kelley e com Reese Witherspoon, Nicole Kidman e Laura Dern.

Por partes: o que é “Elite”? Criação de Darío Madrona e Carlos Montero, que no currículo têm outras séries para adolescentes com alguma popularidade em Espanha, centra-se no dia-a-dia de uma escola de elite, Las Encinas, e no eterno confronto entre classes ricas e pobres. Para os ricos, aquele é o seu habitat; os pobres, que conseguem ir para lá estudar através de uma bolsa, são um corpo estranho em constante conflito interno com o seu sentimento de pertença.

Existem dois tempos na série (essa é uma das semelhanças com “Big Little Lies”): um no presente, onde se investiga um crime (outra das semelhanças) e se interroga as várias personagens da série sobre a morte de uma das estudantes; e outro no passado, sobre o início do ano escolar e a entrada naquela escola de elite de três jovens que conseguiram bolsa — Samuel (Itzan Escamilla), um rapaz com boas intenções que vive à sombra do irmão, Nano (Jaime Lorente, o Denver de “A Casa de Papel”), que tem um passado duvidoso e aquela raiva de puto pobre; Nadia (Mina El Hammani), uma muçulmana que vive entre a tradição, família e as tentações daquele novo ambiente; e Christian (Miguel Herrán, o Rio de “A Casa de Papel”), que está pronto para ser abençoado pelo pecado.

No primeiro episódio o cenário é bem montado. Há crime, confronto social, personagens que fazem coisas estúpidas (ou adolescentes) só porque sim, drogas, sexo, linha narrativa de “A Dama e o Vagabundo” (é aí que começa a tocar em “Gossip Girl”, não pelo cliché da coisa, mas plea forma como o faz) e putos ricos insuportáveis dispostos a brincar com as pessoas para levar avante as suas obsessões (elemento bem copiado do Chuck de “Gossip Girl”).

É percetível, rapidamente, que “Elite” é mais do que uma série adolescente, vem carregada com o guilty pleasure de enfiar o mundo adulto num universo de menores, com a elegância de um enredo de segunda divisão da HBO mas com a luxúria visual e o apetite carnal de Jason Schwartz: Schwartz foi muito criticado, a propósito de “Gossip Girl”, por mostrar a sensualidade – mais do que a sexualidade – dos adolescentes tal como ela é.

Essa é uma vitória de “Elite”, tangível nos primeiros episódios: não é gratuita. É elegante nas suas obsessões, esquiva no modo como encontra o seu próprio caminho. De certa forma, é fácil de a comparar com “A Casa De Papel” na forma como bebe descaradamente das suas influências, mas fá-lo com a segurança de um produto novo. E num mundo limitado como a representação de uma certa adolescência — mesmo que os nossos olhos comam mais essa adolescência da ficção do que da realidade –, é difícil brincar ao novo com convicção. “Elite” consegue-o, pelas subtilezas com que interioriza as ideias feitas e digeridas do universo norte-americano à realidade espanhola: há um detalhe de uma das personagens femininas, basilar na história, que seria impossível de tratar numa série norte-americana.

As comparações com “Gossip Girl” e “Big Little Lies” são apenas para situar esta “Elite”. Dificilmente será melhor do que qualquer uma dessas duas, contudo, é um refresco na problemática adolescente, entre o objeto do mistério/crime e a tensão sexual entre miúdos num clima de explosão. É muito difícil ser-se sexy nisso da forma certa e, pelo menos isso, “Elite” consegue-o. Os oitos episódios serão marcados como “vistos” num instante.

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