Num artigo publicado nesta semana na Vanity Fair, Taylor Antrim fala de como “Elite”, a nova série espanhola que acaba de estrear na Netflix, é a sua nova obsessão trashy europeia; ou, para se ser mais refinado na descrição, série adolescente europeia. Compreende-se: o ritmo e as interpretações das séries espanholas dão aquele ar “mais-novela-do-que-série” para os norte-americanos (daí o trashy). E não resiste a comparar a “The O.C.”. A comparação vale, mas o olhar europeu sobre “Elite” pode apurar comparações: é uma combinação mortífera entre “Gossip Girl” (outra criação de Josh Schwartz, autor de “The O.C.”) e “Big Little Lies”, série da HBO estreada no ano passado, criada por David E. Kelley e com Reese Witherspoon, Nicole Kidman e Laura Dern.

Por partes: o que é “Elite”? Criação de Darío Madrona e Carlos Montero, que no currículo têm outras séries para adolescentes com alguma popularidade em Espanha, centra-se no dia-a-dia de uma escola de elite, Las Encinas, e no eterno confronto entre classes ricas e pobres. Para os ricos, aquele é o seu habitat; os pobres, que conseguem ir para lá estudar através de uma bolsa, são um corpo estranho em constante conflito interno com o seu sentimento de pertença.

Existem dois tempos na série (essa é uma das semelhanças com “Big Little Lies”): um no presente, onde se investiga um crime (outra das semelhanças) e se interroga as várias personagens da série sobre a morte de uma das estudantes; e outro no passado, sobre o início do ano escolar e a entrada naquela escola de elite de três jovens que conseguiram bolsa — Samuel (Itzan Escamilla), um rapaz com boas intenções que vive à sombra do irmão, Nano (Jaime Lorente, o Denver de “A Casa de Papel”), que tem um passado duvidoso e aquela raiva de puto pobre; Nadia (Mina El Hammani), uma muçulmana que vive entre a tradição, família e as tentações daquele novo ambiente; e Christian (Miguel Herrán, o Rio de “A Casa de Papel”), que está pronto para ser abençoado pelo pecado.

No primeiro episódio o cenário é bem montado. Há crime, confronto social, personagens que fazem coisas estúpidas (ou adolescentes) só porque sim, drogas, sexo, linha narrativa de “A Dama e o Vagabundo” (é aí que começa a tocar em “Gossip Girl”, não pelo cliché da coisa, mas plea forma como o faz) e putos ricos insuportáveis dispostos a brincar com as pessoas para levar avante as suas obsessões (elemento bem copiado do Chuck de “Gossip Girl”).

É percetível, rapidamente, que “Elite” é mais do que uma série adolescente, vem carregada com o guilty pleasure de enfiar o mundo adulto num universo de menores, com a elegância de um enredo de segunda divisão da HBO mas com a luxúria visual e o apetite carnal de Jason Schwartz: Schwartz foi muito criticado, a propósito de “Gossip Girl”, por mostrar a sensualidade – mais do que a sexualidade – dos adolescentes tal como ela é.

Essa é uma vitória de “Elite”, tangível nos primeiros episódios: não é gratuita. É elegante nas suas obsessões, esquiva no modo como encontra o seu próprio caminho. De certa forma, é fácil de a comparar com “A Casa De Papel” na forma como bebe descaradamente das suas influências, mas fá-lo com a segurança de um produto novo. E num mundo limitado como a representação de uma certa adolescência — mesmo que os nossos olhos comam mais essa adolescência da ficção do que da realidade –, é difícil brincar ao novo com convicção. “Elite” consegue-o, pelas subtilezas com que interioriza as ideias feitas e digeridas do universo norte-americano à realidade espanhola: há um detalhe de uma das personagens femininas, basilar na história, que seria impossível de tratar numa série norte-americana.

As comparações com “Gossip Girl” e “Big Little Lies” são apenas para situar esta “Elite”. Dificilmente será melhor do que qualquer uma dessas duas, contudo, é um refresco na problemática adolescente, entre o objeto do mistério/crime e a tensão sexual entre miúdos num clima de explosão. É muito difícil ser-se sexy nisso da forma certa e, pelo menos isso, “Elite” consegue-o. Os oitos episódios serão marcados como “vistos” num instante.